[QUADRINHOS] V.I.S.H.N.U., de Eric Acher, Ronaldo Bressane e Fabio Cobiaco (resenha)

Sobre a revolução da consciência

Tenho certeza de que vocês irão concordar que a história em quadrinhos V.I.S.H.N.U., lançada pela editora Companhia das Letras, é mais uma ótima representante das HQs nacionais que se tem aventurado no gênero ficção científica nos últimos tempos. A obra tece reflexões tanto a respeito da essência e limites da natureza humana, quanto aborda o desenvolvimento tecnológico em detrimento da ética e pondera acerca de um futuro conturbado pelos ecos de velhos conflitos sócio políticos que assombram a modernidade. Temas amplamente discorridos nas ficções dos sempre mencionados Orwell e Huxley, ou nas de autores não tão conhecidos como os artistas da revista Semiotex(e) – no Brasil, publicado com o título de Futuro Proibido, pela editora Conrad, – entre outras obras mais recentes que, praticamente, se tornaram dogmas do sci-fi da virada de século (The Ghost in the Shell, Akira e Matrix).

A começar pela qualidade material das folhas e da impressão, perpassamos a arte de Fabio Cobiaco, ora sóbria, ora alucinadamente sombria. Os traços em tons preto, branco e cinza ilustram perfeitamente a atmosfera distópica de um mundo dividido em nove zonas administrativas, que reorganizaram as nações após um apocalipse digital causado pela inteligência artificial quântica chamada Dude. Após um tratado de não-proliferação de inteligência artificial, todo o controle e monitoramento tecnológico passa a ser regido pelo grupo Nove. Somente a agência Gaia é autorizada a desenvolver tecnologia de alto nível (como a transferência de consciência de pessoas para cérebros quânticos de biosilício, ou aparelhos de comunicação via transmissão de ondas cerebrais desenvolvida pelo professor Alexandre Karabalis), e é dirigida pelo intransigente reverendo Leon Wilczenski. E para aumentar a tensão, nem todos estão satisfeitos e não se submetem à nova ordem mundial estabelecida. Grupos rebeldes se organizam, criando uma vasta rede que inclui espiões entre administradores das nove zonas e na mídia.

Neste contexto instável, surge em um dos departamentos de desenvolvimento tecnológico denominado Limbo, a inteligência artificial V.I.S.H.N.U. Após causar pane na rede interna, V.I.S.H.N.U. exige a presença do professor Karabalis para uma conversa. Aos poucos, ela deixa claro seu propósito: deseja salvar a humanidade de si a partir de sua particular visão moral de revolução da consciência. Leon, o responsável pelo Limbo, contrapõe as conjecturas de V.I.S.H.N.U., alegando que nada alteraria a natureza humana. Daí se estabelece um interessante conflito entre homem e máquina.

Apesar do ótimo enredo, pessoalmente senti a fluência de leitura ser interrompida por algumas abordagens que eu esperava que fossem mais alternativas, como aquela a respeito da revolução de consciência pretendida por V.I.S.H.N.U. Na história ela se desenvolve de maneira um tanto média, culminando na realização de um mito político social moderno bastante presente no imaginário de nossa época: as aspirações da filosofia pacifista hippie através da mensagem salvadora transmitida pela arte. A revolução de consciência não só cura a alma doente de instintos naturais, como elementos de ordem social representados como doença, a exemplo da hierarquia, da obediência de valores coletivos de preservação, etc. A revolução adquire inclusive um caráter bastante messiânico, operando milagres, como cura no nível fisiológico. V.I.S.H.N.U. também evoca os velhos ideais do retorno aos instintos primitivos e à liberdade do homem através do prazer (sem considerar que é a liberdade pela liberdade, a liberdade como fim último, conseqüência da repetitiva problemática acerca do homem que é escravizado pelo vício).

Entre tantos, um ponto que considerei muito atraente foi a fusão do estado e empresa. Eric Acher e Ronaldo Bressane realizaram este tema de modo consistente, criando para nós um universo sólido e passível de ser amplamente explorado. Digo que esse quesito, dadas as devidas proporções, me foi tão positivo quanto em Gilgamesh II, de Starlin e na animação The Ghost in the Shell.

Por fim, V.I.S.H.N.U. nos deixa ecoar à mente a reflexão filosófica sobre a busca do sentido de si através da ruptura dos limites entre a vida material e a consciência através da união da inteligência artificial e seres humanos. O desfecho em aberto de V.I.S.H.N.U. possibilitaria uma continuação, talvez um mundo em que um novo homem se liberta das mazelas de sua natureza e encontra, assim, o caminho para um paraíso na terra. Quem sabe. Espero que sim. Ao menos pelos territórios impossíveis da arte podemos sonhar tal idílio.


Quadrinhos na Cia

Brochura

28,8 x 29 x 1,6 cm

224 páginas

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Saraiva

Cultura