[QUADRINHOS] Uma Metamorfose Iraniana, de Mana Neyestani

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Num país cuja política é extremamente punitiva contra aqueles que atacam seus governantes, uma tirinha dominical mal interpretada pode transformar a vida de um quadrinista num inferno. Este foi o drama que Mana Neyestani enfrentou em 2006, quando ficou preso por 3 meses e foi obrigado a fugir de seu próprio país.

Conforme já indica o nome da graphic novel, Uma Metamorfose Iraniana tem alguns elementos em comum com o clássico de Franz Kafka, a começar pela presença de um inseto na história, que atormenta seu protagonista do início ao fim. Mas não para por aí. A trama também possui semelhanças temáticas com a obra kafkiana, as quais constatamos conforme o autor relata a situação insólita gerada por sua ingênua tira de jornal. A proporção tomada pelas manifestações dos turcos azeris contra ela soam absurdas para nós, ocidentais. Por outro lado, isto torna mais impressionante o quão destrutivo é o poder dos preconceitos étnicos naquela região do mundo onde eles são o estopim de guerras civis.

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Um ponto que fica bem claro no início da história é que a tira mal-interpretada de Mana fez dele um “bode expiatório” de tensões que só aguardavam uma oportunidade de explodir em forma de manifestações e desordem pelo Irã. Por isto, Mana foi punido como forma de apaziguar os ânimos da etnia turca, os azeris, que se sentiu ofendida por, supostamente, ser representada como uma barata, quando, segundo a explicação de Mana, ele usou uma palavra que, pra ele, não significava nada, mas que para os azeris é um termo pejorativo para se referir a eles. E o quadrinista soube trabalhar muito bem o aspecto simbólico de sua narrativa, ao tornar a barata uma entidade sobrenatural que passa a atormentá-lo. É como se o inseto causador da série de eventos desafortunados que enfrentou fosse uma encarnação da deusa Fortuna.

Com o intuito de dar mais peso e dramaticidade aos seus desenhos, Mana usou muitas hachuras, que remetem ao aspecto sombrio dos obras de Kafka. O quadrinista também fez uso de expressionismo e metáforas visuais para retratar o impacto dos fatos sobre ele.

E seu traço mais caricato tornou tudo mais significativo, como a tensão de conviver com detentos que podem ameaçá-lo caso descubram o que fez. No que diz respeito à arte da graphic novel, é especialmente marcante o capítulo em que Mana reconta como ficar isolado numa cela por mais de 2 meses afetou sua mente. Combinando todos os elementos gráficos e textuais que definiu para a história, Mana criou um dos trechos mais imersivos da graphic novel.

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Esse aspecto imersível de Uma Metamorfose Iraniana também se sobressai quando Mana salienta o quanto o terror psicológico gerado por toda a situação em que se encontrava foi pior do que os perigos reais da situação em si. Muitas das sequências de violência física são criações da imaginação do quadrinista, enquanto temia o que o aguardava toda vez que o conduziam de sua cela até uma sala de interrogatório, ou um novo pavilhão do presídio.

Outro ponto sublinhado por Mana é a luta que travou consigo mesmo devido à culpa que sentia por seu trabalho ter causado vários protestos, violentamente reprimidos pela polícia iraniana. Culpa que foi explorada pelo governo iraniano na tentativa de forçá-lo a entregar colegas de trabalho que eram contra o regime.

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Mana também fez questão de denunciar a discriminação e opressão sofridas pelos afegãos nas mãos dos iranianos, uma das várias injustiças que testemunhou enquanto esteve preso, tão vítima quanto eles da maquinação de pessoas mais poderosas e influentes.

Mesmo que sua prisão tenha durado “apenas” 3 meses, Mana reforça em diversos trechos o quanto a experiência o marcou para sempre. Por exemplo, que após ganhar liberdade provisória, ele tornou-se mais paranoico, ao ponto de não confiar em mais ninguém de seu país, temendo estar sob vigilância e ter qualquer atividade suspeita relatada, motivando uma nova prisão. Isto acontece na metade da história.

Quando ele constata que é só uma questão de tempo até que o joguem de volta à prisão, começa o trecho mais tenso da graphic novel. Claro que em parte isto é devido ao nosso conhecimento de que ela foi baseada em fatos reais, mas é o talento do quadrinista que nos possibilita sentir a urgência da situação a cada obstáculo que Mana e sua esposa, Mansoureh, encontram pelo caminho quando tentam fugir do Irã.

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A leitura da graphic novel é tão envolvente que fui capaz de sentir medo, estresse, raiva e alegria junto com Mana e Mansoureh. Quando os dois brigam, senti a tensão crescente entre eles enquanto testemunhava suas discussões. Isto atesta o talento do quadrinista.

Também é digno de elogios a sacada que Mana teve de imaginar uma história pregressa para o funcionário público responsável por liberar sua entrada na China, que ele conta paralela a três dos capítulos finais da graphic novel. Dessa forma, ele nos prepara para o momento decisivo, no qual ele e o funcionário se encontram como num duelo.

A graphic novel é cheia de momentos inspirados, como as rimas visuais criadas por Mana, que transmitem ao leitor a sensação de continuar numa prisão formada pelo ciclo de má sorte composto por situações traumáticas que remetem umas às outras.

Apesar de ser uma história publicada originalmente em 2012, Uma Metamorfose Iraniana permanece atual, pois aborda o drama dos refugiados iranianos, e suas tentativas de recomeçar suas vidas em países mais acolhedores e menos opressores. Além disto, ela é uma das muitas provas do quanto uma obra de arte, independente de seu formato, pode afetar o mundo real, e vice-versa. Só por isto sua leitura é mais do que recomendada, é essencial para quem enxerga as histórias em quadrinhos sem preconceitos, como a forma de arte que elas sempre foram.


nota-5


uma metamorfose iraniana mana neyestani editora nemoEditora Nemo

Capa comum

24,4 x 16,8 cm

208 páginas.

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