[QUADRINHOS] Review/Debate: Invisíveis – Parte 1 – Beatles Mortos

and-so-we-returnDepois de muitas delongas de minha parte, eis-me aqui entregando a vocês este convite a uma obra que mudou a minha vida: Os Invisíveis, de Grant Morrison e diversos artistas. Se este quadrinho já mudou sua vida também, entre nessa conversa apaixonada. Se você leu mas nem gostou, dê uma segunda chance depois desse review. Me aproveitando do recente volume que a editora Panini lançou com as oito primeiras edições, começo esta série de textos que será dividida como os arcos publicados, ou seja:

Parte 1 – Beatles Mortos: Discussão acerca dos instrumentos mentais da liberdade e da repressão Parte 2 – Na Pior Entre Céu e Inferno: Acerca de morte e êxtase, expiação e imaginação Parte 3 – Hexy: Sobre iconoclastia, sexo, estética gore e hipocrisia Parte 4 – Arcádia: Sobre literatura, revolução sexual, globalização e servos da morte

Comecemos então!

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A primeira edição de Invisíveis foi lançada originalmente em setembro de 1994, e em sua primeira página com tons de pôr-do-sol, traz uma discussão sobre as simbologias do escaravelho no Egito. Como o dia que virá após a noite sucedente, o escaravelho traz novidades, modernidade, novas compreensões, como o quadrinho trará ao leitor. E ao fim da primeira página, sucede a segunda, com um garoto de roupas largadas destacado em frente a um fundo azul, com um coquetel molotov apontado pra sua cara gritando: “Caralhoooo!” É aqui que a bomba começa.

Dane, Gaz e Billy são três jovens delinquentes do subúrbio Croxteth, em Liverpool (sim, a cidade dos Beatles). Vivem o ápice do niilismo anarquista da juventude dos anos noventa, piromaníacos e vazios. Mas Dane não é como seus colegas, Dane é o líder do grupo, o protagonista da HQ. Dane tem problemas familiares, problemas com fantasmas, problemas com o Jack Frost… E de início, duas figuras acreditam fortemente em seu potencial: O professor de história preocupado e o viajante libertário pixador King Mob.

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O professor e suas preocupações mundanas aparecem alertando Dane para um cuidado maior com suas escolhas, reconhecendo que o garoto é muito inteligente. Já King Mob é aquele chamado que o persegue nos sigils da vida, nos muros e em breve, cara-a-cara. Mas não no início, no início o que mais importa e choca são os problemas: A mãe de Dane fala todo o tipo de palavrão com o filho pra expulsá-lo de casa, não aparenta o querer muito, não aparenta ter querido o pai, não aparenta ter tido muita escolha. E joga tudo isso no filho. Na solidão, fantasmas dos Beatles mortos entram no campo de visão de Dane, dissertando sobre a cidade, seu marasmo e suas próprias ideias de vida e morte. E os fantasmas levantam uma breve questão: “E se a gente morreu, John? A gente pode ter morrido e não sabe”, e o sr. Lennon responde: “Mais fácil tá vivo sem saber.” No frio daquela noite, talvez seja assim que Dane se sinta, meio morto-vivo. Então Jack Frost aparece.

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Para quem não sabe, Jack Frost é uma lenda de raízes anglo-saxãs e nórdicas, descendente do deus germânico Woden ou Wodan, o furioso. A fúria de Frost,  diferente da de Wodan, é a fúria dos ventos, da neve, do frio. Aparentemente um espírito amigo, que se aproxima sem problemas, pode se provar um grande problemão por gostar de ofender sem limites, não se importar com qualquer coisa. Se provocado ou ofendido, apela, mata, cobrindo suas vítimas com o gelo. Mas por vezes também é retratado como um cara gentil que só quer aproveitar a vida e espalhar felicidade. A versão do Grant Morrison não se assemelha muito a tudo isso, é mais conectada a uma tradição moderna na Inglaterra em que os pais dizem pros filhos que, caso eles sejam desobedientes ou saiam sem permissão, Jack Frost virá irritá-los e deixar seus corpos gelados. Enquanto fuma um cigarrinho, Dane percebe Jack Frost atrás de si, o chamando para uma comunhão com os fantasmas.

“Somos milhares”, diz Frost. “Erdische methode gut, starker besitscher”, continua. Do alemão: “O bom método da terra, senhor forte”. “Terrível luz, fria”, Frost  continua, “um morre com 22, outro com quarenta”, mencionando as mortes dos Beatles que Dane acabara de ver. “Nós somos os loucos. Aqui no mundo. Venha para casa. No inverso da Lua. Seelisches land.” Seelisches land do alemão pode ser traduzido como “terra da mente” ou “terra das sombras da mente”. Pelo menos foi até onde longos dias de pesquisa me levaram. Esta passagem bem sombria da primeira edição é complicada. Se por um lado soa como um convite à morte, por outro soa como um chamado para esta aparente liberdade da loucura. Mais sobre isso descobriremos no futuro, com revelações sobre Barbelith.

John Lennon aparece novamente no quadrinho sendo invocado por King Mob como deus numa meditação transcendental regada à LSD e psicodelia musical. Lennon é o deus-cabeça, deus-nove, deus música. Nove, número recitado em “Revolution 9” dos Beatles ao fundo, número de King Mob e também número de  Ganesh, o deus indiano, no “777” de Aleister Crowley. O “777” é um livro de referências mítico-ritualísticas facinho de encontrar na internet em pdf, principalmente em inglês. Pra quem quiser entrar na onda do ocultismo, super recomendo. Aliás, só essas duas páginas de meditação entre Lennon e Mob possuem tantas referências que podiam fazer um livro só sobre elas. E tudo em palavras soltas, num fluxo de pensamentos em comunhão regado a símbolos e cores pesadas, que ilumina nosso herói careca nos próximos passos de sua entrada triunfal na vida de Dane McGowan.

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E então chegamos a um explosivo clímax em que Dane dá adeus ao professor e suas influências permeadas de esperanças tradicionalistas e um pouco normativas, queimando a escola. O exagero o leva a um tribunal que, num discurso conservadorista, o condena a internação compulsória no Lar Harmonia. O Lar Harmonia é uma instituição reformatória que, em muitas medidas, lembra o Tratamento Ludovico de Laranja Mecânica. Jovens uniformizados ouvem um enorme discurso glorificando o conformismo e denegrindo noções de individualidade, vindo da boca de um careca gorducho de terno e óculos escuros, que visualmente lembra personagens como Lex Luthor, Wilson Fisk e outros representantes da vilania e do grande capital. No Lar Harmonia, jovens delinquentes perdem seu poder de expressão e escolha de forma bem efetiva: Tiram a substância da personalidade de seus cérebros para alimentar demônios regados a medo, ódio, raiva e outras emoções. Se o caso de delinquência for grave, alisam os garotos entre as pernas, entre as orelhas. Ninguém no Lar Harmonia mostra os olhos, estão todos cobertos e possivelmente, conformados. Ou entregues, ou cheios de prazer, falarei um pouco mais desse detalhe dos olhos na parte três.

Quando Dane descobre tudo que pode sobre o Lar Harmonia se vê no maior perigo contra sua liberdade desde que nasceu. Até que King Mob o resgata, usando um figurino meio gore meio glam punk fenomenal e um revólver sem dó. Mob toca fogo no Lar Harmonia e foge com Dane. Gelt, o careca gorducho, reencarna num inseto nojento que Dane simbolicamente mata sem querer. E depois de uma breve conversa, Mob abandona Dane em Londres, deixando-o refém da alcunha: Invisível. Mas não parte do grupo ainda.

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Esta primeira edição fenomenal planta ideias que estarão percorrendo toda a série: A guerra infinita da liberdade contra a repressão. A liberdade aqui fica representada por Mob, que não vê limites e atropela padrões religiosos, morais ou até mesmo corporais e estéticos. A repressão vem na forma sinistra do Lar Harmonia. E como nem tudo é preto e branco, os tons de cinza podem ser encontrados permeando todo o resto. É muito bem feita a construção morrisoniana dos símbolos que conectam todas as referências das edições, que vão desde trocadilhos como ‘beetle-Beatle’ às conversas constantes acerca da morte e do fogo que se misturavam com as situações em que os personagens tinham suas guinadas de liberdade. A revolta de Dane com todas as estruturas que surgem em seu caminho e sua piromania parecem reflexos diretos dos problemas familiares, mas é muito mais que isso. A forma como o garoto percebe e sente o mundo, os medos que ele alimenta dentro dele como o medo do Jack Frost, sua postura de liderança para com seus amigos encrenqueiros denotam que Dane McGowan tem muito mais a oferecer ao mundo que escolhas óbvias. Apesar do professor de história dele parecer boa pessoa em suas preocupações, ele acaba sendo mais uma parte de todas as estruturas que Dane sente coagindo-o. Dane não quer um guia, uma escola mais interessante ou um pai, Dane simplesmente não sabe o que quer e diante desse vazio, que muitos de nós sentimos no dia-a-dia ou enquanto vamos crescendo, ele não vê outra saída além de fazer o que lhe dá prazer: Queimar, roubar, ter marra. É essa marra que lhe dá certo respeito. As notas da escola poderiam proporcionar-lhe uma respeitabilidade similar, mas não tem a mesma graça. Ele é “gamado em sirene de bombeiro.”

As ideias neste quadrinho são construtos fortes. Jack Frost é um medo externalizado ou uma aparição sobrenatural? E os fantasmas dos Beatles mortos? A estas perguntas as respostas virão depois. O importante aqui é perceber a lição central da primeira edição: Toda ideia, emoção, conceito, expressão ou sentimento são fontes de liberdade. Tudo que o Lar Harmonia quer tirar dos jovens para enquadrá-los nas estruturas sociais de conformidade e ‘retidão’ diz respeito a isso. E toda máquina repressiva, no caso representada e maximizada pelo Lar Harmonia, trabalha por valores muito mais obscuros que falsas noções de coletividade sem subjetividade. Trabalha pelo medo, pela servidão. E se você se entregar demais a isso acabará perdido numa expressão vazia, que diz nem sim nem não, que nunca será lembrada ou se destacará, mas que estará completamente presa a um mundo de escolhas não-feitas. Ou seja, a mensagem aqui é: Derrube todos os limites que te impõem e seja tudo que você é sem se perder. E um pouco mais, se assim quiseres. E mande o foda-se para quem tentar te impedir. Antes de terminar, devo dizer que a arte de Steve Yeowell e as cores de Daniel Vozzo e Electric Crayon resultam em quebras bem simples e diretas, mas bastante expressivas. Os cenários não são sempre completos mas são bem pensados dentro do necessário. E a capa da granada em amarelo, azul e vermelho na arte do Rian Hughes… Um charme. Bom dia, boa tarde ou boa noite e até o próximo review invisível!!