[QUADRINHOS] Soppy – Amor por acaso (resenha)

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Obs.: Acaso queira ler especificamente sobre Soppy, vá para a segunda parte. Entretanto, se desejar ouvir a história acerca do acidente que é esta resenha, comece pelo início. Sinta-se à vontade.

1.

soppy resenha 08Queria acreditar que tudo não passasse de irreversível acaso indo para lugar algum: que a vida, o universo e tudo mais estivessem apenas participando de uma desajeitada e conveniente ciranda de aparências, e nossas descobertas a respeito de nós mesmos fossem frutos de um delírio coletivo, como crianças perdidas tropeçando no escuro. Se pudesse escolher só uma forma de ver o mundo, escolheria achar que as folhas caem dos galhos sem consequência ou causa, e me preocuparia apenas com o fato de que sorvetes de pistaches são maravilhosos e ficam péssimos com cobertura de caramelo. Acredite. Prefiro pensar que, após viver o que me resta dos dias, minhas luzes vacilantes não incomodarão mais, e tudo será de verdade novamente. Mas, como você bem sabe, nada é tão simples. De repente, quando tropeçamos na beleza de uma bola de sorvete caída no chão, o acaso revela o sentido da vida outra vez.

Ontem eu não havia dormido. Mais ou menos às nove horas da manhã alguém bateu à porta. Eu já esperava há tempos o livro “Dorothy tem que morrer” (Rocco) para a resenha e Rodrigo (editor do Nerd Geek Feelings) me avisou que não demoraria a chegar. Estranhei o pacote miúdo que o rapaz me entregou e abri. Nunca fui fã da combinação preto e vermelho. Também jamais me interessei por hqs do gênero fofura-melosa- emocional. O que tinha em mãos era justamente a combinação dos dois. Avisei a Rodrigo para saber se não tinha mudado de ideia e me enviara aquele no lugar de Dorothy. Ele me explicou que às vezes confundiam as entregas, que era normal, e também disse algo mais sobre dia dos namorados que me fez sorrir. A troca rendeu mais risadas entre uma amiga que estava comigo e eu. Ela leu até a página vinte e sete. Não achou tão bom quanto imaginou. Apenas concordei. Depois fui trabalhar.

2.

Não consegui dormir o dia inteiro. Lá pelas duas da manhã comecei a brincar com o snapchat tirando fotos da capa de Soppy. Acabei lendo as primeiras páginas da edição miúda e… bem. Eu não parei. A leitura me conquistou ao me dar conta de que a autora Philippa Rice realmente escreveu e desenhou com o coração. Gostaria de desfrutar da capacidade que ela possui em transpor uma história de forma tão e tão simples: soppy resenha 09uma moça que conhece um rapaz em Londres. Vírgula. Em pouco tempo iniciam uma relação amorosa. E só. soppy resenha 04A narrativa me levou a conhecer minúcias da vida cotidiana de maneira leve e despretensiosa. A história, como qualquer canção de amor, não vai além do que sabemos sobre pessoas. Pouco me incomodou as cores das quais não simpatizo. Ao contrário: o contraste é harmonioso e equilibrado e me ensinou que não sei tanto a respeito do meu próprio gosto. A delicadeza abunda nos detalhes da chuva, nos objetos e especialmente nas paisagens naturais. Conforme lia, fiquei imaginando como escreveria sobre a forma doce que Rice desenhou situações em geral ignoradas por nós, do tipo: morder um pão ou vestir meias trocadas. Os cenários se tornam bastante comuns, sem nada de especial por si, e às vezes grandes espaços em branco avançam por toda a página, mas, de fato, os gestos de duas pessoas são capazes de preencher-nos de um afeto sutil que, para os que apreciam o estilo, notarão um ou outro sorriso involuntário no cantinho da boca, – como muitos que sorri… Aprendi com esta obra a me encontrar na trivialidade, e que há uma essência inefável no simples toque na ponta do pé de quem você ama enquanto dorme, mesmo que esteja deitado do outro lado do mundo que é uma cama.

Confesso que fui tentado em ficar com Soppy para mim, mas Rodrigo me disse algo sobre o dia dos namorados que não convém aqui. Enfim. Fico muito feliz em receber esta HQ por engano exatamente naquela manhã, e não em outra, pois sei que ela significa exatamente um instante perfeito, – e que provavelmente nunca vou confessá-la a você. Aquela manhã foi para além do mero acaso, como uma folha caindo de um galho ou uma chuva de rãs no final do filme Magnólia. Sim. Somos crianças brincando com luzes falhas no escuro. Contudo, aconselho que hesite em crer que as formas das sombras não passam de trivial circunstância. Pois, por trás do acaso se ergue a morada do princípio de todas as coisas. Inclusive o princípio do amor por uma história, como você pode bem ver o meu aqui.


soppy philippa rice fabrica231Fábrica321 / Rocco

Brochura

19 x 13,6 x 1,4 cm

112 páginas

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