[QUADRINHOS] Tabloide, de L. M. Melite (resenha)

Marrenta, obesa, cínica e pessimista, sofrendo de raciocínio consecutivo, cronofilia, olfato e claustrofagia analíticos, Samantha Castello é jornalista investigativa, dona do Tabloide, um jornal sensacionalista que publica notícias pouco convencionais. Sua profissão a envolve num crime que esconde muitos mistérios e reviravoltas. Neste thriller noir que mistura suspense policial, rituais satânicos e pecados de família, L. M. Melite mostra uma outra face de São Paulo.

Samantha é uma protagonista que já nasce causando uma forte impressão no leitor. Logo nas primeiras páginas ela se apresenta enquanto distribui socos num saco de pancadas. Numa narração que remete aos filmes noir, Melite consegue fisgar nossa atenção como o quadrinista competente e com pleno domínio da narrativa que é. Com seu traço fluido e tortuoso, logo somos arrastados pela maré de sua arte, que nos conduz pela igualmente ondulante e, por vezes, nauseante investigação de Samantha em torno do assassinato de uma transexual vestida de noiva encontrada num Corsa jogado no fundo de uma represa de São Paulo. É daí que parte a premissa da graphic novel.

Como se o mistério em si não bastasse, Melite também foi cuidadoso na construção da dinâmica entre Samantha e os demais integrantes da redação do Tabloide. Uma das diversões proporcionadas pela leitura da HQ é acompanhar a interação dela com Bogus e Horácio, paralela às suas conversas com Rufus Gallo, inspetor e informante de Samantha na polícia civil, que dá dicas de pautas quentes para o Tabloide, como o caso do assassinato da “noiva”.

Conforme segue as pistas e avança na investigação, as demais habilidades de Samantha são postas à prova, assim como a capacidade de Melite como narrador visual, que brilha tanto nas sequências mais calmas, intimistas e introspectivas, como naquelas mais frenéticas. Gostei, particularmente, das sequências de perseguição e dos confrontos físicos entre os personagens. O traço tortuoso e meticulosamente impreciso do quadrinista combinou à perfeição com o frenesi adrenalínico das passagens mais movimentadas. Eis um exemplo:

À medida que acompanhamos o progresso na investigação, fica mais claro que Melite a usou como forma de apontar algumas das atrocidades cometidas por figuras excêntricas da alta sociedade associadas a outros poderes, como os militares do antigo regime. Pelo menos este é um dos pontos salientados pela história, que também envolve sociedades secretas, trabalho escravo e cultos satanistas.

Melite também foi esperto ao incluir um trecho do Tabloide como interlúdio, que não apenas se aprofunda em alguns aspectos da investigação de Samantha, como deixa ganchos para possíveis novas histórias estreladas por ela e seus companheiros de jornal. Independente disto acontecer ou não, esse recurso narrativo ajuda a enriquecer o mundo retratado por Melite, que é, obviamente, uma versão alternativa do nosso, mas bem plausível, e perturbadoramente possível…

O mistério é intrigante e se mostra mais complexo conforme as pistas começam a se encaixar. Mas grande parte de nosso envolvimento com a história se deve à personalidade magnética de Samantha, e suas reações diante do que vai descobrindo, que variam de palavrões, declarações pessimistas e niilistas, até colocações que oscilam entre uma reflexão filosófica e uma poesia improvisada e inacabada no meio da sujeira e perversão que impregna os lugares por onde passa enquanto se a(pro)funda cada vez mais no mar de lama e merda que metaforiza muito bem o crime investigado por ela e Horário, seu fiel escudeiro e fotógrafo.

Samantha é uma personagem fascinante, que ganha uma complexidade ainda maior quando, mais pro final da HQ – num trecho inteiramente onírico – Melite nos apresenta uma intrincada versão da origem de Samantha, que a torna mais intrigante que o mistério labiríntico que ela investiga. É um exemplo excepcional da capacidade dos quadrinhos construírem uma personagem tão bem desenvolvida quanto qualquer outra apresentada numa obra literária.

Na segunda leitura que fiz de Tabloide, notei um fato curioso: Melite usou a diagramação de nove quadros igualmente distribuídos por página, e variações dessa diagramação (a página acima é um bom exemplo). Pra quem não sabe ou nunca notou, o mesmo esquema foi usado por Dave Gibbons quando desenhou Watchmen de Alan Moore. Nas duas obras a história começa com a investigação de um assassinato. Como eu disse, curioso…

Talvez um dos melhores elogios que eu posso fazer a Melite por seu trabalho em Tabloide, além de tudo que disse acima, é o seguinte: ela daria um puta filme de suspense policial se caísse nas mãos de um diretor competente e disposto a ser fiel à narrativa de Melite. A estrutura está toda pronta, só falta reunir recursos, escalar o elenco e filmar. Se isto nunca acontecer, não tem problema, pois Tabloide continuará sendo um dos melhores exemplos recentes do talento de nossos quadrinistas. Se vivêssemos num mundo mais justo, e num país que valorizasse mais os nossos artistas, talvez ele seria um diretor de cinema, e não um quadrinista. Mas não é este o caso. Felizmente, quem ganha são os apreciadores da 9ª arte. Da minha parte, torço muito para que esta seja só a primeira de várias histórias estreladas por Samantha. Eis uma personagem que merece ter uma vida longa, ao contrário de boa parte daqueles que cruzam seu caminho em Tabloide.



Veneta

Capa dura

28,6 x 21,2 x 1,8 cm

136 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

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Saraiva