[QUADRINHOS] Primeiras impressões: All-New, All-Different Marvel (Parte 5)

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Gente, não para de sair essas coisas da Marvel, né? Mas tá, hoje tem mais, não tô desistindo assim tão fácil. ♥

Voltando essa semana com a série de avaliações dos novos títulos da All-New, All-Different Marvel, tem título pra todos os gostos. Pra quem acreditava em um possível boicote aos mutantes (pois é), tem o novo título dos X-Men escrito por Jeff Lemire, contradizendo tudo isso aí. Ah, e a nova Wolverine (SIM, nova mesmo, gênero feminino). Se você é chegado em mitologia grega, tem o Hércules provando que pode sim ser um personagem interessante. E, por fim, o totalmente novo (que-já-nem-é-mais-totalmente-novo-coisa-nenhuma) Gavião Arqueiro, de Jeff Lemire (ELE DE NOVO, PORQUE SIM).

HERE WE GO.


Extraordinary X-Men

  • Roteiro de Jeff Lemire, arte de Humberto Ramos e cores de Edgar Delgado.

Extraordinary X-Men (2015-) 001-010

Acho que eu já falei disso por aqui, em um dos posts anteriores. Não custa recapitular: em algum momento, alguém na internet *cof cof* Bleeding Cool *cof cof* achou que a Marvel ia sabotar os mutantes e substituí-los pelos Inumanos. Mercadologicamente, é uma estratégia até plausível. Afinal, a Marvel possui os direitos para produzir filmes dos Inumanos, mas os direitos dos X-Men estão com o Fox Studios. Então, nada melhor do que apostar naquilo que está dentro de casa, certo? Errado. Querendo ou não, os X-Men ainda são uma das propriedades mais rentáveis da editora. Seja vendendo quadrinhos, seja em produtos licenciados. E seria um puta tiro no pé sabotar uma das suas maiores marcas. E provando esse ponto, temos Extraordinary X-Men como o carro-chefe da linha mutante da Marvel. Tá, o título pode não ser tão extraordinário quanto o nome da HQ sugere, mas é a prova de que a editora não tá tão disposta assim a abrir mão dos seus outrora queridinhos.

Por que esse título é a prova de que não existe sabotagem nenhuma? Jeff Lemire. O roteirista super-star que fez sua fama na DC e foi recentemente contratado pela Marvel, vem de um trabalho já aclamado na concorrência (Arqueiro Verde). Ou seja, um talento que ganhou BASTANTE destaque na indústria, agora trabalhando em um nicho da Marvel que tava precisando mesmo de um revamp. O problema é que Lemire não é conhecido por acertar seu compasso em títulos de equipes. Se Arqueiro Verde foi um sucesso de crítica e público, sua Liga da Justiça não fez tanto sucesso assim (nem com o público e menos ainda com a crítica). Curiosamente, o roteiro aqui quebra esse padrão. Lemire não é nada extraordinário, mas tudo bem. Ele não foge do básico, mas pra uma primeira edição esse não é exatamente um pecado mortal. A mudança radical está ali, mas ela não parece importar tanto assim: uma espécie de infecção vinda das névoas terrígenas (aquela fumaça que dá poderes aos Inumanos) atingiu os mutantes, e além de ficarem bem doentes quando expostos ao elemento, ainda rola um efeito colateral: eles não podem mais se reproduzir. Extinção. Só que quando eu falo sobre isso, parece grave, bastante importante, né? O problema é que o roteiro de Lemire se perde um tanto nisso. Ele não passa a urgência que deveria. Mas ele também cumpre seu papel, de certa forma: se os personagens não têm muita direção, pelo menos eles são bem apresentados. Todos bem caracterizados, e todos têm seus momentos para brilhar. Tempestade, Homem de Gelo, Magia, Colossus, Noturno, a jovem Jean Grey (vinda do passado), e o Velho Logan, o Wolverine vindo de um futuro alternativo, todos eles (ou quase todos) reunidos em X-Haven, uma espécie de santuário comandado por Tempestade para abrigar os mutantes em tempos de crise. Ah sim, a crise: o Ciclope fez alguma merda bem grande (e tem a ver com o drama dos Inumanos), e agora os mutantes são mais odiados do que nunca.

Enquanto o roteiro de Lemire fracassa em dar destaque às tais revoluções prometidas, os visuais de Humberto Ramos fazem essa função magistralmente. Eu não sou exatamente fã do trabalho do cara, e ainda duvido que ele tenha sido a melhor escolha pra esse título, mas é inegável que tudo parece bem impressionante na arte da HQ. Os personagens estão bem mudados. Do moicano – já clássico – de Tempestade, ao visual mais hipster barbudo do Colossus, todos parecem ter sido bem impactados por quaisquer que sejam os acontecimentos recentes que o roteiro não nos apresenta logo de cara. Dou o braço a torcer e admito: Ramos impressiona desenhando os X-Men, e fica claro o empenho dele nisso.

Com uma primeira edição mediana, e um recomeço que ecoa diversos outros recomeços da equipe, Extraordinary X-Men tem potencial pra se tornar uma das HQs mais bacanas desse relaunch. E eu acredito na equipe criativa aqui, mesmo torcendo um pouquinho o nariz pro desenhista. Eu sei que o intuito é avaliar só a primeira edição de cada título e tals, mas segue um spoilerzinho: eu já li um pouquinho mais adiante, e as coisas ficam mais empolgantes na segunda edição, rs.


All-New Wolverine

  • Roteiro de Tom Taylor, arte de David Lopez e cores de Nathan Fairbairn.

O Wolverine que todo mundo conhece morreu. Okay, é óbvio que isso ainda vai ser revertido de alguma forma, mas isso pouco importa agora. Isso porque Laura Kinney, a X-23, decidiu assumir o manto do seu mentor. E olha, o negócio saiu mais divertido do que eu esperava.

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O roteiro de Tom Taylor vem com um histórico onde se enxergava um padrão bem claro: em Earth 2 da DC, víamos alguns heróis trabalhando no limiar da justiça, em tons de cinza, flertando com a ideia de, talvez, serem vilões. Em Injustice: Gods Among Us, Superman era claramente o vilão. E em Superior Iron Man, Tony Stark era o vilão também. Então, à parte outros detalhes, essa HQ já vale pra mim por ver Taylor saindo da sua zona de conforto.

Pra quem não conhece a personagem – e relaxa, a HQ considera isso também -, Laura é a clone de Logan (igual no desenho, X-Men Evolution, lembra?). Em flashbacks bem bonitinhos, conseguimos nos familiarizar mais com a personagem e qual a sua relação com o carcaju. Se você não tem nenhum motivo pra gostar dela, essas cenas são o suficiente pra te convencer de que ela está mais do que à altura pra assumir o manto. Infelizmente, não acontece muita coisa nessa primeira edição, mas o suficiente pra te manter à espera da próxima. Não dá pra eu dizer muito mais nos detalhes aqui sem estragar o gancho final da edição, que é onde realmente começamos a ter uma noção da extensão do plot da HQ. Ah, destaque também pro jovem Anjo (que também veio do passado, tipo a Jean Grey ali em cima), que funciona como o alivio cômico da edição, o contraponto perfeito a toda a acidez da personagem principal.

A arte de David Lopez não é revolucionária em momento algum, mas funciona de maneira eficaz dentro da proposta do título, dando um certo senso de sobriedade à personagem, não permitindo que ela pareça ridícula enquanto veste um uniforme amarelo e azul. E isso é bem importante pra um desenhista do (a) Wolverine, né. O destaque, no fim das contas, fica mesmo pras cores de Nathan Fairbairn, que consegue diferenciar bem as fases da personagem: se durante uma perseguição nas ruas de Paris dos tempos atuais, a paleta de cores é muito mais sóbria e fria, dando uma atmosfera mais veloz à história, nos flashbacks a escolha das cores combina perfeitamente com o ar mais acolhedor do roteiro.

All-New Wolverine é divertida na medida certa. Cenas de ação bem desenhadas, uma personagem bem escrita e cativante, com um plot bastante interessante. Não é revolucionária, mas, mais uma vez, a história não precisa disso pra funcionar. Uma HQ bem honesta. Ah, uma ressalva: um pouquinho mais de sangue cairia bem. É meio estranho ver uma Wolverine, com garras e tals, lutando contra drones (!). Um detalhe bobo, na real. Só achei digno de nota.


Hercules

  • Roteiro de Dan Abnett, arte de Luke Ross e arte de Guru-eFx.

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Gente, eu não fazia a menor da ideia do que eu ia ler aqui. E olha só, até que foi uma surpresa agradável.

O roteiro de Dan Abnett (um dos responsáveis por trazer os Guardiões da Galáxia de volta aos holofotes da editora) sabe MUITO bem como trabalhar o personagem: Hércules é o primeiro de todos os heróis, ele deu forma ao conceito de heroísmo que inspira inúmeras outras figuras por aí. Mas, em tempos atuais, talvez ele já não tenha mais espaço para brilhar. E é nesse momento que o herói se vê obrigado a abraçar as mudanças e tecnologias contemporâneas para se reinventar e voltar a perpetuar seus atos de heroísmo, mas sem abandonar suas raízes mitológicas. E isso funciona de maneira surpreendente. Em meio a altos e baixos na trama geral, que parece meio perdida em alguns momentos, o grande destaque acaba sendo mesmo o protagonista e os diálogos construídos por Abnett. É tudo muito leve e, mesmo que pareça um pouco sobrecarregada de diálogos em alguns momentos, a HQ não abraça temas sérios demais, e se mantém como uma leitura mais descompromissada mesmo. Se listado entre outras HQs que trabalham dentro dessa mesma premissa mais leve – como Astonishing Ant-Man, Drax ou até mesmo Guardiões da Galáxia de Brian Bendis -, Hercules acaba perdendo um pouco de seu brilho, e passando a impressão de mais do mesmo, mas, ainda assim, o esforço de Abnett aqui é louvável.

A arte do brasileiro Luke Ross (Capitão América) não sai nunca do mediano. Os personagens são bem retratados, e talvez a arte seja um pouco pesada em alguns momentos, escondendo traços faciais ou momentos que poderiam ter uma energia mais cinética, mas nada que afaste o leitor ou que quebre drasticamente o ritmo da história. No geral, se o trabalho de Abnett está bem acima da média, a arte de Ross é, no máximo, satisfatória.

Hercules é aquela leitura que dificilmente vai agregar muito à sua vida, honestamente. Não é uma HQ ruim, mas acaba perdendo seu brilho em meio a tantos outros lançamentos mais chamativos (e bem trabalhados) que a editora vem oferecendo durante esses relançamentos, mesmo dentro dessa mesma linha narrativa.


All-New Hawkeye

  • Roteiro de Jeff Lemire, arte de Ramón Pérez e cores de Ian Herring.

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E temos Jeff Lemire de novo. Só que essa é uma leitura particularmente especial, que me tomou um pouquinho mais de tempo, na real. Porque, assim, vamos recapitular o passado recente da Marvel: em 2012 tivemos o lançamento de Hawkeye, a série do Gavião Arqueiro escrita então por Matt Fraction (Sex Criminals) e arte de David Aja (Punho de Ferro). E essa rapidamente se tornou a HQ favorita DA MINHA VIDA. E então ela acabou. Em seu lugar, vinha Jeff Lemire pra substituir Fraction nos roteiros e Ramón Pérez pra substituir Aja, em um novo volume intitulado de All-New Hawkeye. Mas esse aqui sobre o qual eu vou escrever é o SEGUNDO volume de All-New Hawkeye escrito por Lemire. Ou seja, essa leitura me tomou um tempinho a mais porque eu decidi ler as cinco edições JÁ ESCRITAS por Lemire que antecedem esse relançamento. Recapitulando: Hawkeye por Fraction e Aja, All-New Hawkeye por Lemire e Pérez, e agora, volume dois de All-New, com Lemire e Pérez de novo.

Se no primeiro volume do título, Lemire apostou em toda uma simetria que contava a história de Clint Barton colocando em contraste seu presente e seu passado, o roteirista agora aposta em uma abordagem semelhante, porém equiparando os atos presentes de Barton com o que acontecerá em seu futuro. E esse recurso narrativo funciona brilhantemente. Mas o que mais me fascina aqui é que parece que Lemire finalmente encontrou a voz certa para a sua fase à frente desse personagem. Porque, ainda que não seja ruim, o volume anterior pecava em um aspecto: tentando se encontrar entre o tom estabelecido por Fraction e as novas direções mais ousadas que Lemire tentava explorar, os personagens acabavam se perdendo e tudo pareceu um tanto quanto mal trabalhado. Aqui, tudo começa a se juntar em um grande quebra-cabeça, e finalmente conseguimos enxergar o quadro maior. Ah, e é muita injustiça falar constantemente de Clint Barton e esquecer da outra protagonista, tão importante quanto e, às vezes, até mais importante do que o próprio Barton: a Gaviã Arqueira, Kate Bishop. Se Lemire finalmente encontrou o tom certo para o título, boa parte disso vem da relação conturbada do Team Hawkeye, principalmente quando o roteiro foca na personalidade de Kate.

A arte de Pérez, assim como no volume anterior, permanece impecável. Com um ar bastante minimalista nas sequências que se passam no presente, o artista consegue focar muito na linguagem corporal de cada um dos personagens, e esse minimalismo não o impede de trabalhar muito bem com expressões faciais também. Enquanto isso, as cenas que se passam no futuro trazem um ar mais desesperado e sujo, e muitas vezes parece que estamos lendo dois quadrinhos distintos, embora seja claro que trata-se do trabalho de um mesmo artista, não permitindo que essas alternações entre núcleos atrapalhem o ritmo da história. Os painéis são muito bem diagramados e a narrativa possui um senso de direção fascinante, sempre com espaços para que o leitor possa processar bem o que está acontecendo. Ponto de destaque também para as cores de Ian Herring, continuando com os tons pastéis estabelecidos para o Team Hawkeye desde a fase de Fraction/Aja, mas também trabalhando com paletas mais psicodélicas e fluorescentes nas sequências futuristas.

Se eu tinha qualquer dúvida quanto a capacidade de Lemire em assumir o manto de Fraction nesse título, esse relaunch serviu pra me dar a certeza de que o cara está sim à altura, e não precisa emular o estilo de ninguém pra isso, finalmente encontrando seu próprio take nesses personagens que eu amo tanto. Posso estar sendo tendencioso sim, mas o segundo volume de All-New Hawkeye é uma das estreias mais empolgantes dessa nova fase.


E acabou, dessa vez com uma semana mais breve, com só quatro reviews. Mas convenhamos, teve dose dupla de Jeff Lemire, né. Tá valendo, poxa.

Enfim, continuo querendo saber as opiniões de vocês. Aquele coiso de escrever comentários ali embaixo não está ali à toa. VAMOS LÁ, GENTE. TÔ ESPERANDO.