[QUADRINHOS] Shazam! & A Sociedade dos Monstros (resenha)

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Sete anos depois de ser publicada nos Estados Unidos, finalmente os leitores brasileiros tiveram a chance de conferir Shazam! & A Sociedade dos Monstros, releitura da origem do Capitão Marvel da DC Comics pelas mãos de Jeff Smith. Será que toda essa espera valeu a pena? É do que falarei nesta resenha.

Shazam-e-a-sociedade-dos-monstros-billy-batson-e-malhadoUm dos grandes acertos de Smith nesta reformulação da mitologia do Capitão Marvel foi a decisão de fazer Billy Batson mais jovem e fisicamente mais infantil. Com isto o autor conseguiu aumentar a preocupação que o menino desperta no leitor. Não que a trama nos faça temer que ele morra em algum momento, pois o tom adotado por Smith no roteiro deixa bem claro que tudo terminará bem. Mas, por conta desta fragilidade física do alter ego do Capitão Marvel, as dificuldades pra ele superar os obstáculos são literal e figurativamente maiores, aumentando, com isto, nossa curiosidade em saber como ele se livrará delas. Ou seja, é um ótimo recurso para tornar a leitura um ato quase reflexo e impulsivo.

Shazam-e-a-sociedade-dos-monstros-billy-batson-vs-bandidoEsta decisão visual, somada à opção de explorar mais do que em versões anteriores do personagem a vida miserável de Billy como garoto de rua após perder os pais, estabelece um vínculo de compaixão e simpatia entre ele e o leitor, semelhante à ligação entre o menino e o Capitão Marvel, que passa a se preocupar com o estilo de vida de Billy tanto quanto nós nos preocupamos com ele durante a leitura.

Outro ponto que ganha mais força, graças à idade de Billy, é o bullying e abuso que ele sofre de bandidos adultos. Por ser tão pequeno e indefeso no início, quando ele finalmente ganha uma chance de revidar, cedendo lugar ao Capitão Marvel, o revide é bem mais catártico e prazeroso para o leitor e para o personagem.

Shazam-e-a-sociedade-dos-monstros-billy-batson-e-capitao-marvelSmith também acertou muito em restabelecer a ideia de que Billy Batson e o Capitão Marvel são seres distintos, mas influentes sobre os comportamentos um do outro. Assim, quando Billy cede espaço para Marvel, o herói incorpora alguns comportamentos do menino, assim como Billy passa a ter parte da bravura de Marvel quando está em sua forma mortal. E Smith soube lidar com estas pequenas influências de um sobre o outro de maneira refinada e econômica. Aliás, isto foi uma forma muito elegante e bem elaborada de justificar o comportamento mais maduro de Billy, algo que também é embasado pelo amadurecimento que o garoto forçou-se a alcançar enquanto lutava diariamente para sobreviver nas ruas após ficar órfão. 

Shazam-e-a-sociedade-dos-monstros-dr-silvanaOutro detalhe visual e temático no qual vale a pena reparar é a figura do Dr. Silvana. O vilão é ao mesmo tempo um anão adulto e uma personificação de uma criança frustrada, amargurada e fisicamente distorcida pelas desilusões e traumas infantis. Dá perfeitamente para enxergá-lo como uma criança vítima de bullying e abuso infantil que usou toda raiva e ódio represados como força motriz para que conquistasse sua posição de poder, a fim de compensar sua falta de estatura física pelo esmagamento literal e simbólico daqueles abaixo de sua posição política. Isto acaba equiparando-o ideologicamente ao Sr. Cérebro, um inseto que ambiciona vingar-se da humanidade, ao tornar-se líder de uma legião de insetos revolucionários que enxergam nele uma chance de vingança contra todas as mortes de seus “parentes” pelas mãos e pés dos seres humanos. Em essência, é isto que move os vilões da HQ: o desejo de revidar o abuso que sofreram de seres fisicamente mais fortes que eles.

Shazam-e-a-sociedade-dos-monstros-mary-marvel-vs-dr-silvanaAliás, ainda sobre o Dr. Silvana, um ponto que deixa muito clara a intenção de Smith em igualar Silvana a uma criança, é sua decisão de desenhá-lo com a mesma altura de Billy, o que rende no final um embate físico entre os dois, que reforça ainda mais essa ideia de que o vilão é mesmo a personificação de uma criança literal e figurativamente mal desenvolvida.

Shazam-e-a-sociedade-dos-monstros-capitao-marvel-vs-robos-do-sr-cerebroOutra alegoria presente na obra é vista quando Billy decide entrar num dos robôs gigantes controlados pelo Sr. Cérebro, que na famosa Jornada do Herói proposta por Joseph Campbell é o correspondente à etapa chamada de “o ventre da baleia”. Trata-se de um tema arquetípico que representa o retorno do herói ao ventre materno com a finalidade de “renascer”, matando simbolicamente sua forma antiga, a fim de ressurgir mais forte. Basta observarmos o que acontece com o herói na história de Smith para concluirmos que ele consegue justamente isto.

Também merece elogios a escolha de Smith em deixar a maior parte das resoluções nas mãos de Billy, especialmente no clímax, quando a crise depende mais dele do que do Capitão Marvel pra ser solucionada, sendo o herói apenas o último recurso usado.

Shazam-e-a-sociedade-dos-monstros-mary-marvel-primeiro-pousoJeff Smith conseguiu misturar muito bem a magia e ingenuidade das histórias de super-heróis da Era de Prata com o “realismo fantástico” da Era Moderna (ou Era das Trevas, como Grant Morrison a chama em seu livro Superdeuses). Assim, há tanto animais falantes e transformações geradas por magia, como referências à paranoia dos Estados Unidos com terroristas pós-11 de setembro, representada pelo Dr. Silvana, que nesta reinterpretação é o Procurador Geral dos Estados Unidos responsável pelo Departamento de Tecnologia e Segurança Nacional. Tal mistura claramente inspirou Morrison ao escrever The Multiversity: Thunderworld #1, lançada em dezembro, que é uma reinterpretação do Capitão Marvel mais inclinada para a primeira versão do personagem e sua família. 

Aliás, vale uma menção à maneira orgânica como se dá a formação da Família Marvel nesta reformulação de Smith, que foi igualmente cuidadoso ao plantar sementes de resoluções do clímax da história bem no início dela, de maneira quase imperceptível ao leitor, provando o quanto o autor respeitou e confiou em nossa inteligência.

A Sociedade dos Monstros” pode ter uma ou outra cena mais nojenta, mas nunca descamba para a violência gratuita e sangrenta. As vítimas são em sua maioria animais antropomórficos e insetos e, ainda assim, há um cuidado da parte de Smith em conscientizar o leitor para a importância de não agredir gratuitamente tais seres vivos. Uma criança pode ler sem problemas a história, pois será tão divertida pra ela quanto será para adultos, que por sua vez apreciarão talvez até mais a história ao reconhecer referências à mitologia do Capitão Marvel, e a outras obras.

Shazam-e-a-sociedade-dos-monstros-billy-batson-mary-e-malhadoPor exemplo, há uma forte influência de Peanuts, de Charles Schulz, na forma caricata e na opção por desenhar maiores que seus corpos as cabeças de Billy e Mary. Isto dá a eles maior expressividade e, especialmente no caso de Mary, uma doçura apaixonante que faz com que o leitor seja rapidamente conquistado pela personagem, que é um dos grandes acertos de Smith.

Também dá pra enxergar na relação entre Billy e Malhado uma homenagem de Smith à dupla Calvin e Haroldo de Bill Watterson (cujo nome, aliás, tem uma sonoridade parecida com Billy Batson), algo salientado pela decisão de Smith em desenhar Malhado como um tigre de verdade, ao invés da versão mais tradicional do personagem, que está mais para um homem com cabeça de tigre.

Shazam-e-a-sociedade-dos-monstros-contracapaPor todos estes atributos, somados à sensibilidade do roteiro e dos traços de Jeff Smith, que a escreveu e desenhou com notável paixão, Shazam! & A Sociedade dos Monstros é uma leitura recomendadíssima para leitores que gostam de uma história de super-heróis à moda antiga, mas que, ao mesmo tempo que presta homenagem às suas origens, respeita o refinamento pelo qual nosso gosto passou desde nossos primeiros contatos com este universo de ficção e fantasia, apresentando uma sofisticação narrativa que não deixa a história ficar presa ao estilo de uma só época.

Agora sim posso responder a pergunta que fiz lá no início: sim, a espera valeu a pena! Se você ainda não comprou, recomendo que o faça logo. Não se arrependerá, e garanto que se divertirá muito. 🙂

Shazam-e-a-sociedade-dos-monstros-jeff-smith-panini-booksShazam! & A Sociedade dos Monstros

Publicada originalmente em: Shazam! & The Monster Society of Evil #1 a 4
Roteiro e desenhos:Jeff Smith

Cores: Steve Hamaker
Tradução: Rodrigo Oliveira e Bernardo Santana
Editora: Panini Comics

Formato: Americano
Número de Páginas: 212
Encadernação: costurada
Capa: dura

Disponível nas seguintes livrarias: Saraiva, Submarino, Amazon e Livraria Cultura.

nota-5