[QUADRINHOS] Três Sombras, de Cyril Pedrosa (resenha)

Algumas histórias, mesmo nos revelando fatos terríveis a despeito da vida, sobre nossa finitude, ou a possibilidade irrevogável da perda de quem amamos, parecem nos elevar a regiões talvez mais familiares do que nossa própria casa. Foi exatamente assim com Três Sombras. Logo na primeira página, eu senti que retornava a um lar feito de histórias esquecidas. Algo como na época em que minha mãe contava algumas antes de o sono vir até mim.

Os mosquitos zuniam naquela noite, mas o que eu via eram anéis de fumaça subindo acima de cabeça de Luis, pai de Joachim e marido de Lise. Ele e o menino plantavam uma árvore nos fundos de casa. Uma vida simples e alegre, como as primeiras páginas sugeriram. Todavia, o mundo descrito pela arte de Cyril Pedrosa estava longe do idílio bucólico que poderíamos imaginar: em uma tarde silenciosa, o cotidiano da família fora perturbado por três sombras. A visita se tornou frequente. A cada dia elas se aproximavam mais. Certa noite, a família descobre que querem Joachim. Resta apenas a Luis fugir, atravessar o grande mar, e levar seu filho para longe, à terra de seus antepassados. Pai e filho iniciam uma jornada deixando Lise para trás.

Ao longo da fuga, os dois se deparam com um mundo povoado por ciganos, mercadores, capitães e escravos. Conhecem tanto pessoas boas quanto más. Testemunham abusos de todo tipo, e saboreiam a injustiça na própria pele.

A princípio, imaginei que a história não iria para além do outro lado do mar, e a trama se encerraria na fuga, e ponto final. A história me sugeria tal impressão. Esperava qualquer clímax, uma morte terrível, ou uma vitória triunfante sobre as três misteriosas sombras. Talvez até uma revelação ao modo de histórias mágicas, em que o pai ou outro antepassado seria culpado por alguma maldição hereditária. Não. Nada disso. Pedrosa foi além.

O autor me carregou para um extremo ermo e frio. Uma bela surpresa. Lá a história culmina como poesia em modo de imagens. Uma bela conclusão sobre até onde um pai iria para salvar seu filho.

Sim. Sei que estou sendo vago. E não. Não vou lhe dizer como aconteceu. Não é uma questão de entregar tudo de mãos beijadas com algum spoiler. Acho improvável estragar a sua futura apreciação contando tudo da história aqui. Simplesmente, depois de ler muitas coisas, ainda que tenha familiaridade com realidades mágicas, pela primeira vez não me sinto capaz de falar.

No instante em que Joachim e Louis ficaram à deriva para serem engolidos pelas vagas da tempestade, as névoas se abriram de modo que li e reli Três Sombras repetidas vezes. O coração vendido, a mortalidade roubada, o destino selado, mesmo tendo relido três vezes naquela noite, não sou capaz de dizer mais nada.

P. S.: Àqueles que lerem Três Sombras a fim de, mesmo por uns instantes, fugir da realidade, aviso que a história não se reduz, de nenhum modo, a tal propósito. Pelo contrário. Ao atento ela dirá que não existe distância longe o bastante para que se fuja do próprio destino.


Quadrinhos na Cia

Brochura

21,4 x 15,8 x 2,2 cm

272 páginas

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