[QUADRINHOS] The Shaolin Cowboy – Buffet de Shemp, de Geof Darrow (resenha)

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Recém-fugido do inferno, o Shaolin Cowboy é seguido por uma horda de zumbis até o Deserto Trump, tendo como arma apenas um bambu com uma moto serra em cada uma das pontas, e suas habilidades em diversas artes marciais. Ele conseguirá superar seu apocalipse zumbi particular? Só lendo Buffet de Shemp pra descobrir.

Meu caso de respeito e admiração por Geof Darrow remonta a meados da década de 90, quando li uma reportagem da saudosa revista Herói (se não me engano) sobre Big Guy & Rusty, O Menino-Robô, que ele desenhou a partir de um roteiro escrito por Frank Miller. Lembro-me que fiquei impressionado com a quantidade de detalhes na arte. Mas foi somente anos depois (quase uma década, se bem me recordo) que finalmente pus minhas mãos em uma HQ desenhada por ele. Fiquei perplexo, é claro.

Como não ficar diante de uma arte desta? (página de Big Guy & Rusty)

Como não ficar diante de uma arte desta? (página de Big Guy & Rusty)

Quem tem um primeiro contato com a arte de Darrow não consegue evitar um misto de assombro e reverência. É uma experiência ao mesmo tempo atordoante e imersiva observar os quadros que ele fez. O nível de detalhes que Darrow consegue incluir em cada cenário, em cada personagem e elemento presente é embasbacante.

Não foi à toa que os então irmãos Wachowski (numa época anterior à mudança de sexo de ambas), contrataram Darrow para fazer artes conceituais para Matrix. Arrisco dizer que foi o artista que inspirou a dupla a usar a técnica bullet time no clássico cyberpunk da década de 1990. Darrow já empregava uma versão em 2D da técnica em seus quadrinhos, ao retratar cada mínimo detalhe presente em um fragmento do tempo que ele recortou com sua mente e colou com lápis, pena e nanquim. Basta folhear Big Guy & Rusty ou Hard Boiled (outro trabalho feito em parceria com Frank Miller), pra constatar quão visionário ele foi ao antecipar a técnica que os Wachowski apresentaram ao mundo em 1999 (e que, infelizmente, logo virou “arroz de festa”, sendo usada à exaustão em produções posteriores).

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Isto é bullet time em 2D!

Mas Darrow não é um artista de uma nota só. Entre Matrix e Matrix Reloaded, os Wachowski criaram uma editora, a Burlyman Entertainment, que usaram para lançar alguns quadrinhos criados por eles e alguns amigos que já trabalhavam no ramo, entre eles Darrow. Foi através dela que ele lançou as primeiras histórias do Shaolin Cowboy.

Página da primeira história do Shaolin Cowboy, ainda inédita no Brasil

Página da primeira história do Shaolin Cowboy, ainda inédita no Brasil

Infelizmente esse material nunca foi publicado no Brasil. Buffet de Shemp, a graphic novel publicada este ano pela Editora Mino, é a segunda aventura do personagem, lançada ano passado pela Dark Horse. Desconheço os motivos que impediram a editora de publicar a primeira. Apenas lamento que, por enquanto, não teremos a chance de lê-la. Mas, a boa notícia é que não é necessário saber o que aconteceu com o personagem na minissérie que o apresentou ao mundo, pois logo no início da edição luxuosa lançada pela Mino temos um resumo do que ele enfrentou até chegar ao ponto em que começa Buffet de Shemp.

Aliás, a recapitulação que antecede a HQ é uma diversão em si mesma. Apesar do texto tamanho bula de remédio ser desencorajador, eu recomendo FORTEMENTE sua leitura. É hilário do início ao fim, com mil referências, incluindo algumas alfinetadas em políticos estadunidenses, celebridades, e até algumas brincadeiras com quadrinistas nacionais (óbvias adaptações feitas pelo tradutor da HQ) que valem a leitura. O texto é pra ser levado tão a sério quanto a HQ. Porque, eu não sei se deixei isto bem claro, mas estou falando de uma história em que um oriental gordinho enfrenta uma HORDA DE ZUMBIS com um bambu e duas moto serras no meio de um deserto escaldante! Se você quer levar uma história assim a sério, lamento, cara, mas você precisa de algum tipo de terapia. o.õ

Certo, depois dessa introdução enorme (que não chega a ser tão grande quanto a recapitulação de Buffet de Shemp), falemos da história!

Se fosse pra descrevê-la numa palavra de três letras, eu diria: UAU!

Quer que eu use uma de quatro letras? Ok. Aí vai: FODA!

Uma frase? PUTA QUE O PARIU, DARROW, VAI SE FODER!!!

Pra provar que não é exagero meu, deixe-me dividir com você algumas artes de Buffet de Shemp:

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Certo, pode tomar um fôlego agora. Eu te espero.

Pronto? Então continuemos.

Buffet de Shemp é Darrow desenhando no modo “porra louca”, e fazendo sua própria versão de um apocalipse zumbi, enquanto joga na mistura filmes de artes marciais, faroestes, terror, horror, trash e gore, ao mesmo tempo que proporciona ao leitor uma overdose de carnificina em alta definição que ainda consegue ser um banquete putrefato e bem desenhado PRA CARALHO que, se adaptado pros cinemas, seria o filme B mais caro da história, e que eu pagaria pra assistir com prazer.

Ou, pra resumir a experiência toda: prepare-se para nerdgasmos múltiplos antes de começar a ler esta história!

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Buffet de Shemp quase não tem textos. Há apenas algumas linhas de diálogos em dois pontos da trama, e o resto é Darrow fazendo o que faz de melhor: deslocando nossos maxilares com o virtuosismo de sua arte hiper detalhada.

Não é à toa que caras como Frank Quitely o considerem um mestre. Enquanto Darrow congela o tempo em cada quadrinho que desenha, permitindo que nós consigamos explorar aquele fragmento temporal por minutos ou mesmo horas, Quitely usa uma variante dessa técnica nos quadrinhos que desenha. Ele chegou a desenvolver até mesmo uma nova, enquanto desenhava We3, graphic novel do selo Vertigo escrita por Grant Morrison, onde Quitely não apenas congelou fragmentos do tempo como os dissecou para o leitor, levando-nos a novas experiências de percepção do tempo numa plataforma 2D.

Mas, voltando ao Darrow, o que ele fez em Buffet de Shemp foi o mais próximo de realizar um sonho molhado de nerds que gostariam de assistir um mashup de diversos elementos da cultura pop numa história que não forçasse a barra tentando dar alguma lógica a eles. É quase um videoclipe de 136 páginas, pois em várias delas o Shaolin Cowboy parece dançar enquanto desmembra, dilacera e eviscera zumbis, para, mais adiante, encarnar o Super Mario (!!! <3 ), e começar a matá-los pulando de um para o outro direto na cabeça (mais uma vez: PUTA QUE O PARIU, DARROW!!! <3 ).

Shaolin usando a técnica do Super Mario pra "matar" zumbis

Shaolin Cowboy usando a técnica do Super Mario pra “matar” zumbis

Enfim, creio que falei o suficiente pra você entender que eu me diverti demais lendo essa preciosidade. E espero que tenha sacado que não é um quadrinho com uma história primorosa. Mas garanto que poucas vezes você passará seus olhos sobre uma graphic novel tão bem desenhada como esta. Apesar do sangue, das tripas e dos zumbis, o que temos aqui é uma obra de arte que merece estar numa estante e ser exibida de tempos em tempos para o deleite dos que apreciam uma história bem narrada. Neste ponto, Buffet de Shemp é do mais alto nível.

Palmas para a Editora Mino, que soube tratar o material com a qualidade que ele merecia, lançando-o em capa dura, formato maior, papel de excelente qualidade e impressão impecável, que permite ao leitor enxergar cada detalhe tracejado por Darrow, e cada cor e tonalidade usada por Dave Stewart, que também merece aplausos por realizar a tarefa hercúlea de colorir a quantidade quase inumana de detalhes desenhados por Darrow.

Enfim, chega! Se você não se convenceu de que isto PRECISA estar na sua coleção, eu não sei mais o que dizer. Só me resta lamentar por sua infelicidade de não conhecer os feitos do lendário Shaolin Cowboy.

Amitoufu.

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nota-5


shaolin-cowboy-geof-darrow-mino-capa-resenhashaolin-cowboy-geof-darrow-mino-contracapa-resenhaMino

Capa dura

30,2 x 20,2 x 1,4 cm

136 páginas

Onde comprar:

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