[QUADRINHOS] Wild Children – Você Está Prestando Atenção?

Wild Children

Autores: Ales Kot (roteiro), Riley Rossmo (desenhos), Gregory Wright (cores) e Clayton Cowles (letras)
Ano: 2012
Editora: Image Comics

“(…) Crianças cujos sentidos elucidados são traídos numa feitiçaria de prazer esplêndido refletem algo brutal e obsceno na natureza da própria realidade: anarquistas ontológicos por natureza, anjos do caos — seus gestos & odores corporais espalham a seu redor uma selva de presença, uma completa floresta de presciência com cobras, armas ninja, tartarugas, xamanismo futurista, incrível bagunça, mijo, fantasmas, luz do sol, punheta, ovos & ninhos de aves — agressão exultante contra os adultos desses Planos Inferiores tão impotentes para englobar tanto epifanias destrutivas quanto criações sob a forma de extravagâncias frágeis, mas afiadas o suficiente para cortar o luar.

E ainda assim os habitantes destas dimensões inferiores de águas revoltas piamente acreditam que controlam os destinos das Crianças Selvagens.”

Hakim Bey, em Zona Autônoma Temporária.

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No ano passado, o jovem escritor Ales Kot estreou na indústria estadunidense de quadrinhos com a independente Wild Children, lançada pela editora Image Comics. E para a surpresa de muitos leitores, em seu primeiro trabalho, Kot demonstrou todos os traços possíveis de sua personalidade e que é um dos mais promissores escritores que surgiram nestes últimos anos no meio. Com essa citação do filósofo pós-anarquista Hakim Bey como introdução e também inspiração para o título de sua obra, ele apresenta um sincero desabafo sobre os problemas do modelo dos sistemas educacionais tradicionais e uma ode à liberdade individual.

A premissa em si, já toca num ponto polêmico: os massacres que acontecem em escolas causados por alunos com problemas emocionais ou mentais, como o que ocorrera em Columbine, por exemplo. Mas diante dessa questão, Kot não pretende utilizar do possível choque de atos extremos de violência como meio de tocar no cerne da questão sobre a infelicidade que diversos alunos passam ao se sentirem oprimidos ou limitados nesse ambiente. Quando Uma, a líder dum grupo de alunos revolucionários, toma a escola onde estuda e seus educadores armada com “perigosas” ideias, o seu objetivo em ponto algum é maltratá-los ou feri-los fisicamente, pois o que ela e seus colegas apenas querem é apresentar o quão errada é a percepção do senso comum de como o universo e as estruturas da sociedade funcionam.

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Após conseguir finalmente a atenção de seus professores, o grupo comandado por Uma invertem os papéis e se tornam educadores, iniciando uma série de discursos sobre o que pode ser compreendido como tempo e espaço, e como isso influencia em nossas vidas. Utilizando as câmeras da escola e webcams, transmitem essa “aula” para o mundo via internet, logicamente sendo considerados meros “terroristas” pelos adultos que apenas observam suas habilidades oratórias em oposição. Numa pegada bastante carregada de símbolos e metalinguagem digna de Grant Morrison, mas menos hermética e mais catártica e objetiva, o escritor passeia pelos mais variados conceitos de realidade e o quanto a forma como compreendemos as estruturas dessa nos afeta. É uma obra de tons psicodélicos e filósoficos que desafia também a maneira como compreendemos os quadrinhos em si, desconstruindo linguagens e formando novas em seguida. Além de soltar toda a sua carga de referências culturais, filosóficas e políticas que compõem seu próprio pensamento, Kot também está interessado no diálogo aberto, quebrando a quarta parede se necessário, e assim dando ao espaço livre para ao leitor redescobrir-se no meio de sua salada de ideias, pois ao questionar as ações e motivações de seus personagens, acabamos questionando a nós mesmos.

É o debate entre o novo contra o velho,  jovens repensando em bases antiquadas que os adultos ainda mantém vivas, fundações falidas que deveriam ser reformadas. O grupo de Uma é composto por estudantes escolares cansados de estarem sendo instruídos a seguirem padrões da nossa sociedade, procuram fugir das convenções pré-estabelecidas e buscar o entendimento do mundo à sua própria forma. Estão aborrecidos e desestimulados com o sistema que convivem, descartam o marasmo da ordem e aceitam o caos como meio de compreender as engrenagens que movem o universo. Afinal a juventude é o futuro de nossa história e possuem o direito de terem o poder de analisar o que está errado e então corrigir.

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No final, a realidade se mostra como mera percepção, e como todos sabem, percepção é algo subjetivo. No universo metafísico de Ales Kot, a maioria desses problemas que assombram nossa história há tanto tempo são imposições criadas por nossas próprias mentes. E o segredo para se livrar delas é como a ideia da “bomba” presente na mente de Grant Morrison, que já a abordou em Flex Mentallo, segundo o próprio nessa declaração: “O personagem fala sobre quando ele se deu conta de que a bomba, antes de ser uma bomba, foi uma ideia. E acaba entendendo que, se o Superman é uma ideia melhor, por que não torná-la real no lugar da outra?”. Fantasmas do passado precisam ser expurgados para o renascimento no florescer dum amanhã melhor. Mais do que tudo, Kot acredita que cada um possui o direito de viver baseados em seus próprios pensamentos individuais, sem estarem reféns de dicotomias ideológicas como “céu”ou “inferno”, pois só assim estará livre para superar as dificuldades e aceitar o amor que o mundo lhe trará.

Wild Children é um puro discurso apaixonado e caótico de Ales Kot a tudo que ama ou rejeita na história e cultura da sociedade em seu texto, através de todas as coisas que lhe inspirara e, consequente, o influenciara até o momento. Captado perfeitamente pelas experimentações artísticas do ilustrador Riley Rossmo, emanado pelas cores de Gregory Wright e traduzido pelas letras de Clayton Cowles. Conseguindo não só se expressar livremente com sua própria voz, mas dando ao seu leitor a oportunidade de redescobrir a si mesmo, e instigá-lo a observar o universo e o campo de ideias ao seu redor duma forma diferente, procurando que cada um encontre e abrace sua própria consciência e assim livre-se do ciclo vicioso que possa estar preso.

OBS: Caso queira ler esta obra, podem conferir este link: http://bit.ly/18C8SDm, ou esta scan bem traduzida pelo VonDEWS do blog VertigemHQ: http://bit.ly/J91bbL. Claro, quem puder, podem procurar a edição importada ou cruzar os dedos para que este material venha para cá algum dia.

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2 thoughts on “[QUADRINHOS] Wild Children – Você Está Prestando Atenção?

  1. Nunca tinha ouvido falar desta, mas fiquei muito interessado. Ales Kot, Matt Kindt, Charles Soule são todos nomes que estão despontando em séries autorais, e que a Marvel já deu um jeito de contratar. Vale uma olhada nos trabalhos dos caras pra que ver do que realmente são capazes sem intervenções editoriais.

    Vou atrás desta.

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