[QUADRINHOS] Sex Criminals – Quando Prazer É Poder

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Ano passado uma das novas séries em quadrinhos que gerou mais falatório, sendo sucesso de críticas e vendas, foi Sex Criminals, da dupla Matt Fraction e Chip Zdarsky. Nela acompanhamos a história de Suze e John, um casal que tem um poder inusitado, pra dizer o mínimo: quando têm um orgasmo eles são capazes de parar o tempo ao seu redor. Não demora muito até eles se tocaram que com este poder em mãos eles podem fazer um bocado de coisas que normalmente não fariam se tudo e todos em torno deles não estivessem congelados no tempo, e daí a resolverem se aventurar no mundo do crime é um pulo.

Suze e Jon entrando para o mundo do crime.

Suze e Jon entrando para o mundo do crime.

Mas a série não fez sucesso apenas por tratar de um assunto de apelo universal. Ela vai muito além do sexo presente em seu título e nas ações de seus personagens, e consegue ser muito divertida em sua execução, criativa em sua estrutura, e inovadora na abordagem dos outros temas que discute.

Em parte Sex Criminals lembra o filme Antes do Amanhecer, de Richard Linklater. Nas cinco primeiras edições acompanhamos o despertar do amor do casal de protagonistas, suas descobertas a respeito da vida um do outro, com o diferencial do acréscimo de um elemento fantástico. E ajuda muito o fato de Suze e Jon serem muito carismáticos e donos de personalidades marcantes, especialmente por boa parte da história ser narrada por eles.

O bate-papo de Suze e Jon via sms. Apenas uma das várias ótimas sacadas de diagramação da série.

O bate-papo de Suze e Jon via sms. Apenas uma das várias ótimas sacadas de diagramação da série.

Optando pela narração em primeira pessoa, Fraction usa de maneira inteligente a metalinguagem, mostrando os protagonistas do presente interagindo com o ambiente e as pessoas de seu passado. E quando a narrativa abre mão da narração, ainda há belas sacadas de diagramação, como a conversa entre o casal via SMS, e a “sequência musical sem música” – ambas na edição 3 – , onde a dupla criativa brinca com o fato de não terem conseguido os direitos de usar as letras da música que queriam que os personagens cantassem, substituindo-as por explicações sobre o caso. Assim, a sequência toda funciona ao mesmo tempo como uma parte da história, um making off das cenas, e uma “faixa de comentários dos diretores” da HQ.

Fraction e Zdarsky tratam temas como o despertar da sexualidade, orgasmo, luto, adolescência e amor de forma bem humorada, mas sem ignorarem o peso e importância de cada um deles, criando, com isto, uma leitura ao mesmo tempo leve e tocante. Leveza, bom humor e sensibilidade que são visualmente bem traduzidos pela arte de Zdarsky, que cria belas e simples poesias visuais psicodélicas ao retratar o efeito d’A Quietude ou MundoDoGozo, gerados pelo uso dos poderes do casal, uma versão literal da antiga metáfora da sensação de “tempo congelado” proveniente de um orgasmo.

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Suze descobrindo que nem todos têm acesso à Quietude.

A arte de Zdarsky se destaca também nas belas capas feitas num estilo minimalista para todas as edições, que chamam muita atenção para o título. E o desenhista espalha pela história vários easter eggs e brincadeiras, que levam o leitor a demorar-se observando sua arte limpa e muito expressiva.

Merece elogios também as brincadeiras presentes no expediente das contra-capas, as divertidas dicas sobre sexo no cabeçalho das páginas de e-mails, e as criativas páginas de recapitulação, que fazem compensar a compra das edições avulsas da série.

Página de recapitulação de Sex Criminals #3

Página de recapitulação de Sex Criminals #3

Daí você me pergunta: com um título desse, a série é apelativa e visualmente explícita? Apelativa não, pois o tema é desenvolvido naturalmente pela história, explícita sim, mas sem inclinar-se para o pornográfico. A nudez e o sexo presentes na trama ocorrem como num bom filme francês, ou seja, como consequência lógica do enredo, e não gratuitamente.

Sex Criminals sem dúvida é uma série que merece a atenção de qualquer leitor de quadrinhos que busca alternativas além dos super-heróis da Marvel e da DC, e acima disto, de quem busca uma série com uma premissa inusitada, criativa, e bem desenvolvida através de personagens cativantes. Se isto vem acompanhado de uma carga bem dosada de bom humor, e erotismo, melhor ainda. E se você tem um (a) parceiro (a), namorado (a), amante ou marido / esposa, é uma ótima leitura a dois, especialmente por dar “aquela aquecida” antes das preliminares. 😉

SEX CRIMINALS #1 a 5
De Matt Fraction (roteiros) e Chip Zdarsky (arte)
[Image Comics, 32 páginas por edição / 2013-2014]

Nota: 9,0