[QUADRINHOS] Review/Debate: Invisíveis – Parte 3: Hexy

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Bom dia, boa tarde, boa noite!! Com vocês, a terceira parte deste review em debate reflexivo acerca dos Invisíveis de Grant Morrison! Para situá-los, eis o guia das partes:

Parte 1 – Beatles Mortos: Discussão acerca dos instrumentos mentais da liberdade e da repressão (OK)
Parte 2 – Na Pior Entre Céu E Inferno: Acerca de morte e êxtase, expiação e imaginação (OK)
Parte 3 – Hexy: Sobre iconoclastia, sexo, estética gore e hipocrisia (esta)
Parte 4 – Arcádia: Sobre literatura, revolução sexual, globalização e servos da morte

“Hexy” é uma historieta de seis páginas que foi publicada numa coletânea da Vertigo americana em 1995, para anunciar e divulgar Os Invisíveis. Por que ocupar uma parte inteira do meu review com ela? Em primeiro lugar, a história resume de forma bem básica o cotidiano das missões do grupo, apresenta um panorama mais profundo acerca do majestoso King Mob, tem uma arte de fazer faltar ar nas mãos de Duncan Fegredo e está junto do volume um republicado pela Panini recentemente. Além de revelar um sigil importante. Vamos lá?

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Antes de começar a tradicional exploração e explanação da história, devo-lhes uma breve explicação do que é um sigil, e para chegar nisso, devo-lhes uma breve explicação acerca de magia do caos. E antes de começar, devo alertá-los de que este pedaço conceitual não é e não deve ser considerado de forma alguma ficção, faz parte de uma tradição de magia que se desenvolve desde o fim do século dezenove até os dias atuais, atingindo seus parâmetros modernos e pós-modernos. E se você acha magia uma bobagem, recomendo-lhe uma revisão de conceitos: Magia é toda e qualquer tentativa de compreender e influenciar o funcionamento do mundo por meio de ações, gestos, rituais, símbolos e linguagens. Ou seja: Religião, espiritualidade, poética e até vertentes mais clássicas da política envolvem e necessitam desse envolvimento da magia. Para mais além, a vertente que descende dos textos de Crowley, a vertente que parece ter de forma mais contundente inspirado, junto da magia do caos, os quadrinhos de autores como Grant Morrison, Alan Moore e Neil Gaiman, traz que este processo de construção e reconstrução do universo a partir de simbolismos envolve naturalmente a Vontade e a relação do indivíduo com a sua individualidade.

Agora que espero ter mudado um pouco os olhares dos mais céticos em relação à magia, falemos de magia do caos: A magia do caos defende um uso mais pragmático e não-ortodoxo de sistemas de crenças, ou seja, defende o uso da crença como ferramenta, tendo a crença como uma possibilidade de conexão de consciências inegável e não uma mera parte relativa da personalidade individual. Esta visão pragmática gera certo ‘poder’ em quem a aceita, pois permite a partir daí dois caminhos: O uso auto-afirmado de suas crenças no esforço de influenciar e mudar o mundo ou o uso da Vontade como forma de influenciar e moldar as crenças alheias. E este segundo caminho não necessita da crença, mas somente do desejo, da Vontade de poder. Eis o perigo que pode gerar a magia do caos em mãos erradas, um perigo que pode ser combatido por aqueles que usam o poder da crença de forma consciente e não exploratória-de-outrem. Percebemos na estética de Invisíveis personagens que se ligam fortemente à forma de construção de seus corpos e identidades, com um visual que reflete e remarca suas ideologias e redefinições de gênero e estilo. Em “Hexy”, a história curta que analisamos, a estética gore, ou seja, de violência gráfica pouco auto-contida, regada em referenciais visuais ligados ao sado masoquismo e ao mercado do sexo, liberal porém resguardado ao tabu, constrói uma narrativa em que rapidamente se delineiam o poder e a força dos personagens envolvidos, quem está na situação de presa e quem está na situação de predador. Nisso a arte rabiscada de Duncan Fegredo ajuda e muito. Sem essa estética desmedida, a velocidade da história ficaria somente por sua curta duração, o ritmo alucinante se perderia em meio aos diálogos em conclave, multirreferenciais.

E por fim, os sigils: Sigil, do latim sigillum, daonde derivam termos de selo a sigilo, é um símbolo usado em magia, como que uma assinatura escondida, é o traço que te faz encontrar o resultado desejado, usando para isso significados mágicos e força de Vontade. Toda a série Invisíveis é entendida e afirmada por Grant Morrison como um hypersigil, um trabalho de arte com poder mágico e gerador de Vontade. Eu não sei com vocês, mas comigo ele funciona desse jeito mesmo.

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Na história que estamos analisando, King Mob achou um feitiço vodu numa caixa de entrega dos Invisíveis, endereçado a ele. Procurou conselhos numa bruxa amiga, Joni, que aparece num quarto cheio de correntes, chicotes e coleiras, vestida num espartilho, luvas, botas, suspensório e pulseiras e detalhes de espinhos. Ela o aconselha a caçar um sigil para mandar o feitiço de volta e impedir que o feitiço “desative” Mob. Então temos uma página de apresentação sensacional com recortes de anúncios de acompanhantes e sex shops de jornais num fundo roxo, com uma estrela de cinco pontas vermelha de cabeça para baixo por cima, e King Mob à frente, apontando sua arma à página seguinte, onde ele dirige um carro enquanto ouve discursos conservadores na tevê. Pensa em textos ocultistas, na história de ocultistas importantes e dá um bom guia pra quem quiser sair procurando e conhecendo essas coisas. Visita as pedras de Rollright, parte da cultura megalítica européia que fora literalmente comprada por neopagãos. Busca o sigil no ar, na frequência… Nada. Ele percebe que precisa caçar dentro do inconsciente inglês, dentro do discurso conservador que via na tevê. Encontra a deusa oculta, “Britânia de couro e salto com tachinhas”, numa analogia que faz entre o discurso a favor de ‘corretivos’ violentos e jogos de domínio e submissão. Volta ao apartamento de Joni, que está ocupada torturando um político importante. Um político importante que a pagou, um político importante com quem ela trabalha. Aquele que deu o discurso acerca de ‘corretivos’ na tevê. Joni traiu os Invisíveis, traiu a magia, traiu o poder da crença, pelo desejo de poder. Ela o pôs o feitiço. Mob a mata e em seu sangue encontra o sigil de uma foice riscada. O põe na testa do político, e o mata usando os brinquedinhos de Joni. Sai refletindo sobre a chatice e a diversão de seus métodos assassinos e nada ortodoxos. A história acaba.

Esta hipocrisia presente no político sado-masoquista escondido que quer punir os “arruaceiros”, os “criminosos”, como um “pai com seu chinelo”, um “professor com a bengala”, um “juiz” e uma “governanta”, todo este jogo de domínio e submissão hipócrita e reprimido, com medo de si mesmo, caracteriza muitos dos inimigos dos Invisíveis, dentre eles o senhor Gelt, da primeira história, do Lar Harmonia. Os olhos sempre escondidos, o venerar a um senhor do medo, todos esses detalhes que mostram que os desejos dos que julgam e condenam acabam sendo sempre mais sórdidos que o desejo dos que agem por si mesmos. E é contra esse desejo anti-mágico de poder vindo da hipocrisia conservadora alimentada pelas forças das trevas que lutam os Invisíveis, entende?

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Muita violência, muita analogia, extrapolação, inter-relação e reinterpretação, a partir dessa história só seguem aqueles que estão realmente preparados pra tamanha loucura. Prometi que a terceira parte seria mais curta e menos aberta e assim a fiz. Já para a próxima parte, com descrições e perfis da célula Invisível protagonista, extrapolações acerca do arco Arcádia e de relações entre demonologia e literatura, bem, preparem-se.

2 thoughts on “[QUADRINHOS] Review/Debate: Invisíveis – Parte 3: Hexy

    • Quero continuar, mas a faculdade está me deixando sem tempo :/

      Achei que ia terminar antes dela voltar, mas não consegui. Estava pensando estes dias, quando terminei de ler o segundo volume do quadrinho, em passar o cargo para outra pessoa, mas todo mundo que procuro também está na correria. De qualquer forma, que bom que vc tenha gostado!! Já é um incentivo a mais preu tentar me reorganizar.

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