[QUADRINHOS] Violent Cases (resenha)

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A obra que marcou a 1ª parceria entre Neil Gaiman e Dave McKean finalmente ganhou uma nova edição em 2014, graças à Editora Aleph. É desta nova edição de Violent Cases que falarei na resenha abaixo.

violent-cases-neil-gaiman-dave-mckean-editora-aleph-preview-1Violent Cases conta a história de um jovem que, quando criança, após ter o braço deslocado por uma abordagem mais severa de seu pai, é levado ao consultório de um osteopata – mistura de massagista e médico alternativo especialista em ossos e músculos – que chegou a trabalhar para ninguém menos do que o famoso gângster Al Capone. A narrativa cruza os relatos do jovem com as memórias contadas a ele, quando criança, pelo tal osteopata.

violent-cases-neil-gaiman-dave-mckean-editora-aleph-preview-2Nesta graphic novel, Gaiman resolveu usar sua habilidade com as palavras e a flexibilidade e tendência a experimentações de  McKean para compôr um conto sobre a efemeridade e mutabilidade das memórias, sendo o melhor exemplo disto a aparência variável do osteopata. Em boa parte da trama ele é desenhado como Albert Einstein, algo que podemos interpretar como uma representação da figura sábia que o menino enxergava nele. Além deste caso específico, McKean usou em toda a trama uma abordagem quase literal para retratar as imagens mentais produzidas pelo fluxo de consciência do narrador da trama, que é personificado como Gaiman no presente. 

violent-cases-neil-gaiman-dave-mckean-editora-aleph-preview-3Um dos muitos detalhes que vale observar em Violent Cases são as fontes. Enquanto as usadas nos recordatórios e falas do narrador são todas em letra cursiva, a dos personagens mais velhos são em “CAPS LOCK”, uma forma sutil de salientar a superioridade com que o protagonista enxergava os adultos quando criança.

Também merece menção o estilo infantilizado com que vários trechos das memórias são descritos, “contaminados” pelo imaginário infantil, sugerindo que a evocação de memórias também consiste em evocar “estados mentais” ligados aos períodos recordados. Isto, somado à arte de McKean, exibe uma sofisticação narrativa só possível na linguagem verbo-visual dos quadrinhos, com suas sobreposições, montagens e sequenciamento espacial dos quadros.

violent-cases-neil-gaiman-dave-mckean-editora-aleph-preview-4A violência crua dos gangsteres contraposta com as memórias infantis do narrador tornam ainda mais pungente o impacto dos dois aspectos da narrativa no leitor. A alternância entre eles é muito bem ritmada pelas palavras precisas de Gaiman e a narrativa visual de McKean, alcançando um clímax de livre associação frenética na página final, que sintetiza toda a trama em poucos quadrinhos de maneira brilhante.

Também merece elogios a tradução de Érico Assis, que preservou o tom confessional, casual e intimista do texto de Gaiman. E a edição bela e caprichada da Aleph valorizou a qualidade gráfica da obra ao imprimi-la num formato maior, que deu espaço à arte de McKean para respirar e expressar-se plenamente em sua cacofonia visual e onírica. Complementa o ótimo design da graphic novel a capa feita exclusivamente para o Brasil por Pedro Inoue (também responsável pelo belo projeto gráfico da edição de 30 anos de Neuromancer).


violent-cases-neil-gaiman-dave-mckean-editora-alephViolent Cases

Roteiro de: Neil Gaiman
Arte de: Dave McKean
Capa de: Pedro Inoue
Tradução de: Érico Assis
Ano de publicação: 2014
Número de páginas: 64
Acabamento: brochura
Formato: 21,5 x 29 cm
Editora: Aleph
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nota-5