[QUADRINHOS] “Perpetuum Mobile” de Diego Sanchez (resenha)

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Martín está insatisfeito com o rumo que deu à sua vida, e decide partir de San Juarez em busca de… um caminho melhor. Pelo menos é com esta ideia na cabeça que ele deixa seu emprego, sua namorada, amante e amigos pra trás em Perpetuum Mobile de Diego Sanchez, republicado este ano pela Editora Mino.

perpetuum mobile diego sanchez preview 4A primeira conclusão à qual cheguei após a primeira das três leituras que fiz da HQ é que ela não serve pra qualquer tipo de leitor. A história já começa com dois personagens conversando num engarrafamento, que simplesmente somem da história para reaparecerem só no final. E este é só um dos muitos momentos insólitos do drama existencialista experimental concebido por Diego.

Na maior parte da história acompanhamos a vida de Martín, conforme ele vai repassando seus últimos momentos com Dolores, sua namorada, e Amparo, sua mais recente paixão. Acontece que não fica muito claro – pelo menos na primeira leitora – em que ordem ocorreu o fim de seu namoro e o início de seu novo relacionamento amoroso, pois os fatos são apresentados em ordem não-linear.

perpetuum mobile diego sanchez preview 3Em minha segunda leitura eu saquei que a história pode ser encarada como uma recapitulação dos últimos meses da vida do protagonista, conforme ele decide qual caminho irá tomar após afastar-se de tudo que fazia parte de sua vida em San Juarez. Mas esta é apenas uma das interpretações possíveis.

Pra complicar ainda mais, além dessa não-linearidade, também temos algumas digressões imaginativas de Martín, que começa a conversar com um amigo imaginário no meio de um deserto, além de sua consciência ser representada por Carlito y Jojo, uma tirinha de jornal que lembra uma mistura de Peanuts, Calvin e Haroldo e Onde Vivem Os Monstros.

Aliás, em minha terceira leitura, não pude deixar de reparar na semelhança entre Martín e Charlie Brown. Dá até pra dizer que ele é uma versão adulta do protagonista de Peanuts. Repare no calvície do personagem e na camiseta listrada que ele usa em vários momentos da história. Além disto, ele também se apaixona por uma garota ruiva. Enfim, eis outra interpretação possível.

No fim, Perpetuum Mobile é sobre um cara sem muito propósito na vida tentando dar algum sentido a ela, mesmo que, para isto, ele caia em contradição, já que Martín chegou ao ponto de não acreditar que haja algum sentido por trás da existência – algo que ele deixa bem claro logo no início. É justamente esse despropósito que torna Martín um sujeito inquieto, cuja mente oscila entre a realidade palpável e sua imaginação, entre monólogos internos e debates filosóficos com seus amigos e suas amantes. Entre estas oscilações, Diego expõe as inseguranças de Martín, e com elas seus repentes de machismo opressor e (auto)depreciativo, que ele usa para impôr suas vontades a Dolores, que o humilha e sustenta.

Apesar do pessimismo niilista de Martín, e de algumas atitudes desprezíveis e degradantes que ele toma na história, Perpetuum Mobile é uma leitura que entretém do início ao fim, pelo aspecto de quebra-cabeças da estrutura imaginada por Diego, que nos instiga a reordenar todos os fatos numa ordem cronológica, além de também permitir que interpretemos de variadas formas alguns símbolos usados, conforme revisitamos a história – o que eu recomendo fortemente que o faça, caso esteja dispost@ a aventurar-se nesta obra. Se você gosta de ser desafiado, eis um quadrinho para você.


nota-4perpetuum mobile diego sanchez capaEditora Mino

12 x 17 cm

168 páginas

Maio de 2015

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