[QUADRINHOS] Semilunar, de Camilo Solano (resenha)

Todo jovem sofre com as pressões do futuro e almeja ser ouvido, mas como ser ouvido quando se é silenciado pelo seu próprio corpo antes mesmo de começar a falar?

Apaixonada por música e filha de uma cantora, Maria nasceu com disfemia, o distúrbio de fluência de fala popularmente conhecido como gagueira. Tal ironia amplia as frustrações da personagem, que além de não conseguir se expressar plenamente, sonha em fazer música. Para se comunicar no dia a dia, a personagem consegue cantarolar algumas poesias e canções, mas isso não ameniza sua dificuldade em expressar seus sentimentos, que vivem aprisionados dentro de si.

O sofrimento de ser silenciada por sua deficiência provoca insegurança à personagem, e faz com que ela se sinta uma coadjuvante no mundo, de passagem pela vida, incapaz de ter uma identidade. Além disso, Maria ainda tem de lidar com toda a perseguição cruel das demais meninas de sua idade, que se demonstram impiedosas nas chacotas, beirando a caricatura.

Camilo ainda insere uma relação entre Maria e o mar. O que, inicialmente, parece se tratar de um pobre jogo de palavras de um poema infantil, logo ganha importância e nos entrega os quadros mais intensos do quadrinho.

Para aumentar a dramaticidade da história, o autor utilizou uma narrativa não-linear, perceptível por meio da arte que, ora é mais viva, ora mais sombria, traduzindo bem o psicológico de Maria no momento. O corte entre os momentos da história vêm em forma de silenciosas páginas pretas.

Após o final da história, descobrimos de onde Camilo tirou a inspiração para retratar o drama de Maria, e como a sua experiência pessoal afetou no processo de produção.

O quadrinho foi contemplado com o ProAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo de 2016 – e foi publicado pela Balão Editorial, numa edição com uma bela capa cartonada com orelhas, impressa em papel pólen, com alguns poucos extras.

Além disso, vale ressaltar que esse é o projeto mais ambicioso do autor, pois extrapola os limites da nona arte e alcança o audiovisual, com animações das canções, compostas pelo próprio Camilo, que ganham mais vida na voz de Larissa, sua namorada, interpretando a Maria! Confira uma dessas animações abaixo:

Siga o canal do Camilo no YouTube e confira as demais.

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Sobre o autor:

Acredita que o lado bom da vida é amargo como uma boa cerveja ou café sem açúcar, coleciona quadrinhos e escreve resenhas sobre a nona arte no Instagram sob a alcunha de @quadrinhonauta!

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