[QUADRINHOS] “Tarzan – Contos da Selva” adaptados por Martin Powell (resenha)

tarzan contos da selva arte capa

Tarzan já era um mito na África de seu mundo em sua primeira história, Tarzan dos Macacos, publicada em 1912. Conhecido como “Demônio das Árvores” por não se encaixar em nenhum dos reinos animais e aldeias nativas que existiam nas selvas africanas, ele era um pária, uma anomalia.

Edgar Rice Burroughstarzan contos da selva pixel media resenha 01, criador do personagem, só resolveu esmiuçar o passado do herói – antes de conhecer Jane – em 1919, no livro Tarzan e os Contos da Selva. Nele o acompanhamos em 12 aventuras fechadas nas quais alguns personagens recorrentes estabelecem sutis ligações entre elas.

Contos da Selva” teve algumas de suas histórias adaptadas para os quadrinhos por diferentes editoras, autores e desenhistas, mas nunca uma mesma editora reuniu uma equipe de artistas para adaptar todos em sequência. Foi o que a Dark Horse fez em 2014, e o resultado disto foi lançado este ano lá nos Estados Unidos e, quase simultaneamente, aqui no Brasil, pelo selo Pixel Media da Ediouro.

tarzan contos da selva pixel media resenha 02A tarefa de adaptar a prosa de Burroughs ficou nas mãos de Martin Powell, roteirista de todas as 12 histórias que compõem Tarzan – Contos da Selva.

Todas possuem, em variados graus, um misto de ingenuidade, fantasia e otimismo com relação à convivência do ser humano com outros animais. Esse aspecto é trabalhado com tanta sensibilidade, que não soa absurda e aberrante a ideia de um homem apaixonar-se por uma gorila; ou tentar adotar um menino da tribo responsável pela morte de sua mãe adotiva, dentro da fantasia concebida por Burroughs. Solidão, altruísmo, coragem, compaixão, companheirismo e amizade, são alguns dos valores despertos por problemas encarados pelo herói, desde sua busca por um lugar no mundo, até a dor de um amor não correspondido. Tarzan encontra alguns aliados em várias de suas aventuras, e a cada nova crise solucionada, seu mito se fortalece.

Aliás, foi inevitável comparar Tarzan com outro herói mitológico: Hércules e seus 12 trabalhos. Seria mera coincidência Contos da Selva ser composto de 12 histórias?

tarzan contos da selva pixel media resenha 04Entre as aventuras que marcam a maioria das narrativas, há um pouco de filosofia, como em “O Deus de Tarzan“, onde o herói tenta entender um pouco mais o conceito de divindade através de suas vivências na selva. É uma abordagem bem leve, mas que cumpre o papel de despertar reflexões no leitor. Curiosamente, em “O Médico Feiticeiro Busca Vingança”, o herói passa a ser enxergado como o Deus das Árvores por uma nativa, e na mesma história assume o papel de detetive, ao investigar na floresta o sequestro de um menino dos Gomangani, que começam a o encadernado como inimigos do herói. Mas tal papel se revela relativo conforme acompanhamos a evolução moral de Tarzan, que passa a levar em conta nuances e individualidades, e a enxergar de maneira menos dualista e mais pluralista o mundo e seus habitantes.

tarzan contos da selva pixel media resenha 03Algumas das histórias exploram o conflito interno de Tarzan, que alterna entre seguir seus instintos animais, desenvolvidos durante sua convivência com os macacos de Kerchak, e comportamentos mais humanos, como respeito e veneração aos mortos, como em “O Leão“, quando afloram naturalmente sem que ele tome ciência disto. Tais conflitos são abordados com sutileza pelos roteiros de Powell, que escolheu bem as palavras para transmitir muito com o pouco uso feito delas, e confiou no talento de seus parceiros criativos.

O que realmente impera em Contos da Selva é a aventura descompromissada. Em várias histórias, Tarzan tenta ajudar animais e nativos a se livrarem de alguma enrascada, seja enfrentando tribos inimigas, feiticeiros ou grandes predadores. Mesmo que o roteiro de todas seja de Martin Powell, baseado nos contos originais de E.R. Burroughs, o fato de cada uma ser feita por um artista diferente, usando técnicas distintas, dão um tom e um ritmo únicos para cada narrativa gráfica. Assim, temos uma variedade de estilos, que vão do traço mais clássico até um mais moderno, de uma técnica mais tradicional para outra mais rebuscada, das cores chapadas para os degradês digitais. Isto tudo acaba gerando uma miscelânea que, por si mesma, reflete a adaptabilidade do herói, justificando porquê suas histórias ainda são adaptadas mais de um século depois de seu nascimento, seja pelas mãos de novos autores, artistas, diretores ou atores. E assim, o mito de Tarzan eterniza-se…


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tarzan contos da selva capaEdiouro

Capa dura

26,4 x 17,6

148 páginas

Onde comprar: FnacSaraiva