[QUADRINHOS] Sopa de Lágrimas, de Gilbert Hernandez (resenha)

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Através da janela está Palomar

Exatamente às cinco horas cheguei à agência dos Correios que fica não muito perto de casa. O rapaz já estava trancando a porta, mas acho que ficou com pena de mim e me deixou entrar. Peguei o pacote pesado e abri timidamente no caminho de casa. Não gosto de abrir o pacote de uma vez. Prefiro saborear enquanto o livro ainda é mistério, e rasgo de maneira que vejo quase nada da capa. Rasguei mais um pouco o envelope e vi dois livros da editora Veneta. Uma biografia de Bukowski (“Vida e loucuras de um velho safado”, por Howard Sounes) e uma edição de luxo de “Sopa de Lágrimas” – arte e texto por Gilbert Hernandez. Eu me senti animado. Era uma história em quadrinhos. Desde Soppy não lia nada em HQ. Então decidi que começaria por ela.

Logo no início reparei que a arte e roteiro têm influência evidente de autores undergrounds da década de 70 como Pekar e Crumb, e o fato de Neil Gaiman e Alan Moore apreciarem a obra me deixou bastante curioso. E, de fato, Hernandez me acertou em cheio na primeira página. Ele nos apresenta os habitantes de um vilarejo imaginário em algum lugar pobre da América do Sul chamado Palomar, bastante parecida com a ideia que eu tinha em minha imaginação sobre Macondo de Gabriel García Márquez. Chelo é a primeira personagem que conhecemos. Ela é exemplo de vigor e força que caracteriza praticamente todas as mulheres da história. Começou a trabalhar como parteira, parte por ter perdido a capacidade de conceber filhos, após espancamento do pai. Posteriormente viveu ao custo do ofício de bañadora (trabalho que favorece bastante os tons eróticos da história), lavando com primor todo o corpo de seus clientes. O segundo a ser apresentado foi Vicente, cuja mãe fora convencida por Chelo a não afogá-lo devido à deformação facial. Depois conhecemos Jesus. Demora dois dias para nascer. Parecia querer ficar dentro do ventre da mãe, talvez como previsão da própria tragédia. Mas de todas as origens, a de Israel e Aurora foi a que mais apreciei: um dia, durante um eclipse, Aurora sumiu para sempre, deixando seu irmão gêmeo só. Talvez levada por espíritos intergalácticos ou intervenção divina, quem sabe. Israel, ocultando a melancolia sob uma máscara de força, esperou até o fim.

Apesar de certo teor mágico deste início, a história não hesita em abordar a traição, o assassinato e o sexo de maneira crua. O humor que se evidencia na expressividade dos personagens e pelas situações desconfortáveis de maneira alguma exclui a brutalidade causada por ciúmes ou bebidas. Tanto as pessoas iletradas e ingênuas que habitam Palomar, quanto as bem vestidas da cidade grande, em nenhum instante nos deixam enganar.

Confesso que houve um instante em que pensei que a narrativa assumiria o teor de literatura de denúncia, especificamente acerca da paranoia da Guerra Fria, ou sobre a indústria de reportagens acerca de eventos trágicos, ou ainda se limitaria à mera arte subversiva, mas não. Ao menos sob minha ótica. Reavivando a trajetória dos habitantes de Palomar em minha mente, do nascimento até a maturidade, ou até a morte de cada um, “Sopa de Lágrimas” diz muito a respeito do desejo de liberdade como um fim em si próprio, parte da herança que a modernidade nos deixou. Ao mesmo tempo, a trama assume a perenidade do amor familiar, da temperança, da amizade e de um bem que não se reduz a simplório querer, seja individual ou coletivo.

Não me assumo fã apaixonado como Gaiman e Moore, mas sou um leitor de solene respeito, pois certamente o senhor Hernandez deixou para nós as portas e janelas abertas por onde podemos bisbilhotar um mundo humano e lúcido, onde crianças desobedientes pulam do topo da cabeça de deuses ancestrais feitos de pedra para o fundo do lago, e depois são afogadas por eles. Um lugar onde homens são tão frágeis e canalhas que você consegue sentir pena e odiá-los. E as mulheres são tão autossuficientes e belas que você novamente sente pena dos homens. Onde naturezas tão divergentes são capazes de conviver em perturbada harmonia, e o melhor sinônimo para amor é, de maneira inesperada, acredite, o perdão.



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Brochura

24,8 x 19,6 x 2,2 cm

288 páginas

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