[QUADRINHOS] Review: Piteco – Ingá

 

Piteco – Ingá

Autor: Shiko (arte, roteiro e cores)

Editora: Panini Comics

Graphic MSP (selo da Maurício de Souza Produções) completou um ano de publicações em outubro, e não há como negar o quanto fascinante tem sido até aqui. Com suas releituras dos clássicos personagens do cartunista Maurício de Souza através dum toque mais autoral dos artistas envolvidos, tivemos a intimista e existencialista abordagem de Danilo Beyruth em Astronauta – Magnetar (com as cores da Cris Peter), a saudosista e calorosa Turma da Mônica – Laços pelos irmãos Cafaggi e o dinâmico e cômico Chico Bento – Pavor Espaciar de Gustavo Duarte. Finalizando a primeira leva de títulos do selo, chegou recentemente Piteco – Ingá, produzido pelo grande artista paraibano Shiko que reinventa o mundo do pré-histórico personagem homônimo.

Para recriar o universo de Piteco, Shiko vai em busca das suas origens nordestinas para compôr uma mitologia nova e rica para o personagem, algo parecido com o que Gustavo Duarte fez ao trazer os conhecidos “causos” do interior de São Paulo como base do enredo de Chico Bento – Pavor Espaciar. Em seus primeiros painéis, já somos apresentados as instigantes inscrições rupestres da Pedra do Ingá, monumento arquelógico localizado no estado da Paraíba, terra natal do autor. Dali, que é composto toda a carga geográfica, histórica e mística que lidaremos com o decorrer da trama, pois foram nessas pinturas nas pedras que nossos antigos povos começaram a contar sua história e também onde a nona arte teve seu início, só reforçando tamanha importância. Ainda obstante à essas heranças arquelógicas, a HQ também lida com questões fortemente sociais, como os retirantes nordestinos, que com o problema da seca e levados pela crença de melhores oportunidades e condições de vida, partiam para diversas outras regiões do nosso país. Isso, porque o povo de Lem, a tribo de Piteco, resolve migrar para uma outra região com a promessa de que poderão prosperar neste novo lugar, já que o rio que os abastecia havia secado, trazendo não só o problema da sede como também impediria o cultivo de alimentos, já que é da agricultura que conseguem o necessário para sobreviverem.

Além do dilema da migração, Thuga, a feiticeira da tribo e o amor de Piteco, é raptada pelos homens-tigres, comunidade de caçadores que antigamente fazia parte do povo de Lem. Como é de costume em toda jornada de herói, este é o chamado e a causa para busca que Piteco acaba motivado a realizar, pois resgatar a sua amada é tão importante para ele quanto para sua aldeia. Ao lado do seu amigo inventor Beleléu e com a ajuda da guerreira Ogra, o herói pré-histórico atravessa diversos obstáculos além da tribo dos homens-tigres, como o astuto  povo de Ur, pescadores que também pertenciam a aldeia de Lem, assim como deuses e outras criaturas místicas da floresta. E vale citar o quanto Shiko faz uma releitura interessante e autêntica de lendas indígenas como o Caipora e o Boitatá, fora de outras culturas, como o Camazot, deus-morcego do antigos maias. Há também seres pré-históricos que tanto auxiliam quanto ameaçam Piteco em sua aventura, do imenso pterossauro Anhanguera ao perigoso tigre  dentes de-sabre. Na introdução e construção destes elementos que o artista não só expande o universo de Piteco, como também dá novíssimos traços que só o engrandece.

E na arte, Shiko demonstra toda a sua forte influência nos quadrinhos europeus, o traço rebuscado e pitoresco, o forte e belo uso das aquarelas e um imaginário de seres fantásticos que flertam um pouco com o famoso artista francês Moebius marcam visualmente a HQ. As caracterizações dos povos bem delineadas em pequenos detalhes, que sutilmente definem suas diferenças, reafirmam seu cuidado na criação dessa obra. Em questão narrativa, ela é bem espaçada e o autor conseguiu encapsular e abordar uma série de eventos da trama dentro do pequeno, mas conciso e justo, espaço que possui. E destaque para Thuga, que além de fugir dos padrões de beleza convencionais, poderia cair no arquétipo de “donzela indefesa em perigo”, mas felizmente, o quadrinista soube muito bem tratar sua importância na história e a relação com Piteco, que no fim, acaba tornando-se uma personagem tão maior como catalisadora das mudanças e a união que há por vir entre os povos.

Piteco – Ingá é mais uma obra que reitera a importância da existência do Graphic MSP para o mercado nacional e o apreço dos seus leitores ávidos por mais, e mais, releituras de personagens que marcaram a infância de muitos. Acima de tudo, é uma digníssima reimaginação histórica e cultural através das raízes da nossa nação.

OBS: Caso queiram saber quais serão os próximos lançamentos do selo Graphic MSP, cliquem aqui.

Curta nossa página no Facebook e nos siga no Twitter para mais bugigangas do universo nerd e geek.

One thought on “[QUADRINHOS] Review: Piteco – Ingá

  1. Pingback: [QUADRINHOS] O Dia do Quadrinho Nacional! | NERD GEEK FEELINGS

Comments are closed.