[QUADRINHOS] Pretty Deadly: Um faroeste poético e sobrenatural

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Há muita poesia verbal e visual em Pretty Deadly, faroeste sobrenatural criado por Kelly Sue Deconnick e Emma Rios. Não é à toa que a série já foi descrita como “Sandman no Oeste Selvagem”, pois além da qualidade do texto e da arte, a dupla vem criando uma mitologia sólida e envolvente, temperando-a com grandes doses de suspense e vários personagens intrigantes.

O primeiro arco de Pretty Deadly gira em torno da dupla formada por Sissy, uma garotinha cantora de olhos bicolores e casaco de corvo, e Fox, um pistoleiro cego, que não demoram a conquistar a simpatia dos leitores graças ao ótimo trabalho de caracterização de Deconnick e Rios.

É através deles que conhemos a origem de Deathface Ginny, personagem à qual o título da série se refere, filha da personificação masculina da Morte com uma mulher que sofreu abusos de seu marido, e morreu literalmente prisioneira de uma relação machista. É notável o fato de ela terminar presa numa torre, prédio em formato fálico e representativo do desejo masculino e puramente sexual, que diminui o papel da mulher na relação, violando-a física e psicologicamente ao afogá-la num desejo unilateral. A sequência que revela sua história é tão tem construída pelo texto de Deconnick e a arte de Rios, que facilmente leva o leitor a intuir sua musicalidade graças à disposição fluida e ritmada dos recordatórios e dos quadrinhos.

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Como todo bom suspense a série exige um pouco da paciência do leitor, que descobre apenas na edição 3 um pouco mais sobre o ressurgimento de Ginny no mundo de Pretty Deadly, e sua relação com Sissy, Fox, o golpista Johnny Coyote e sua parceira Molly Raven.

Além da curiosidade que o aspecto mitológico e místico da trama desperta no leitor, Pretty Deadly também levanta questões relativas ao papel de diversos animais no aspecto simbólico da série. Até o momento já apareceram corvos, borboletas, o esqueleto falante de um coelho (o narrador onisciente da história), um lobo (como apelido de um personagem), e outros animais de verdade ou fantásticos. Qual é a relação entre estes animais? Por que Big Alice, enviada por Morte para recuperar algo que Johnny Coyote roubou dele, se desfaz numa revoada de borboletas? Seriam estas últimas uma referência de Deconnick às borboletas dos livros de Gabriel García Márquez, que relaciona o inseto à morte / transcendência / liberdade do espírito e/ou da vontade?

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Mas Pretty Deadly não mereceria a classificação de faroeste se não apresentasse um bocado de confrontos físicos. A violência gráfica das cenas de ação é desenhada como uma dança simultaneamente bela, macabra e hipnotizante, graças aos belos, áridos e detalhados traços e diagramações de Rios, que retratam muito bem a sujeira e agressividade do mundo de seus personagens. Sua arte remete à técnica sumi-ê de pintura japonesa, talvez uma forma sutil de Rios traçar um paralelo entre a era dos samurais e o velho oeste americano, ligação já feita várias vezes pelo cinema em filmes como Sete Homens e Um Destino, adaptação ocidental de Os Sete Samurais de Akira Kurosawa. E levando em conta que Ginny usa katana e pistola como armas, a opção do estilo se mostra ainda mais acertada aqui.

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Provando que mulheres também podem criar excelentes faroestes estrelados por personagens femininas tão respeitáveis quanto pistoleiros de grandes clássicos do “bangbang”, Deconnick e Rios estão produzindo uma das melhores séries em publicação da atualidade, sendo mais uma da invejável lista de títulos imperdíveis que a Image Comics vem lançando nos últimos anos, a qual promete crescer ainda mais em 2014.

PRETTY DEADLY #1 a 5
[Image Comics, média de 30 páginas por edição / 2013-2014]
Roteiros de Kelly Sue Deconnick, desenhos de Emma Rios, cores de Jordie Bellaire

Nota: 9,0