[QUADRINHOS] Traumas de Infância e O Super-Poder Curativo dos Quadrinhos

Something-Terrible-14

(o texto a seguir é de Kate Leth, traduzido e adaptado por Rodrigo F. S. Souza)

Há muito pra ser dito sobre a splash page que conclui a profundamente pessoal Something Terrible de Dean Trippe, um novo quadrinho digital de 18 páginas disponível por U$0,99. Você pode gastar bastante tempo identificando e nomeando cada personagem desenhado na previamente lançada e loucamente reblogada imagem “Você Estará Seguro Aqui”: o Rocketeer, Indiana Jones, He-Man, e essencialmente cada membro da Bat-família. Gremlins, Transformers, Homens-Aranha e… aquele é o Corvo? Personagens queridos populam a cena testemunhada em primeiro plano por um menino, que é protegido pelo Batman em pessoa.

O que você não pôde ver até Trippe lançar a história por trás dela é o quanto a cena significa pra ele não como um fã mas como um homem, e o quanto o mundo de ficção e fantasia pode oferecer a uma criança que realmente precisa fugir da inimaginável realidade de abuso e trauma.

Something-Terrible-4

Something Terrible é a história do abuso sexual infantil sofrido por Trippe e a dolorosa luta contra suas consequências psicológicas. Embora o quadrinho em si seja esparsamente escrito e livre de detalhes horríveis, Trippe oferece um posfácio que relata a dura realidade: ele foi estuprado quando criança por um adolescente, por três dias. O garoto mais velho, que se aproveitou da confiança de alguém bem mais jovem, ameaçou a família de Trippe, e usou uma arma para persuadi-lo. Embora ele tenha sido eventualmente processado, o que foi feito não pôde ser desfeito.

O aspecto mais interessante da HQ é como Trippe aborda a sabedoria convencional do “ciclo do abuso”. Aterrorizado por séries policiais e outros procedurals [séries onde cada episódio lida com um caso diferente, que é encerrado ao final dele] da cultura pop que perpetuaram a ideia de crianças abusadas se tornarem abusadores de crianças mais tarde em suas próprias vidas, Trippe jurou acabar com sua vida se tivesse pensamentos sexuais envolvendo uma criança. Um tópico distintamente sombrio e complexo, ele parece ter causado ao cartoonista décadas de ansiedade. O que acontece com uma vítima de molestação a quem é dito constantemente (se não inadvertidamente) que ela terminará causando a mesma dor a outra pessoa? Que isto é inevitável. Como alguém pode viver com medo, para sempre, de que ele pode se tornar um monstro?

Something-Terrible-9

Em pouco mais de uma dúzia de páginas de quadrinhos, Trippe explica como o mundo da ficção tornou-se uma válvula de escape pra ele – da qual precisava. Ele caiu nos universos dos quadrinhos e dos filmes, encontrando consolo nos heróis que, apesar de suas falhas ou do que se abateu neles, conseguiram realizar feitos fantásticos e salvar outros do mesmo destino. Embora o trauma de Trippe seja (felizmente, esperemos) bastante único, a experiência ainda é universal. Não lemos com frequência quadrinhos de super-heróis para sentir mais plenamente nossas duras, implacáveis realidades – lemos para entrar num mundo de possibilidades infinitas. Através de suas linhas, Something Terrible aborda as camadas sob a superfície da cultura dos fãs, e as coisas que realmente queremos de Gotham e Metrópolis. Podemos nos queixar e reclamar do Batfleck e d’Os Novos 52, mas todos chegamos aqui por um motivo. Alguns de nós apenas precisam disto mais do que outros.

O que adoro neste quadrinho, e em vários quadrinhos autobiográficos, é o motivo pelo qual foi feito. Não há um editor exigindo um prazo de entrega aqui; Dean Trippe tinha um demônio que precisava exorcizar. Boa parte da arte que importa vem de lugares assim. As palavras em sua garganta que você não pode deixar de dizer ou elas te deixarão doente. As canções que precisa escrever para que elas parem de assombrá-lo. As histórias que precisam ser contadas para que você chegue a algum tipo de resolução. É uma arte vulnerável, e há muito pra ser adorado nela. É corajosa, e talvez algumas pessoas se identifiquem com ela de uma forma que genuinamente precisam.

Something-Terrible-7

Entre esta, Things I Lost de Noelle Stevenson e a resposta de Matt Fraction a um fã pensando em suicídio, a comunidade dos quadrinhos tem tocado em alguns assuntos sombrios de uma maneira surpreendentemente esperançosa nos últimos tempos.

A história de Trippe tem o mais próximo de um final feliz. Leia, mas tenha em mente que as estatísticas da vida real acabaram se mostrando a favor de pessoas na posição dele. Crianças que sofreram abusos normalmente não se tornam abusadores. Como Trippe diz, “As estatísticas são terrivelmente altas para isto ser verdade.” É reafirmadora, lançando uma luz completamente diferente sobre o que a arte pode significar para alguém com problemas. Claro, quadrinhos de super-heróis podem ser um jeito divertido de aproveitar o intervalo do almoço, mas também podem ser um porto seguro para crianças tentando lidar com questões mais importantes de suas vidas. Dean Trippe encontrou o Batman num mundo que ele não podia controlar, e isto deu a ele as ferramentas para reconstruir-se. Os quadrinhos deram-lhe as ferramentas para contar sua história, e sua história pode dar a outras pessoas o que elas precisam para seguir em frente.

Desta maneira e de muitas outras, Something Terrible é uma coisa maravilhosa.

Fonte: http://comicsalliance.com

One thought on “[QUADRINHOS] Traumas de Infância e O Super-Poder Curativo dos Quadrinhos

Comments are closed.