[QUADRINHOS] Repeteco, de Bryan Lee O’Malley (resenha)

A vida de Katie está numa fase de transição. Grandes mudanças estão prestes a ocorrer. No meio de um turbilhão de sentimentos conflitantes, surge uma chance de reescrever seu passado. Será que determinados momentos valem um repeteco? É o que Katie descobrirá.

Quem nunca parou pra pensar no que faria se tivesse uma nova chance de reviver um momento decisivo e escolher outro caminho no lugar daquele que tomou? No caso de Katie, protagonista de Repeteco, essa chance acontece sob a forma de três itens: um cogumelo, um bloco de anotações e um manual de instruções:

Tudo isto é o suficiente pra possibilitar as retificações, ou seja, viagens no tempo nas quais Katie tem uma segunda chance (daí um dos motivos por Repeteco se chamar Second no original em inglês). É um sistema bem simples o imaginado por Bryan Lee O’Malley, que aproxima a graphic novel mais de uma fantasia urbana do que de uma ficção científica.

Pra quem conheceu a obra de O’Malley através de Scott Pilgrim, saiba que Repeteco tem tanto humor quanto seu “irmão mais velho”. Parte dele vem das divertidas brigas entre Katie e o narrador da história (que podemos imaginar como o próprio O’Malley):

Sim, ela consegue ouvi-lo narrando sua vida em vários momentos, da mesma forma que é a única capaz de ver a misteriosa e fantasmagórica Lis, como se fosse outro de seus poderes extrassensoriais.

Aliás, vale apontar que, mais adiante, ela consegue enxergar uma “dimensão superior”, quando é levada para o “lado de fora” do contínuo espaço-tempo. Portanto, dá pra interpretarmos suas discussões breves com o narrador como outro indício dessa “mediunidade” dela, ou de algum transtorno mental. Mas, estou me adiantando aqui…

Mais importante que estes fenômenos metafísicos são os relacionamentos de jovens adultos retratados por O’Malley. Sobre este aspecto, já posso adiantar que Érico Assis fez um excelente trabalho de tradução, deixando os diálogos tão informais e cheios de contrações, gírias e adaptações de expressões idiomáticas quanto era necessário pra preservar a jovialidade dos personagens, que tornam Repeteco uma leitura leve e fluida. Dá pra matar suas  330 páginas sem se cansar, pois o texto ficou tão agradável de ler quanto a arte de O’Malley é divertida de apreciar, por seu equilíbrio entre expressividade, desenvoltura e comicidade.

Aliás, o traço de O’Malley evoluiu notavelmente desde Scott Pilgrim. Embora seu estilo continue com forte influência do mangá japonês, dá pra notar que suas composições, cenários e diagramações estão mais sofisticados em Repeteco:

Mas voltemos à trama! Repeteco, em suma, é mais uma variante de histórias sobre segundas chances, no estilo do clássico Feitiço do Tempo. O’Malley foi inspirado ao incluir algumas questões filosóficas, embora elas fiquem em segundo plano. Um exemplo disto é a situação que já citei rapidamente acima: quando Katie é levada até o que interpretei como a quinta dimensão. É uma sequência rápida, de poucas páginas, que traz uma série de implicações, mas que logo é seguida por outro reload da realidade.

Para os leitores mais interessados na metafísica espaço-temporal de Repeteco, é possível fazer um bocado de deduções a partir dos eventos narrados. Particularmente me interessei pela conexão entre os espíritos dos lares e as linhas temporais alternativas. Só a presença de espíritos e cogumelos mágicos já dá margem pra interpretar que a maior parte da história é uma série de viagens alucinógenas de Katie, tentando imaginar quais rumos ela poderia ter dado à sua vida se tomasse outras decisões. Isto, por sua vez, remonta à “coincidência” de vários filmes sobre viagens temporais terem protagonistas com algum transtorno mental, como Donnie Darko, Efeito Borboleta e Te Amarei Para Sempre (inspirado no livro A Mulher do Viajante no Tempo), só pra citar três deles. Pistas disto são os objetos de uma linha temporal que continuam em outra criada/escolhida por Katie, mesmo quando não faz sentido que persistam, pois seriam afetados pelas supostas mudanças provocadas por ela. É como se isto ocorresse por Katie se esquecer das regras que regem as viagens no tempo, no lugar de submeter-se a elas. E não dá pra apontá-las como erros de continuidade, pois a própria Katie estranha essas “anomalias”.

Mais importante que a metafísica da trama são as decisões tomadas por Katie, e como ela se perde na ânsia de retificar sua vida. No início ela corrige pequenos erros que cometeu, e se diverte com isto. Mas, com tamanho poder nas mãos, logo ela se vê tentada a corrigir um acontecimento mais significativo que afetou seu relacionamento com um ex-namorado. A partir desse ponto, a coisa se complica ainda mais. Estou falando daquele tipo de situação em que uma pessoa põe de lado sua própria personalidade pra ajeitar as coisas com outra pessoa, mas acaba deixando em segundo plano algo que devia vir em primeiro: seu amor próprio. Tanto que em suas últimas retificações Katie passa por uma série de situações em que se perde cada vez mais. Portanto, há algo mais do que viagens no tempo e espíritos do lar em Repeteco. Há a lição de não se prender ao passado, às oportunidades perdidas, aos caminhos não escolhidos, e tentar acertar as coisas no agora, nem que seja começando a admitir os erros que cometeu no caminho, e seguir daí pra frente.

Permita-me fazer um desvio do assunto central dessa resenha, e falar um pouco sobre um problema pessoal: minha depressão. Em minha atual compreensão dela, posso dizer com certa segurança que minha depressão foi alimentada por pensamentos viciosos de escolhas que não fiz. Era uma árvore doente crescendo num terreno de cinzas de passados alternativos “queimados” por minhas decisões (para usar uma metáfora visual presente em Repeteco). Eu fiquei por muito tempo hipnotizado pela visão de vidas alternativas. Esse “Feitiço do Tempo” só se quebrou quando optei por um dos caminhos, e investi meu tempo e energia nele. Desse momento em diante minha vida voltou a avançar. Antes disto fiquei cinco anos preso em loops temporais que só aconteciam na minha cabeça. Também ajudou a decisão de começar a tratar quimicamente minha depressão, especialmente incentivado por minha namorada, a Raquel Pinheiro, que também escreve aqui pro Nerd Geek Feelings (que por sua vez é um dos investimentos que fiz no caminho que escolhi em 2012, quando comecei a escrever para o site).

Mas, voltando a Repeteco, Katie se entorpece ao ser “enfeitiçada” pela possibilidade de explorar outras vidas, representadas por “galhos” de sua “árvore de possibilidades” que ela deixou de explorar (que é a primeira imagem da história após a página de créditos, vale apontar). Isto afeta física e psicologicamente Kate, refletindo na “saúde” das novas linhas temporais “criadas” por cada nova retificação que faz em seu passado.

E aqui preciso falar dos acontecimentos finais de Repeteco pra apresentar algumas interpretações que fiz da história. Portanto, se não quiser ler spoilers, pule os próximos dois parágrafos.

Ainda falando da árvore, é importante reparar na semelhança entre a estrutura formada pelas linhas temporais alternativas e o cérebro, e em como a cor vermelha remete não apenas à cor do cabelo de Katie, mas a um coração (o que, novamente, remonta à ligação entre transtornos mentais e viagens no tempo). Note que a maior parte das retificações que ela faz na segunda metade da HQ são impulsionadas pela paixão que ela sente por Max. Note também que a primeira vez que Katie vislumbra a estrutura ocorre quando ela olha pro fundo do caldeirão, e lembre-se do que ela diz pra “bruxa” na conclusão, quando reconhece uma similaridade entre elas. Aquela estrutura não era a de Kate. O que ela viu foi a “energia residual” de outra árvore de possibilidades paralisada no tempo, transformada em cinzas.

No meu entendimento de Repeteco, tanto Lis quanto a “bruxa” do caldeirão são prisioneiras de seus respectivos passados. Não há tantas pistas sobre o passado da Lis quanto há sobre o da “bruxa”, mas é possível deduzir que os cogumelos responsáveis pelas “viagens no tempo” de Katie foram originalmente adubados com as cinzas da Lis, da mesma forma que as cinzas da bruxa serviram de adubo para o crescimento deles quando Katie as jogou sobre a horta de fungos no porão de Repeteco, ou seja, nas fundações da casa onde o restaurante funciona (literalmente a casa “cresceu” das supostas cinzas de Lis, tornando-a o espírito daquele lar. Assim, podemos interpretar que Lis, em sua aparente ingenuidade, queria ensinar a Katie uma lição que ela própria queria ter aprendido quanto viva, na esperança de evitar que Katie cometesse os mesmos erros que ela. Aquela árvore que Lis mostra a Katie é tanto dela quanto de Katie, pois ambas estão ligadas aos destinos do Repeteco, pois Lis, como espírito daquele lar, é prisioneira dele.

Mas não importa tanto a natureza dos eventos narrados, e sim o quanto eles afetam Katie. Eu e ela aprendemos que nosso passado não pode se tornar uma prisão, mas um ponto de referência pra medirmos nosso progresso, e não matéria para elucubrações infrutíferas em torno de arrependimentos. Quaisquer retificações devem ocorrer no agora, e não em um hipotético passado alternativo. Se podemos aprender alguma lição com ficções sobre segundas chances como Repeteco, que seja esta: na maioria das vezes só temos uma chance de acertar. Lidar com as consequências do acerto ou do erro é o que impulsiona o nosso progresso, e admitir que erramos em algumas decisões é o que nos conduz à maturidade. Só o Super Mario consegue “crescer” comendo um cogumelo. Meros mortais como nós crescemos a partir de acertos e erros. A experiência é o “adubo” da maturidade. Boas decisões são o que faz com que a árvore de nossa vida cresça saudável, e deixe bons frutos para este mundo.



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20,4 x 14,8 x 2,6 cm

336 páginas

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2 thoughts on “[QUADRINHOS] Repeteco, de Bryan Lee O’Malley (resenha)

    • Puxa, Gustavo. Fiquei lisonjeado com seu comentário, e contente por ter gostado da minha resenha.

      Foi um texto que gostei de escrever. Que bom que você gostou de ler. 🙂

      Volte mais vezes. ^_^

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