[QUADRINHOS] Sendero Luminoso: História de uma guerra suja (resenha)

Nem todas as tragédias chamam a mesma atenção. Um atentado em Nova York é notícia certa nos grandes jornais, mas uma guerra civil em um país africano provavelmente não será. Onde acontece e com quem acontece pesam muito na hora de avaliar o que é digno de cobertura

: assim, o Holocausto — que se passou na Europa durante um conflito com todas as grandes potências ocidentais — é tema de uma profusão de filmes, livros e reportagens, mas do genocídio armênio de 1915, realizado no antigo Império Otomano, quase nada se fala. O “mundo” que enxergamos e com o qual interagimos é bastante seletivo, para dizer o mínimo. O caso do Brasil é típico: apesar das facilidades da tecnologia moderna, Europa ocidental e América do Norte estão muito mais presentes em nosso imaginário cultural que os nossos vizinhos da América Latina.

Sendero Luminoso: História de uma guerra suja, publicado em 2016 pela Veneta, é um triunfo contra essa hipermetropia cultural. Primeiro, por ser uma obra peruana, quando o único artista desse país que costuma ser prestigiado pelo nosso mercado editorial é Mario Vargas Llosa; segundo, porque é uma obra de quadrinhos peruanos, o que é uma raridade no próprio Peru; terceiro, por tratar de um tema grave, intimamente relacionado com a história latino-americana, incluindo os acirramentos ideológicos dos últimos anos: a luta armada e o papel da violência na política.

Para quem não sabe, o nome da obra se refere ao Partido Comunista do Peru – Sendero Luminoso (“sendero” se traduz como “caminho”), um grupo radical fundado pelo professor universitário de Filosofia Abimael Guzmán em fins dos anos 1960. Como era comum na época, tratava-se de uma dissidência de uma dissidência do Partido Comunista Peruano, que por sua vez descendia do Partido Socialista Peruano, criado nos anos 20 pelo famoso líder marxista, José Carlos Mariátegui. É de Mariátegui a frase que inspirou o grupo: “El Marxismo-Leninismo abrirá el sendero luminoso hacia la revolución” (“O marxismo-leninismo abrirá o caminho luminoso rumo à revolução”). Mas entre a época de Mariátegui, falecido em 1930, e a de Guzmán, havia um grande divisor de águas: a Revolução Cubana de 1959. No contexto da América Latina dos anos 1960, à sombra da Guerra Fria entre EUA e URSS, Fidel e seus companheiros pareciam ter demonstrado que o único caminho viável para o socialismo era a ação de uma vanguarda guerrilheira baseada em áreas remotas, e no apoio da população local. Essa “fórmula” parecia se encaixar bem com a realidade peruana, fortemente dividida entre o litoral urbano, branco e falante de espanhol, e a “serra”, o interior montanhoso, agrário e pobre, de predominância indígena e falante de quíchua. A isso se somou um ingrediente teórico extra, que empolgava alguns dos setores mais intelectualizados da esquerda, e lhes parecia uma alternativa à rigidez do modelo soviético: o maoísmo. Formulado por Mao Tsé-Tung, nesta época que procurara revigorar o comunismo chinês com sua violenta Revolução Cultural, tratava-se de uma maneira de fazer a revolução em países onde o proletariado industrial não era suficientemente numeroso para tomar o poder: em de vez deles, seriam os camponeses que fariam a revolução. Como a maior parte da população peruana (e latino-americana) ainda vivia no campo, em condições precárias, tinha-se a forma perfeita de conciliar a teoria marxista clássica com a realidade nacional.

Naturalmente, havia obstáculos. Desde antes da Revolução Cubana, na América Latina, os EUA vinham promovendo a derrubada de governos que parecessem pender para a “outro lado” no tabuleiro da Guerra Fria: Guatemala (1954), Brasil (1964), República Dominicana (1965, com direto a invasão), Chile (1973), Argentina (1976), entre outros. Tais regimes não eram apenas anticomunistas, eram também autoritários e avessos ao que normalmente se entendia por reformas populares. Demandas por justiça social ou melhores condições para as classes baixas eram geralmente tratadas à base de repressão, incluindo tortura e “desaparecimentos” de dissidentes. A identificação entre reformas redistributivas e comunismo parecia o pretexto perfeito para manter o status quo tradicional, num continente marcado por uma concentração de riqueza de níveis iníquos e baixos índices de desenvolvimento.  

O Peru, no entanto, era um ponto fora da curva: em 1968, também lá os militares chegaram ao poder por um golpe — mas eram militares de esquerda, que se propuseram desenvolver o país por uma política de nacionalizações, reformas agrária e educacional, além de outros programas que causavam horror aos seus colegas latino-americanos, para quem tais medidas lembravam demais a Revolução Cubana e o comunismo. Da oficialização da língua quíchua em paridade com o espanhol a um ambicioso programa de expropriação — algo impensável em outros países (e um dos motivos para a intervenção americana na Guatemala em 1954) —, o governo chefiado pelo general Juan Velasco Alvarado tentou mudar o panorama social do país de cima para baixo.

Esse aparente progressismo, no entanto, não tornava o regime menos autoritário ou tampouco mais eficiente; após doze anos e um “golpe dentro do golpe”, que substituiu Velasco por outro general, o Peru continuava, apesar de alguns avanços, pobre e desigual. Em 1980, os militares decidiram que era hora de devolver o poder aos civis e aceitaram a realização de novas eleições. Quase toda a esquerda peruana aceitou participar do pleito, excetuando uns poucos grupos — e é justamente nesse momento de retorno à democracia que um deles, o Sendero Luminoso, resolve dar início à sua luta armada. O ataque a um local de votação e a queima de urnas eleitorais na região rural de Ayacucho, uma das mais pobres do país, vai ser o primeiro ato numa escalada que levará o país a uma guerra civil, que custará a vida de dezenas de milhares de pessoas.

Sendero Luminoso: História de uma guerra suja mostra essa tragédia ao dramatizar uma série de episódios violentos entre os guerrilheiros — a maioria jovens, recrutados em colégios e universidades de Ayacucho — e as forças de segurança peruanas. A narrativa é feita sobretudo pelo ponto de vista da população comum das aldeias da serra, espremida entre a ameaça de revolucionários fanáticos capazes de massacrar e escravizar o próprio povo que diziam representar, e os agentes do governo — policiais e militares —, sanguinários e corruptos, tão cruéis quanto os seus inimigos subversivos. O que se vê é uma sucessão de massacres em que os dois lados não poupam nem mesmo crianças em sua ânsia pelo extermínio do inimigo, com requintes de maldade que fazem lembrar o Estado Islâmico dos dias de hoje. Em uma linha temporal que vai de 1980 até 1986, intercalada por textos explicativos que dão o contexto de cada episódio e alguns dos seus desdobramentos históricos, a obra de Villar, Rossell e Cossio apresenta o drama de uma gente cercada pela violência, órfã de instituições confiáveis, frequentemente forçada a participar de um conflito começado à sua revelia e no qual ela é a maior vítima. Na verdade, a sensação que se tem ao ler alguns dos episódios é de uma angústia: para onde ir? A quem recorrer?

Ato realizado em 2012 em memória das vítimas de um dos ataques do Sendero nos anos 80

Essa reconstituição histórica em quadrinhos, que inclui algumas inserções de fotos e reportagens de época ao longo da narrativa, é uma grande demonstração da força do gênero para tratar de temas políticos. Embora sem abrir mão completamente de textos — que permitem ao leitor neófito se orientar na narrativa —, Sendero Luminoso funciona como um tapa na cara do leitor. Como tais coisas puderam acontecer? Considerando o grau de ignorância que o leitor médio tem da história latino-americana em geral, e mais ainda das atrocidades cometidas em nome da política nos mais diversos países, Sendero é um excelente toque de alarme. Afinal, ainda hoje a memória dos eventos da Guerra Fria latino-americana nos assombram, com as disputas em torno das buscas por vítimas dos regime, a dificuldade em fazer valer um respeito mínimo aos direitos humanos, as tentativas de reabilitação das ditaduras e/ou das guerrilhas, entre outros temas correlatos. Desta forma, a obra é útil não apenas para aficionados de história, mas também para todos que quiserem sair do “feijão-com-arroz” do atual mercado de quadrinhos dominado por EUA e Japão, e entrar em contato com um drama candente ocorrido ao lado de nossas fronteiras.


Veneta

Autores: Alfredo Villar, Luis Rossell, Jesús Cossio

Tradução: Rogério de Campos e Bárbara Zocal

17 x 24 x 1 cm    

208 páginas

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