[QUADRINHOS] Papa-Capim – Noite Branca, de Marcela Godoy e Renato Guedes (resenha)

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A Noite Branca está chegando, e só Papa-Capim foi avisado da proximidade da ameaça, que pode extinguir toda a sua aldeia numa só noite. Seria ótimo se ele fosse um respeitado guerreiro, e não apenas um curumim…

Papa-Capim – Noite Branca, penúltima Graphic MSP lançada em 2016 (até o momento, pois ainda teremos Bidu – Juntos este ano), é uma interessante mistura de lendas indígenas brasileiras, criaturas do Velho Continente, terror e suspense amarrados por uma história que, em parte, se assemelha a um conto de detetive, onde Papa-Capim investiga o mistério por trás da ameaça da Noite Branca.

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Na trama, escrita por Marcela Godoy, Papa-Capim é o herói solitário que precisa provar aos demais a autenticidade das informações essenciais que recebeu através de um sonho. O fato de ser um curumim, ou seja, uma criança aos olhos de sua tribo, faz com que ele não seja levado a sério. Isto o obriga a agir por conta própria.

Caso não tenha sacado até agora, o que temos em Noite Branca trata de um rito de passagem, um desafio a ser superado para o curumim tornar-se um respeitável guerreiro. Ou, se preferir, uma prova de fogo para um menino manifestar os atributos de um homem formado, alguém apto a defender sua família e, se preciso for, resgatá-la do cativeiro de forças malignas.

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Como uma boa história norteada pela Jornada do Herói, nela há um bocado de busca interior por autoconhecimento e transcendência, que ajudarão Papa-Capim a encontrar em si uma força em estado latente para enfrentar o inimigo. O roteiro de Marcela diz nas entrelinhas que, tão importante quanto conhecer a natureza da ameaça, é conhecer a si mesmo.

Noite Branca não é uma história inovadora e não tem a intenção de ser. Seu principal objetivo é apresentar uma nova versão de um conto arquetípico tão antigo quanto a humanidade, usando personagens, cenários e criaturas mitológicas de nossa cultura, que por sua vez foram a base usada por Mauricio de Sousa para criar o Papa-Capim e seus coadjuvantes na década de 1960.

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A costura de mitos antigos feita por Marcela Godoy deu um ar mais contemporâneo a ambos. Em paralelo, a narrativa visual de Renato Guedes deu ao terror uma presença mais palpável, e tornou os personagens mais verossímeis e humanos, graças ao seu traço que beira o fotorrealismo. Gostei especialmente das sutilezas no uso das cores, com os personagens tendo mais volume e sombras do que os cenários, como se estes fossem um mero palco para o que de fato importa: o drama e o terror humano que por ele desfilam com seu peso e profundidade.

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Noite Branca, mesmo rápida de ler, foi capaz de me conduzir a tais reflexões, semelhante ao guia espiritual de Papa-Capim, que o estimula a investigar o próprio interior em busca de respostas para suas aflições. Portanto, a obra cumpriu muito bem o seu papel, além de atrair meu interesse para o imaginário cultural de nosso país, o que já é um grande mérito para uma história em quadrinhos de apenas 80 páginas. Mais um grande acerto dessa coleção que tem revelado tantas facetas do Brasil.


nota-4


papa capim noite branca capaPanini Comics

Disponível nos formatos brochura e capa dura

28 x 18,8 x 1 cm

80 páginas

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