[QUADRINHOS] Review/Debate: Invisíveis – Parte 2: Na Pior Entre Céu e Inferno.

Invisibles Khepra

Bem-vindos à segunda parte desta explanação um pouco reducionista, mas bastante convidativa, aos Invisíveis de Grant Morrison! Como fora anunciado, este segundo texto tratará do arco Na Pior Entre Céu e Inferno, que foi publicado nas edições americanas 2 a 4 em 1994, e republicado recentemente pela Panini Comics em terra brasilis num volume um reunindo oito edições do quadrinho. Relembrando o guia da parte anterior:

Parte 1 – Beatles Mortos: Discussão acerca dos instrumentos mentais da liberdade e da repressão (OK)
Parte 2 – Na Pior Entre Céu E Inferno: Acerca de morte e êxtase, expiação e imaginação (esta)
Parte 3 – Hexy: Sobre iconoclastia, sexo, estética gore e hipocrisia
Parte 4 – Arcádia: Sobre literatura, revolução sexual, globalização e servos da morte

Para começar, devo dizer que a arte manteve o mesmo nível. Mentira, Yeowell caprichou muito mais nas expressões faciais. Suas linhas excessivas por vezes causam estranhamento, mas mantém muito coesa a diferenciação dos personagens e de suas situações corporais. As capas de Sean Phillips representam, com suas distorções de cores fortes, toda a lisergia que o quadrinho impõe à cidade londrina, numa busca pelas ocultas essências sobre a qual a corriqueira capital se constrói. Vamos com calma.

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A primeira história do arco começa com um Dane McGowan magérrimo, detonado, escutando a boa e velha teoria conspiratória acerca dos transmissores de espectro elf, que com sua frequência extremamente baixa modulam nossos pensamentos de acordo com o pensamento dos líderes da ordem mundial vigente. Invisível, Dane vaga pela cidade pedindo dinheiro, até se perder deitado entre os sacos de lixo, num jogo de cores que acontece em quatro quadros que nos faz confundí-lo com o lixo também. Num diálogo com uma garota de casaco verde e cabelo roxo arrepiado nas proximidades do metrô, ele faz uma breve recapitulação do final da história anterior e então somos apresentados a Tom, Tom do Bedlam, Tom Louco, ou só Tom mesmo. Ele entra na página citando Rei Lear de Shakespeare e não pára, clama proteção aos céus, declama uma lista de recomendações dignas do Levítico bíblico, pede um dinheirinho, e evoca as histórias de guerras demoníacas num tom que lembra aquele aplicativo do facebook, o what-would-i-say.com. Dane vaza, pega uma chuva pela noite, quebra a vitrine de uma loja de roupas num momento de raiva exaltada, provavelmente por estar sem casa, e é flagrado por um guarda. O guarda o persegue até que Tom o salva, e o esconde atrás de si, usando magia. Magia do “príncipe das trevas”, “gentil-homem”, “chama-se Modo e Mahu”. Referências obscuras na demonologia, na pesquisa os achei somente como responsáveis pelos sete pecados capitais, como demônios da luxúria e do conflito familiar, e aparecem na tradicional morris-dance inglesa retratada no danado do Rei Lear de novo. Na literatura inglesa, Tom do Bedlam é um nome que aparece geralmente ligado a mendigos enlouquecidos largados pelo governo. Uma dessas referências literárias seria o Rei Lear de Shakespeare. Livro-chave para quem gostar do personagem e quiser entendê-lo, principalmente nas cenas de delírio.

É ali que Tom O’Bedlam anuncia seu papel na vida de Dane: “O bom e velho Tom O’Bedlam vai te assustar. Vou te fazer cagar nas calças. Assim verás.” Depois o malandro pede mais dinheiro, faz (há dúvida aqui) a chuva parar, discursa acerca das duas Londres enquanto “rega” uma estátua de Winston Churchill… Sim, duas Londres, numa ideia similar à ideia platônica de mundo físico e essência. A verdadeira Londres está dentro, “secreta, sem sol e sem som”. Etimologicamente, toda esta analogia da Londres secreta ganha um sentido especial: “London”, “Luna Din”, “Luandun”, derivações do latim e do velho celta significando “fortaleza da Lua”. Lembram do chamado de Jack Frost na primeira edição? Tom faz toda a digressão acerca do moleque Dane que fizemos no texto anterior e provoca: “Ei. Quem é o Jack Frost?” Dane esquiva-se, assustado. E então surgem inimigos, correndo atrás de uma garota toda caracterizada em indumentária punk, querendo afugentá-la. Estes inimigos se assemelham a elites conservadoras de séculos passados que se perderam no tempo. Até que começam a recortar a garota. “Sangue da iniciação.”

4cdc6ff0e7e4bE então, Tom e Dane fogem para os túneis abandonados que os levarão à Luandun, à Londres secreta. Lá, encontram um totem em formato de cruz feito com madeira, canos, cordas, um microondas e pedaços de bicicletas. O totem protege o santuário, que nada mais é que uma linha de trem abandonada. Atrás de cartazes vitorianos eles encontram o mofo azul, e ao fumarem juntos, Dane passa por experiências malucas. Aparece o nome Barbelith no muro, pichado, de repente. Dois ETs verdes numa aura verde se aproximam. O semáforo está vermelho, fechado. O dedo de um ET se aproxima. Um botão cai. De onde, não sabemos. Os olhos do ET se aproximam. O semáforo fica amarelo. Atrás dos ETs revelam-se luzes similares às de uma sala de cirurgia. O semáforo fica verde. Dane está em Luandun. Naves passam por cima de sua cabeça. É noite. As estruturas corporais tradicionais são obsoletas. O Big Ben está virado ao contrário. Uma estátua de Urizen, representação da razão e da lei na mitologia poética de William Blake, aparece acorrentada no rio Serpentine. Os céus possuem muito mais estrelas. Dane, apesar de toda sua admiração pela subversão e seu amor pelo fogo, não consegue se desprender de seus padrões limitados de realidade e aceitar o que seus olhos vêem. Maravilhado, ele aceita o convite que Tom o faz para torna-lo um Invisível. Acorda de volta à Londres tradicional, no amanhecer. E aqueles inimigos com a cara da elite inglesa de séculos passados estão lá, esperando-o, com as facas na mão. Somente para atordoá-lo e ameaçá-lo. Logo se vão e Tom reaparece para continuar passando a Dane suas lições contra as prisões mentais às quais o garoto se submete. Aí começa a segunda história do arco.

No chão, Dane encontra um dispositivo que pensa ser o distintivo do inimigo, tem formato e cor de hóstia cristã e será muito importante para o futuro próximo. A primeira lição de Dane nesse mundo de magia é o respeito aos pequenos animais invisíveis: Pombos, ratos… A partir disso, Tom o mostra um novo olhar, trocando os olhos de Dane com os de um pombo. As visões que o garoto tem são aterradoras. As sombras que percorrem a cidade. Os inimigos que se escondem nas trevas. Os inimigos invisíveis. Depois, Tom fala do vírus histórico que afeta diretamente a humanidade: O meio urbano, que se espalha desgastando o planeta e tomando-o. Tom brinca com as percepções do que Dane crê real e ilusório, tem um pequeno problema com dois passantes, conta à Dane da guerra dos Invisíveis contra as misteriosas forças das trevas, provoca o garoto acerca do Jack Frost, o assusta até não poder mais, os dois caem na porrada e Tom afoga Dane no rio, até fazê-lo perder ao máximo que podia aquela postura falsamente subversiva, aquela postura extremamente “programada” que o garoto tinha. Comentarei mais disso ao final. Em meio a seu discurso, Tom soa como interpretações dos postulados da Thelema e de outros textos ocultistas. Ele faz o garoto regredir ao dia em que o pai foi embora, põe Dane em frente a um espelho, e no espelho o garoto vê nada. Uma página completamente em branco nos faz, assustados com a intensidade das cenas, ver também nada. Até que vem a página seguinte, com um Sol brilhando forte, com ares de recém-nascido. Dane parece ter perdido toda sua postura de medo e aversão em relação ao mundo. O garoto sente-se com menos problemas, aceita a conversa de Tom sem reclamação… E aceita a complicada proposta de saltar de um altíssimo edifício, sem pôr qualquer perigo em questão. Assim acaba a segunda história do arco.

Invisibles Pigeon EyesA terceira e última história do arco é a mais densa e complicada, a começar pela capa, com a cabeça de Dane minada em engrenagens, que expelem um líquido verde da cor do fundo psicodélico, fundo onde se encontra uma enorme bola vermelha, semelhante à representação de um sol. Sean Phillips quebra tudo nas capas!!! E a história já começa bem, com Dane e Tom vindo na direção do leitor num carro vermelho em alta velocidade!! Daí param num campo e continuam suas conversas. Tom começa a ficar meio mórbido, sabe que é o fim de seu caminho, só se manteve vivo para poder passar conhecimento à Dane. Eles queimam o carro e Dane ganha seu nome da Ordem dos Invisíveis: Jack Frost. O nome de seu maior medo, o nome do medo absolvido para servir como força, luz própria, para colocá-lo acima do medo. Fumam um pouco do mofo azul, sob o efeito dele, Dane percebe melhor os canos de esgoto que sempre estiveram ali. Percebe que a cidade toda se constrói sobre um “lago de sangue, suor e merda.” Eles chegam ao prédio daonde vão saltar, sobem, invisíveis, e admiram a vista. Dane arrega. Tom o encoraja. Carregando tochas para guiá-los no caminho pelo obscuro, pulam. Sozinho, Dane vai parar numa floresta que muda de cor quadro por quadro, sob um intenso e próximo Sol vermelho. Assustado, foge de bicicleta. Então se dá conta de que acabou de passar pela morte e sobreviver. Sorri. Grita. E chora diante de um gigante planeta com cara de Saturno, vermelho, no céu verde à sua frente.

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Volta para Londres, acha a sede dos Invisíveis, uma sala de aula com a peruca de King Mob na mesa do professor e “O Grande Irmão Está de Olho Em Você” escrito no quadro. Uma granada cor-de-rosa com “sorria” escrito em letras recortadas de jornais e revistas. King Mob surge atrás. E junto dele os outros excêntricos Invisíveis, que apresentarei melhor e individualmente na parte 4. Logo, todos eles têm de fugir dali, pois a base é atacada por soldados do inimigo mascarados, que terminam sozinhos com a granada. Esta que termina fechando o último quadro, como se sorrisse para nós. Antes disso, há uma página sombria com Tom, seguindo seu caminho por um túnel de trem, recitando o texto que deu sua entrada no início do arco, largando a tocha que segurara ao saltar do Canary Wharf (aquele prédio, lembram?) e dando adeus. Seria a morte uma ida definitiva a Luandun?

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Enfim, o que dizer deste arco além de que tudo que já soava grande ficou ainda maior? O número de teorias conspiratórias e escatológicas por página é surpreendente, e todas muito bem apresentadas e exploradas. E extremamente coerentes, não só dentro do contexto da HQ. Há um detalhe curioso dos personagens que se tornarão destaque nos próximos capítulos, como Boy, Ragged Robin e Lord Fanny, surgindo de pouco em pouco com pequenas aparições na figuração. E a desconstrução daquela figura protagonística de Dane por meio do ‘mestre’ Tom e sua reconstrução em Jack Frost… Fenomenal!! Aqui, é como se o medo, a morte, o êxtase, te empurrassem para o maior potencial de si mesmo, como se a Vontade verdadeiramente forte e desprendida superasse tudo!! E eis aí mais uma vez a conexão forte desta célula de anarquia, que é o grupo invisível, com a magia e o ocultismo do nosso mundo corriqueiro de fora dos quadrinhos: Segundo Crowley novamente, no “Magick In Theory And Practice” (também encontrável em pdf na internet), a magia seria a Ciência e a Arte de causar mudanças de acordo com a Vontade!! Crowley e seus ideários ocultistas estão sempre fortemente presentes neste quadrinho, mas sem atrapalhar a leitura: É tranquilo entender tudo que está sendo passado sem conhecer literatura ocultista. Eu mesmo só fui me aventurar nesse mundo depois da primeira vez que li Os Invisíveis.

Invisibles Real

Depois de uma leitura completa e realmente profunda desse gibi, fica até difícil discernir o mundo de dentro do quadrinho do nosso, não por alguma semelhança ou tentativa de ultra-realismo por parte do quadrinho, porque isso nem acontece, mas por um enorme desprendimento das noções padrão de realidade, que a obra causa sem precisar citar diretamente nenhuma metafísica filosófica ou gnose de difícil entendimento. Em conversas simples de linguagens informais, o quadrinho te faz questionar, da forma mais sincera e profunda possível, os fundamentos da nossa realidade moderna, cética e eternamente incompleta. As suprarrealidades aqui apresentadas não são só para meros efeitos narrativos/discursivos (por acaso alguma seria?), mas nos são apresentadas pois, como diria o velho Tom O’Bedlam:

“A sua cabeça é igual à minha, igual a todas; tem espaço para conter todo deus e demônio que já existiu. Espaço para conter o peso dos oceanos e as estrelas oscilantes. Para universos!”

E continuo a citar o velho Tom, para explicar o que a edição desconstrói em Dane e quer desconstruir em nós mesmos:

“Mas o que você prefere manter nesse gabinete dos milagres? Coisinhas quebradas, bugigangas para brincar, brincar, brincar. O mundo nos dá corda e só tocamos a mesma música, sempre a mesma, achando que a música é o que somos.”

E para esclarecer mais, cato uma citação de antes:

“Não tenho medo de robozinho que nem você, com essas ameaças de robozinho. (…) Oh, tão forte. Tão forte, tão duro, tão gelado que nem consegue sair do espaço que lhe foi dado. Se acha fora da lei, mas só faz o que querem que você faça; vai fazer arruaça um tempo, aí come um pitelzinho, cria mais robozinhos e vai, e vai, e vai, e vai.”

Muitas vezes somos como o velho Dane, achamos que percebemos o bastante do mundo, nos rebelamos com algumas coisas, aceitamos outras, e de acordo com nossa programação, mesmo tentando negá-la incessantemente querendo acreditar em direitos de liberdade, vamos vivendo. Mas Tom vai além disso, Tom o põe pra desafiar as estruturas não só no campo confortável, Tom o põe pra pular de um prédio e sair vivo, pra vencer a própria morte. Não que eu pense que todos deviam passar por sua própria tentativa de suicídio, mas creio que ninguém deveria se segurar na luta contra aquilo que tenta tomá-lo de si mesmo sem direito. E para além desses combates e lutas, devemos ser, pois eis a maior forma de combater. Como assim? Bem, ao invés de vivermos somente tentando nos provar para o mundo, nos encaixar no mundo ou conformar o mundo conosco, devíamos simplesmente já viver e, novamente, tacar o foda-se nos limites. Porque o próprio ato de ser livre, enquanto tentam tomar sua liberdade, já é uma afronta ao inimigo. E esses pequenos entendimentos acerca da Vontade, pequenos mas custosos se levados plenamente a sério, são, para mim, a mensagem central do arco. A percepção da imaginação como forma de realidade, a expiação dos próprios medos a partir da vitória sobre e aceitação do maior medo de todos (a morte), o êxtase da liberdade na auto-descoberta, todas estas realizações o jovem Dane, agora Jack Frost, só conseguiu pelo esforço de seu mestre Tom em puxar a Vontade de dentro para fora do garoto, ou seja, em transformar o potencial para a liberdade em um ser livre de fato. Jack Frost, o Invisível, agora parte da ordem, do grupo, não sabe se é maior que o Jack Frost monstro de sua imaginação. Mas vive para além disso, sendo o além acima. Esse arco de cores esfuziantes abriu um inteiro rio de novas possibilidades, e fechou com um magnífico chamado de King Mob:

“Não existe mofo azul, Dane. O que existe é musgo na parede de uma estação de trem abandonada. Não dá pra se chapar com aquilo. Tudo que aconteceu com você foi real. A gente quer desferrar tua cabeça. (…) Se não quiser vir com a gente, se não quiser saber do todo, pode seguir seu rumo. É possível até que sobreviva. Mas essa é sua última chance. A porta só se abre uma vez. Você só tem que se perguntar se vale a pena se agarrar à vida antiga e pesar se vale a chance de ser livre de um jeito que nunca imaginou.”

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Não consegui largar esta série depois disso. Peço desculpas pelo texto maior e mais complicado que o anterior, o próximo vai ser mais leve e direto. Promessa. Nos vemos na terceira parte deste review. Bom dia, boa tarde, boa noite.

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