[QUADRINHOS] Trillium: Uma História de Amor Que Transcende Tempo e Espaço (REPUBLICADO)

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“Together… we’re not broken anymore.” – Nika e William

Em 3797, a humanidade se resume a pouco menos de 4000 indivíduos, que lutam contra Caul, um vírus senciente que devastou a raça humana através do universo. Neste futuro vive Nika, uma xeniologista que está trabalhando na tradução do idioma dos atabithianos, a raça alienígena que vive no planeta Atabithi, um dos poucos do universo conhecido onde cresce a flor Trillium, componente essencial para desenvolver a vacina contra a devastadora doença.

Em 1921, William parte com uma equipe de exploradores para as florestas ancestrais do Peru em busca de um templo inca onde, acredita-se, está a fonte da vida eterna.

As vidas de Nika e William se cruzam quando ambos encontram, cada um em seu tempo, um portal que os leva para os tempos um do outro.

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Trillium é uma ficção científica psicodélica transcendental contada por meio de uma narrativa experimental, que convida o leitor a interagir com o formato da HQ: virá-la de cabeça pra baixo pra acompanhar alguns seguimentos da história; ler uma parte dela na ordem normal, e a outra de trás pra frente; girar a página para acompanhar uma sequência de quadrinhos em espiral, entre outros malabarismos narrativos.

Apesar da trama envolver viagens através do tempo em portais localizados em templos incas; telepatia gerada por plantas; troca de corpos entre tempos distintos; permuta de mentes e de vidas; alienígenas e reencarnações, em sua essência Trillium é uma história sobre solidão (de indivíduos e de uma raça em extinção, à deriva pelo universo); sobre pôr-se no lugar do outro para, assim, conhecê-lo profundamente; sobre até onde estamos dispostos a ir por nossas crenças, e até que ponto somos capazes de lutar contra aqueles que duvidam delas, nos encarando como loucos.

Uma das virtuoses narrativas de Lemire: metade da história é contada na ordem normal na parte de cima, e a outra metade de trás pra frente na parte debaixo.

Uma das virtuoses narrativas de Lemire: metade da história é contada na ordem normal na parte de cima, e a outra metade de trás pra frente na parte debaixo.

Jeff Lemire consegue explorar com sensibilidade a angustiante e desesperadora jornada de Nika e William, que lutam a todo instante para provarem a veracidade de suas fantásticas experiências.

Acho admirável a persistência de Lemire, com seu traço rústico, sua técnica precária, e não acadêmica, mas uma vontade inabalável de dar forma às suas ideias em histórias como Trillium e The Underwater Welder. Obras que, se analisados apenas seus aspectos visuais, não são belas, mas cuja combinação de texto e imagens é bem tocante, sensível e comovente, transmitindo muito com seu traço quase infantil e “garranchado”. Isto é ser um grande contador de histórias: ir além do que a técnica é capaz de transmitir, transcendendo a forma, e expressando o que há de universal e fundamental por trás dela. Jeff Lemire é o Antoine de Saint-Exupéry dos quadrinhos.

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Em sua essência, Trillium é uma história de amor com uma roupagem sci-fi sobre um casal que luta contra o tempo e o espaço para ficarem juntos, cujo reencontro se mostra fundamental para salvar a humanidade da extinção. De uma sensibilidade ímpar, e hábil em abordar temas universais e mitos como os de Adão e Eva e a Arca de Noé, sem torná-los o cerne da narrativa, mas subtramas que caminham em paralelo com um belo e épico romance atemporal.

TRILLIUM #1-8
[Vertigo, média de 22 páginas por edição / 2013-2014]
Roteiros e desenhos de Jeff Lemire, cores de José Villarrubia (passado) e Jeff Lemire (futuro)

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(versão importada em inglês).

Nota 9,0