[QUADRINHOS] “QBRADO” de Reno (resenha)

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Num mundo onde as pessoas estão cada vez mais apáticas e seus sentimentos mais anestesiados por antidepressivos e calmantes, um gênio da robótica resolve criar uma inteligência artificial capaz de reproduzir as mais complexas emoções humanas. Tal ato é visto como absurdo, e o cientista é forçado a livrar-se da máquina.

file-page8QBRADO, do quadrinista Reno – pseudônimo de Renato Silva – acompanha a jornada de KID-A02, o robô com sentimentos, tentando lidar com um mundo no qual nasceu já sendo descartado numa lixeira por seu criador .

Em nenhum momento o autor esconde suas intenções. Extrapolando situações de nosso cotidiano, Reno salientou diversas falhas de nossa sociedade, entre elas nossa ânsia de obter bens materiais com o intuito de preencher o vazio existencial gerado pela tristeza de constatar o desprezo recebido por aqueles incapazes de se integrar ao “sistema de distribuição de dinheiro” – para usar uma definição dada por A02, que resume bem o capitalismo. Se em alguns momentos estas extrapolações funcionam, em outros elas incomodam pela artificialidade com que ocorrem. Faltou um pouco mais de sutileza em alguns pontos, como naquele onde o protagonista é jogado de uma ponte por uma turba de cidadãos revoltados com o fato de não possuir dinheiro.

Apesar de alguns problemas no desenrolar de parte dos acontecimentos, outros são bem trabalhados, como as alfinetadas de Reno à competitividade no mercado de trabalho, e à desumanização e robotização dos atendentes de callcenter – que são retratados como doentes acometidos pela “epidemia” de depressão decorrente da rotina massacrante que os esgota física e psicologicamente, destruindo suas esperanças e sonhos.

Reno também acerta nas sequências mudas, com destaque para aquela em que vemos KID andando pelas ruas da cidade e testemunhando um homem e um cão vira-latas em situações semelhantes. Nelas suas imagens dizem mais do que qualquer reflexão verbalizada.

qbrado reno preview 4O visual de KID chama atenção por sua semelhança com os alienígenas estereotipados que invadiram o imaginário popular. E seu papel como testemunha das falhas humanas remeteu-me ao Surfista Prateado de Stan Lee, outro ser alienígena usado para expressar as reflexões de seu criador sobre a condição humana.

Não dá pra dizer que um dos méritos de QBRADO é sua arte, pois o traço de Reno é quase infantil. Mas, se levarmos em conta o teor da história, é possível até aceitá-lo por combinar com a proposta da trama: um ser artificial ingênuo explorando um mundo cínico, de valores distorcidos e moralidade precária. Assim, o traço mais rústico de Reno casa bem com a história, que é mais sustentada pelas reflexões que propõe ao leitor.

Talvez um traço mais maduro, caprichado e expressivo tornasse QBRADO uma HQ mais contundente. Ainda que sofra de uma precariedade artística, vale prestigiar o esforço de Reno, que enfrentou suas próprias limitações técnicas a fim de passar adiante apontamentos a respeito de problemas muito atuais que, infelizmente, continuarão atuantes em nossa sociedade por muito tempo. Ainda somos muito orientados pelos valores que a sociedade nos impõe. Talvez nossos sistemas operacionais precisem de um “reboot” para que enxerguemos a realidade com mais clareza, e invistamos nosso tempo e esforço nos valores que realmente importam para a nossa felicidade. Infelizmente não somos máquinas como o protagonista de QBRADO. Ou somos?


file-page1Capa em papel couchê fosco, 250 g/m²
48 páginas (preto e branco)
Formato: 15x21cm

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