[QUADRINHOS] Porque Quadrinhos de Super-Heróis Não Podem Ser “Breaking Bad”

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Texto original de Brett White, traduzido e adaptado por Rodrigo F.S. Souza

Não vou dar nenhum spoiler, pois sei que apenas ver agora as palavras “Breaking” e “Bad” juntas numa frase é o suficiente pra fazer muita gente fechar seus laptops. Não vou abordar nada específico sobre Breaking Bad, exceto dizer que, após 62 episódios, a história da série que começou em 2008 está encerrada. É assim que histórias tendem a funcionar; todas elas tendem a ter finais — com exceção dos quadrinhos de super-heróis.

Isto não é apenas algo que eu notei, mas o frenesi cultural sobre o final de Breaking Bad me fez pensar nos quadrinhos e em como este tipo específico de frenesi provavelmente jamais acontecerá nos quadrinhos. A DC terminou cada um de seus quadrinhos de super-heróis em um mês e as pessoas fizeram estardalhaço a respeito do reboot que o seguiu. Fãs de histórias em quadrinhos sabem que aquilo não foi um final verdadeiro.

Mas nem sempre considerei isto parte da experiência de ler quadrinhos. Quando você começa a ler quadrinhos de super-heróis você os trata como filmes, televisão, novelas, praticamente como qualquer outra mídia. Você os lê como se eventualmente você fosse chegar a um final, e cada mudança e abalo no status quo o atinge com mais impacto porque, de acordo com a forma como a maioria das outras mídias funciona, estas mudanças significam alguma coisa. Não apenas nos lembramos dos personagens pelos quais nos apaixonamos, mas também do sentimento de inovação que é ler quadrinhos. As primeiras 62 edições de meu quadrinho favorito sempre parecerão tão completas quanto os 62 episódios de Breaking Bad porque eu as experimentei da mesma forma — sem qualquer precedente sobre como esse tipo de história deve ser contada e achando que cada ponto da trama teria um impacto duradouro.

Em algum momento todo leitor de quadrinhos aprende que eles não são como a maioria das séries de tevê ou filmes. Quadrinhos são cíclicos, e reiniciam a cada bocado de anos, com personagens morrendo e o status quo mudando apenas para ser revertido em poucos anos.

Os primeiros anos lendo quadrinhos de super-heróis são mágicos porque você não sabe disto ainda. Como alguém que começou a ler X-Men na saga Atrações Fatais, eu experimentei a deserção de Colossus, Magneto arrancando o [revestimento de] adamantium [do esqueleto] de Wolverine, o primeiro encontro de Gambit e Vampira, a morte do Homem Múltiplo, o ataque cardíaco do Fortão, e a disseminação do Vírus Legado com tanto imediatismo que eu definitivamente estava segurando com força minhas HQs enquanto as lia. Eu não sabia que mudanças feitas antes de eu começar a ler [X-Men] estavam sendo revertidas; no lugar disto vi Terremotos Arrasadores de Status Quo. As asas de penas do Arcanjo retornaram misteriosamente, e esta mudança explodiu minha cabeça de estudante de ensino médio.

Mas então o botão reset foi apertado e todas as minhas grandes mudanças, e minha lua de mel com os quadrinhos de super-heróis terminaram. Eu estava muito consciente de que aquelas histórias não tinham um fim em vista, e que cada grande momento daquele ponto em diante não teria o mesmo peso. Quando isto acontece, cada leitor tem ou que aceitar que histórias de super-heróis são diferentes de qualquer outra forma popular de contar histórias e encontrar outra métrica para medir sua satisfação, ou parar de ler quadrinhos, ou continuar lendo e se tornar um fã cada vez mais amargo.

Adivinha quem está voltando?

Adivinha quem está voltando?

Eu cheguei a este momento 62 edições depois de minha primeira edição de Uncanny X-Men com o arco em duas partes composto de Uncanny X-Men #360 e X-Men #80. Até este ponto, os dois títulos estavam numa progressão que poderia facilmente mimetizar qualquer drama básico de TV a cabo. Scott Lobdell, o “escritor principal”, saiu depois de cinco anos de serviço, com “escritores de apoio” como Fabian Nicieza e Mark Waid passando pelos títulos. A “série” foi então passada para Steve Seagle e Joe Kelly, cuja “temporada” de estréia foi caracterizada por uma surpreendente mudança de status quo, que livrou a equipe dos excessos das “temporadas” dos anos 90 e levou os X-Men de volta às suas raízes. Mesmo um monte de grandes “estrelas” tiveram seus envolvimentos reduzidos a papéis “recorrentes”, com pesos-pesados como Bishop, Gambit, Vampira e Psylocke abrindo espaço para novos personagens se tornarem “regulares”. Foi então que este longo drama serializado que eu amava se tornou uma história em quadrinhos.

Com [o título em quadrinhos] Excalibur chegando a uma conclusão, ou talvez sendo cancelado para que isto acontecesse, X-Men clássicos como Noturno, Kitty Pryde e Colossus voltaram para o elenco, conforme toda a série se libertava de suas subtramas em construção e embarcava numa vibe mais old school. Todas as mudanças feitas à equipe entre as sagas Atrações Fatais e Operação Tolerância Zero se foram. Colossus era um cara bonzinho. O Homem Múltiplo estava vivo. Wolverine ganhou de volta suas garras de metal.

Este tipo de botão reset raramente acontece na tevê. Quando um personagem ou ator deixa um programa, não tem mais volta. O jovem e inocente leitor de quadrinhos que eu era assumiu que Noturno e seus amigos jamais fariam parte da equipe de novo, assim como espectadores de Mad Men sabiam que Sal Romano e Paul Kinsey jamais voltariam para a série e seriam empregados da Sterling Cooper & Partners.

Então quadrinhos de super-heróis não podem ser como séries de tevê porque esta propriedade intelectual é muito valiosa para morrer. Eles passarão por fases, os personagens viverão coisas impensáveis, mas voltarão a ser como eram uma vez passado um certo tempo. Depois de ler quadrinhos por tanto tempo, acho que finalmente descobri o porque disto não ser necessariamente uma coisa ruim.

A natureza dos quadrinhos nos permite constantemente ver novas e diferentes interpretações de nossos heróis favoritos, e por essas reimaginações jamais terminarem, há sempre uma chance de outra boa [interpretação] estar esperando na esquina. Imaginem se Bionic Woman, que a NBC falhou em ressuscitar há pouco tempo atrás, fosse — por alguma razão — uma propriedade principal da NBC e eles investissem em relançá-la várias vezes, com novos showrunners a cada vez. Quais são as chances de pelo menos alguns deles acertarem? Quais são as chances de que, agora, minha imaginada NBC estaria buscando alguém como Vince Gilligan [criador] de Breaking Bad pra assumir esta série de TV imaginária, da mesma forma que a Marvel pegou Joss Whedon para reimaginar nos X-Men após Grant Morrison? A constante regeneração sofrida pelos quadrinhos só é um problema se você deixar novas edições desvalorizarem suas antigas. Não deixe isto acontecer.

X-Men #80, que marcou um dos muitos reinícios da franquia.

X-Men #80, que marcou um dos muitos reinícios da franquia nos quadrinhos.

Imagine se a tevê fosse conduzida da mesma forma que um grande título de super-herói, e isto oferecerá uma prova de quão divertida a infinita natureza dos quadrinhos pode ser. Se a tevê fosse comandada como os quadrinhos, talvez ainda tivéssemos novos episódios de Cheers, escrita pelos roteiristas de Parks and Recreation — talvez com uma continuidade reiniciada, talvez como um embaraçoso filão datado tão legal quanto um internet café no final dos anos 90, mas ainda teríamos Cheers. Não, ela não seria a mesma, mas os melhores roteiristas são capazes de distinguir o que é essencial para a série e torná-la relevante de novo, semelhante à maneira como Mark Waid vem lidando com o Demolidor. Ainda teríamos a velha Cheers, intocada e disponível no Netflix pra você gastar literalmente cada noite dos últimos dez meses assistindo. Oh, esta última parte foi apenas eu que fiz?

Esta natureza cíclica nos permite ler ainda mais tipos de histórias com supostamente os mesmos personagens do que qualquer outra mídia. Você tem o Batman de Scott Snyder ao mesmo tempo que o Batman de Christopher Nolan, nenhum deles negando a existência do Batman de Adam West. Se você aplica uma mentalidade Breaking Bad aos seus quadrinhos, onde uma narrativa abrangente e única comanda tudo, então você provavelmente jamais ficará satisfeito. Mas se você apenas os encarar como histórias para apreciar no momento, tratar cada morte assim como cada eterno retorno como um milagre, então eles podem ser bem mais divertidos.

O Noturno está voltando. Ele morreu numa era anterior dos X-Men, e agora está voltando para encontrar todos os seus amigos em vários cruzamentos saídos de Vingadores vs. X-Men e Battle of the Atom[a saga mais atual envolvendo os X-Men]. Mal posso esperar pra ver como ele lidará com tudo isto, e não vejo a hora de lê-lo escrito por Jason Aaron. Se isto fosse na tevê, o personagem Noturno logo seria esquecido na série X-Men, e o ator que o interpretava talvez estivesse estrelando uma sitcom da NBC agora, sem esperanças de um retorno graças a coisas como “contratos” e “dinheiro.”

Em 1998 o retorno de Noturno aos X-Men marcou o fim dos meus dias de glória com os quadrinhos de super-hérois, mas agora — sabendo que a natureza cíclica dos quadrinhos não é uma coisa tão ruim — seu retorno marca algo que eu realmente quero ler.

Fonte: http://www.comicbookresources.com/?page=article&id=48241