[QUADRINHOS] Wytches, de Scott Snyder e Jock (resenha)

Você já passou por isto: tentou fugir de seus problemas se afastando fisicamente de uma pessoa ou local ao qual atribuiu a causa deles para, algum tempo depois, concluir que o problema estava em você e não no outro. Este é, basicamente, o drama vivido pela família Rook. Com um diferencial: os problemas que atormentam o casal e sua filha adolescente têm uma natureza sobrenatural, e os efeitos são potencialmente fatais, horripilantes e terrivelmente traumáticos.

Partindo de uma premissa que me remeteu aos clássicos de Stephen King, como O Iluminado e O Cemitério – claramente homenageado por Scott Snyder em Wytches (que, por sua vez, foi elogiada por King) – a HQ usa a já recorrente, e um tanto batida, ideia de uma família que se muda pra uma cidade do interior do estado, a fim de recuperar a paz que perdeu após um acontecimento que a afetou profundamente. Mas isto não significa que esta iteração represente mais do mesmo.

Pra começar, a sequência de páginas iniciais são perturbadoras e inusitadas o suficiente pra fisgar a atenção de qualquer leitor que aprecie uma história de terror. Você termina de lê-las querendo saber o que foi aquilo, e como o ocorrido afetará os Rooks.

A mitologia concebida por Snyder e retratada pelo traço rústico, atordoante e febril de Jock, possui elementos interessantes o bastante pra tornar cativa a nossa atenção: seres misteriosos e atemorizantes; uma mulher estranha que sabe mais sobre eles do que revela; eventos inexplicáveis pela ciência humana; uma adolescente tentando entender o que diabos está acontecendo com ela; e um pai procurando manter algum tipo de controle e normalidade no meio de coisas que não compreende, enquanto lida com pendências não totalmente resolvidas e que, aparentemente, têm relação com tudo isto.

Snyder é um bom escritor, mas certamente quem merece mais créditos pela eficácia do terror de Wytches é Jock. É sua arte suja e intencionalmente cheia de “ruídos” e sombras que parecem esconder algo que só percebemos com o canto dos olhos – efeito que foi intensificado pela excelente colorização mista de Matt Hollingsworth – que torna a atmosfera da trama inquietante, e cria um desconforto sufocante no leitor.

A combinação do roteiro de Snyder, da arte de Jock e da mistura de cores digitais e aquareladas de Hollingsworth deixa alguns eventos difusos o suficiente pra nos levar a questionar a sanidade mental dos Rooks, o que enriquece ainda mais a experiência sensorial que é ler Wytches. Um exemplo é Sailor, a filha dos Rooks, que tem transtornos de ansiedade, potencializados após testemunhar o “sumiço” de uma moça que a atormentava no colégio.

Conforme a trama se desenrola, vamos descobrindo que há motivos por trás do que está acontecendo com os Rooks. Coisas relacionadas ao passado dos pais de Sailor. Coisas que, aparentemente, os levou a fazer algo que arrastou sua filha para um caminho sem volta que parece apontar para a insanidade decorrente do contato com seres míticos mais antigos do que a humanidade.

Snyder tem o dom de deixar seus leitores tão perdidos e confusos quanto seus personagens, testando os limites deles e os nossos. Tem um punhado de páginas de Wytches em que nada parece ter algum sentido, e você sente um misto de sufoco e frustração por não entender pra onde a história está caminhando. Felizmente, Snyder soube amarrar as pontas que foi deixando soltas, e o que não fazia sentido antes ganha uma coesão que eu não consegui enxergar na primeira leitura. Melhor que isto, ele soube usar seu conto de terror para transmitir lições sobre lutar contra nossos defeitos, superar nossos problemas e encarar nossos medos de frente. São questões que, vez ou outra, todos temos que encarar, porque vivemos nos esquecendo de quão fortes somos, e quão boa nossa espécie é de se adaptar a situações extremas.

Paralelo a isto, temos a construção de uma nova mitologia das bruxas, que lembra um daqueles episódios de Arquivo X em que agentes Mulder e Scully se metiam numa encrenca envolvendo alguma seita de fanáticos religiosos que comandava uma cidadezinha onde Judas perdeu as botas. Wytches tem aquele clima angustiante das situações inescapáveis do tipo “nós contra todos”, nas quais não encontramos uma saída, até alguém tomar uma atitude inesperada, e abrir um caminho à força.

O que começa com uma pegada que lembra os clássicos de Stephen King, termina com uma nota paradoxalmente otimista. Isto acaba combinando com a trama imaginava por Snyder, pois, em seu cerne, Wytches é sobre um pai lutando pelo futuro de sua filha, e sobre os sacrifícios que os pais fazem por nós. A “cobertura” desse bolo feito de terra e madeira retorcida pode ser tão assustadora quanto um covil subterrâneo onde criaturas saídas de pesadelos cozinham pessoas vivas num caldeirão aquecido com chamas vindas diretamente do Inferno, mas a lição que fica, pra quem está disposto a ir até o fim desse sonho muito ruim, é como aquela chama que se acende em nossa vida quando passamos por nossos momentos mais escuros. Felizmente, toda a escuridão se dissolve quando uma chama impõe sua presença. Depois disto, basta que lutemos contra nossos medos até que o sol penetre no fundo do poço em que estamos, para que possamos nascer de novo para mais um dia…

Além da HQ, temos nas páginas finais alguns extras onde Snyder fala um pouco de suas fontes de inspiração para Wytches; amostras do processo criativo de Jock; e todas as etapas da colorização de Hollingsworth, o que enriquece ainda mais nossa experiência, além de nos incentivar a fazer novas leituras.

A edição da DarkSide Books está bem de acordo com o tom sombrio da narrativa. E a tradução de Érico Assis merece elogios, por ter conseguido adaptar para o português os regionalismos de Litchfield, especialmente nos trechos em que Charlie se encontra com Clara. Minha única ressalva é a escolha de “Brvxas” como correspondente da palavra “Wytches” (que, por sua vez, é “witches” – bruxas, em português – escrita com erro de grafia). No idioma original a pronúncia é semelhante à palavra “adulterada”, mas em português não faz sentido. Fora isto, é um trabalho de tradução exemplar de uma edição à altura da qualidade do material reunido.


DarkSide Books

Tradução: Érico Assis

Capa dura

26,6 x 17,6 x 1,6 cm

192 páginas

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Cultura

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