[QUADRINHOS] The Private Eye #1

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Vivemos num mundo que, apesar de todos os problemas sociopolíticos e econômicos, vem sendo a cada dia mais promissor no que diz respeito à propagação das artes. Com iniciativas como o Kickstarter e o Catarse aí para todos tentarem publicar livros e HQs, gravar um CD ou produzir um filme, entre outras formas de expressão artísticas, o cenário global se tornou mais interessante para aqueles que apreciam consumir e produzir arte. Ainda não dá pra qualquer um ganhar a vida com isto, pois muito depende da sorte e, claro, do talento e competência de cada um. Mas, se você dispõe de algum tempo livre e talento, dá pra arriscar-se na produção de uma obra, seja ela em qual formato for, e tentar encontrar seu público na internet.

O escritor Brian K. Vaughn (Y – O Último Homem, Ex Machina) e o desenhista Marcos Martin (Robin – Ano Um, Demolidor) são artistas que já se provaram nos quadrinhos pela competência e qualidade de seus trabalhos. Ambos trabalharam para as duas maiores editoras norte-americanas de HQs, a DC e a Marvel, produzindo obras aclamadas, algumas delas ganhadoras de prêmios importantes como o Eisner e o Eagle, entre outros. Mas chega um momento na vida de artistas tão talentosos e inquietos como eles que a necessidade de uma liberdade criativa maior fala mais alto. Foi pensando nisto que Vaughn propôs a seu colega a criação de uma série independente sobre um futuro em que a internet literalmente explodiu (!) e a sociedade foi profundamente afetada por sua dissolução. Muito perspicaz, Martin não apenas aceitou ajudá-lo a dar forma a este mundo fictício, como sugeriu que a série fosse lançada com exclusividade na internet (esta historinha é contada com mais detalhes por Vaughn no posfácio da primeira edição de The Private Eye).

De cara o que chama atenção na HQ é a disposição horizontal das páginas que cumpre dois propósitos: o primeiro é adequá-la para a leitura em tablets e para o padrão widescreen das telas de PCs e notebooks; o segundo, para dar espaço e amplitude a Martin na hora de apresentar visualmente o mundo imaginado por ele e Vaughn. Assim, temos várias panorâmicas ao longo da história que, além de estampar os belos e detalhados cenários futurísticos, também oferece ao leitor um vislumbre das tendências da moda deste futuro peculiar.

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Num futuro sem internet, o mundo é povoado por avatares.

Num mundo em que a internet deixou de existir, como consequência do que é descrito pela história como um atentado tecnoterrorista, que explodiu a nuvem de dados que constitue atualmente a rede mundial, e expôs segredos de pessoas do mundo inteiro, as tecnologias passaram a se desenvolver mais voltadas a aperfeiçoar e readaptar as relações sociais no mundo exterior, mas ainda seguindo as “convenções sociais” da vida online. Assim, um dos aparatos tecnológicos mais usados pela sociedade do futuro é o NYM. Não fica claro se é uma sigla, ou apenas um sufixo (que significa “palavra” ou “nome” em inglês), mas este é o nome pelo qual são conhecidas as máscaras holográficas usadas por boa parte da população do mundo de Private Eye. Apesar da inexistência da internet, todos agora podem usar avatares no mundo real, e projetar a forma que desejam que o mundo exterior enxergue. É a persona psicanalítica de Carl Gustav Jung levada às últimas consequências. Portanto, saem as telas de iPads, iPhones, PCs e notes e entram os NYMs.

Neste mundo com NYMs, arquitetura arrojada e carros voadores, a imprensa finalmente teve seu poder reconhecido e oficializado como o quarto estado. É ela que policia atividades criminosas relacionada a invasão de privacidade. Como contraponto deste poder temos indivíduos como Patrick Immelmann, o protagonista da série, um jornalista sem licença que trabalha como detetive especialista em localizar pessoas invadindo sua privacidade e desenterrando seus segredos. Nas primeiras páginas da história acompanhamos a conclusão de um de seus casos: uma garota comum que usa uma evolução das maquiagens e cosméticos de hoje para se tornar uma mulher atraente. É assim que descobrimos que neste mundo qualquer um pode “photoshopar-se” e usar disfarces tão convincentes quanto aquelas máscaras da série Missão Impossível.

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No futuro todos podem ser supermodelos da porta pra fora.

Fora todos estes elementos intrigantes que compõem o mundo de Private Eye, talvez a melhor sacada de Vaughn e Martin seja a idéia de misturar elementos futuristas com o clima dos filmes noir. Nada muito criativo aqui pra quem conhece filmes como Alphaville e Blade Runner, mas funciona muito bem da forma como combinaram a alta tecnologia com temas clássicos como mulheres fatais, detetives, transações obscuras (que ironicamente ocorrem à luz do dia), e intrigas que prometem complicar ainda mais a vida do protagonista. Além disto, vários easter eggs estão presentes no escritório de Patrick para a alegria de cinéfilos e ratos de biblioteca, que certamente sentirão vontade de ver/rever e ler/reler os filmes cujos cartazes estampam as paredes do local e os livros empilhados por seus cantos. Isto sem mencionar o álbum Their it Was, da banda de rock Flaming Lips, que é sutilmente sugerido como trilha sonora do primeiro encontro entre o jornalista/detetive e Taj McGill, a femme falale da história.

A femme fatale e o detetive particular. Figuras clássicas do cinema noir reimaginadas por Vaughn e Martin.

A femme fatale e o detetive particular. Figuras clássicas do cinema noir reimaginadas por Vaughn e Martin.

The Private Eye é um trabalho muito maduro e rico em referências, que merece ser lido e relido para que todos os pequenos detalhes de composição do mundo e da personalidade do protagonista sejam encontrados, pois tudo foi imaginado para tornar esta extrapolação futurista do nosso mundo mais complexa, convincente e coerente. Em apenas 30 páginas a dupla consegue estabelecer cenário, personagens e contexto sociotecnológico com uma desenvoltura invejável. Os desenhos muito limpos de Martin tornam a leitura “arejada” e o texto de Vaughn não interfere na fluidez da narrativa, complementando, pontuando e enriquecendo o que é mostrado pela arte. Mais uma daquelas combinações perfeitas entre texto e desenhos.

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A HQ pode ser adquirida aqui pelo preço que você estiver disposto a pagar, ou até mesmo de graça. Se tiver cartão de crédito internacional recomendo pagar nem que for somente 1 dólar, pois isto aumentará as chances da série ser concluída pelos autores (no meu caso optei por pagar U$3,50, que é pouca coisa abaixo a média do custo de HQs da Marvel e da DC, que geralmente saem por U$3,99). Seja qual for o valor que escolher, esteja certo que é um investimento que compensa. The Private Eye é uma obra que diz muito sobre os tempos loucos que vivemos num futuro não muito distante daquele que nos espera, e por isto merece nossa atenção e um bocado de nossas “pratinhas” para ser concluída.

Ps.: agradeço ao meu amigo Nelson Silva por me ajudar a descobrir esta série. Este review é dedicado a ele.