[QUADRINHOS] O Superman de Grant Morrison – Parte 3: Amigos, Super-Amigos, Pais Bondosos e um Super-Cão

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Mesmo sendo um dos super-heróis mais poderosos da Terra, o Superman desde cedo contou com o apoio de aliados, super-poderosos ou não, e com o apoio de amigos e familiares, cada um dando sua contribuição para a formação do herói que conhecemos hoje. Grant Morrison, em todas as 19 edições que escreveu para a Action Comics, não ignorou a importância deles, e procurou cercar o herói de um elenco de coadjuvantes que impediu o Homem de Aço de tornar-se um herói solitário em sua luta contra todas as ameaças que enfrentou até os dias de hoje.

Segue abaixo uma lista de todos os coadjuvantes “do bem” que marcaram presença durante a fase de Morrison em Action Comics.

Perdeu as partes anteriores? Você pode lê-las nos links abaixo (é de graça!):

O Superman de Grant Morrison – Parte 1: O Homem e O Super-Homem
O Superman de Grant Morrison – Parte 2: Krypton, Kryptonianos e Kryptonices.

Jonathan e Martha Kent

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A principal mudança que Grant Morrison fez com os Kent foi tirá-los da vida de Clark antes que ele fosse para Metrópolis, dando a ele um motivo a mais para honrar a memória de seus pais adotivos, usando o que aprendeu com eles sobre bondade, humildade e justiça para cumprir a promessa que fez a Jonathan em seu leito de morte.

Muito da história de Jonathan e Martha Kent nesta nova versão da origem do Superman é obra de Sholly Fisch. O autor fez um ótimo e sensível trabalho de preencher lacunas deixadas pela narrativa mais ágil e hipercomprimida de Morrison, criando contos mais “arejados” em que trivialidades encontravam mais espaço, dando ao leitor momentos de respiro após a carga de informações e ação das histórias principais de Action Comics. Assim, suas tramas complementares aumentaram o envolvimento emocional entre o leitor e os personagens coadjuvantes, e tornaram mais clara a importância deles na vida do herói em formação.

Na história de apoio de Action Comics #5, Fisch contou a história dos primeiros anos de casamento dos Kent, onde revelou que por muitos anos eles tentaram conceber uma criança, até Martha conseguir engravidar fazendo fertilização in vitro. Para a infelicidade do casal, ela perdeu o bebê após um aborto espontâneo.

Os Kent estavam prestes a reunir suas economias para entrar num longo e custoso processo de adoção, quando Kal-El entrou em suas vidas.

Fisch brincou com a idéia de que todo este martírio do casal foi um sinal divino, um meio de prepará-los para receber em seu lar uma criança enviada dos céus. Aqui entra uma das muitas interpretações sobre o significado simbólico da vinda de Kal-El para a Terra, um ser de uma raça mais evoluída destinado a salvar a humanidade e servir-lhe de modelo.

Quase duas décadas depois os Kent morreram num “acidente” de automóvel no mesmo dia do baile de formatura de Clark em Smallville.

A Legião dos Super-Heróis bem que tentou impedir que o acidente ocorresse, voltando no tempo até o dia trágico, mas chegou tarde demais. Satúrnia usou seus poderes para ajudar Martha a se despedir de Jonathan antes de morrer, ligando-os telepaticamente. Jonathan viu a Legião como anjos que vieram levar a alma de Martha para o céu.

Mais tarde, em seu leito de morte, Jonathan fez Clark prometer que usaria seus poderes como uma força do bem, para tornar-se um campeão dos oprimidos, e fazer do mundo um lugar melhor.

Lois Lane

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Respeitando a essência da personagem, a Lois Lane de Grant Morrison continua a repórter destemida e disposta a se arriscar para conseguir um furo jornalístico.

Um dos pontos que a DC fez questão de mudar, e com o qual o autor concordou, foi acabar com o interesse amoroso de Clark/Superman por Lois. Assim, ela é apenas uma colega de profissão de Clark no início, que mais tarde vira uma amiga através da convivência, especialmente por intermédio de Jimmy Olsen, que desde o início é amigo de Clark.

Lois continua sendo filha do General Lane, um dos responsáveis pelo laboratório que aprisionou o Superman em Action Comics #2.

Nas primeiras edições descobrimos que ela teve um breve envolvimento amoroso com John Corben, o futuro vilão Metallo, aparentemente mais por pressão do pai.

Jimmy Olsen

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Na cronologia pré-Novos 52 Jimmy Olsen fazia amizade com o Superman antes de tornar-se amigo de Clark. Agora o rapaz é um dos primeiros e maiores amigos de Clark Kent em Metrópolis, com quem ele sai direto pra assistir filmes, jogar conversa fora numa lanchonete, ou jogar videogame na sua casa.

Em essência o personagem continua o mesmo, embora Morrison surgira sutilmente uma tragédia na vida do rapaz, quando em Action Comics #7 ele dá a entender que sua mãe cometeu suicídio misturando álcool com tranquilizantes. O assunto não volta a ser mencionado durante a fase de Morrison no título.

Um dos apetrechos clássicos usados por Jimmy, o relógio sinalizador que sempre usava para chamar o Superman quando se encrencava, foi substituído por um celular, que tem o mesmo toque do antigo relógio.

Curiosidade: Na história de apoio de Action Comics #10 Jimmy chama Clark para assistir uma maratona de filmes B de terror. Os títulos citados são todos referências às transformações bizarras que o rapaz vivia sofrendo na Era de Prata, como o Homem-Tartaruga Gigante e o Porco-Espinho Humano.

Aço

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John Henry Irons, o Aço, era cientista do laboratório onde Lex Luthor e o General Lane mantiveram Superman cativo, até revoltar-se com a tortura que aplicaram no herói, e pedir demissão em Action Comics #2.

A armadura de Aço usa algumas das idéias que John teve para a concepção do projeto Soldado de Aço, que deu origem ao Metal-Zero, contra o qual lutou durante o ataque do Colecionador de Mundos (mais sobre estes dois na próxima parte desta série de matérias).

Quando o Superman deixou a Terra para enfrentar o Colecionador em sua nave, em Action Comics #7, Aço foi essencial para lidar com os efeitos da extração de uma parte de Metrópolis pelo vilão. Foi neste momento de grande necessidade que John descobriu sua verdadeira vocação, dando a sua vida um objetivo mais altruísta.

Legião dos Super-Heróis

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Na concepção de Grant Morrison o trio formado por Relâmpago, Cósmico e Satúrnia, da Legião dos Super-Heróis, serve como uma espécie de sistema imunológico do tempo. Na maioria de suas aparições eles tentam corrigir as várias interferências feitas na história do Superman pelo Homenzinho, o vilão principal da fase escrita por Morrison, que indiretamente provocou o futuro do qual escaparam.

A distopia da qual o trio remanescente da Legião fugiu é revelada em Action Comics #16. No ano 3030 todos os integrantes da equipe são considerados clandestinos. Em Nugothotropolis Megurb, a versão futura e decadente de Metrópolis, a Legião invade seu antigo QG, dominado e protegido por soldados de Universo. Lá Relâmpago, Cósmico e Saturnia encontram a última Esfera do Tempo, que eles usam para voltar ao passado. Eles voltam no tempo para impedir que todas as maquinações do Homenzinho levem à morte do Superman, que desencadeará uma série de eventos que darão início à Era de Universo.

Na história adicional de Action Comics #16 é explicado que Universo é um exímio manipulador e mestre dos disfarces. Ele usa a identidade falsa de Hiroshi Takaneda para se eleger presidente da Terra em 3013. A grande ironia do destino é que foi a Legião que salvou Hiroshi/Universo de uma tentativa de assassinato. O assassino era um alienígena capaz de prever o futuro, que sabia o que Universo faria caso vencesse a eleição.

Uma das medidas que ele toma após eleito é instaurar lei marcial no planeta, separando-o dos Planetas Unidos, uma espécie de Nações Unidas num contexto cósmico. Isto gera o futuro negro que fez Relâmpago, Cósmico e Satúrnia realizarem várias viagens pelo passado na tentativa de alterá-lo a fim de impedir a ascensão de Universo ao poder.

Uma das primeiras paradas da Legião é mencionada logo na 1ª edição de Action Comics. O trio procura Clark no prédio da Sra. Nixly, que os recebe, e mais tarde comenta com Kent que “dois homens e uma mulher loira” o procuraram. Na ocasião eles queriam descobrir a data exata da morte dos pais de Clark para impedi-la (informação que é revelada apenas em Action Comics #17).

Logo após isto o trio volta até o dia em que os Kent morreram, mas chegam tarde demais.

Depois dessa primeira tentativa fracassada de impedir um dos golpes do Homenzinho, os legionários reaparecem nas edições 5 e 6, quando infiltram-se no Exército Anti-Superman, que havia acabado de roubar a kryptonita do Casulo de Fuga do Superman. Imra “prevê” sua missão de infiltração minutos antes de iniciá-la quando sente a presença de seu eu futuro no cérebro do Superman quando faz uma sondagem telepática. Esta nova parceria da Legião com o Superman, e seu combate com o Exército Anti-Superman, ocorre antes do encontro do herói com o Capitão Cometa e Susie, a sobrinha de Lois, vistos nas edições 11 e 12 (mais detalhes sobre estes dois na parte 4 desta série).

Curiosidade: vale prestar atenção na roupa que a versão adolescente de Clark está usando durante seu primeiro encontro com a Legião, mostrada em Action Comics #6. É muito parecida com aquela usada pelo Clark adolescente que aparece no primeiro trailer do filme O Homem de Aço. Possivelmente foi desta HQ que tiraram a idéia para esta passagem do filme.

Sra. Nixly / Princesa Gsptlnz

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A Sra. Nixly é proprietária do prédio onde Clark alugou um apartamento no início de sua carreira jornalística em Metrópolis. Em suas primeiras aparições ela tinha um ar misterioso de quem esconde um grande segredo e sabe mais do que revela. A verdade sobre ela vem à tona em Action Comics #12, quando ela conta ao Superman sua origem.

Nixly é um ser da 5ª dimensão, um lugar cheio de magia (provavelmente fonte de toda a magia do Universo DC), onde a imaginação é realidade. Neste mundo de sonhos ela era a Princesa Gsptlnz que vivia com seu pai, o Rei-Coisa (King-Thing, no original), e seu amado Mxyzptlk. Porém um grande mal se abateu sobre suas vidas, forçando-a a fugir de sua dimensão para a nossa há 57 anos atrás, quando transferiu sua consciência para o corpo de um bebê de nosso mundo – ou assumiu a forma de um desde o embrião (isto não fica muito claro) – para ajudar o Superman quando chegasse a hora do herói enfrentar o causador de sua fuga: Vyndktvx. Segundo Nixly, Vyndktvx feriu seu amado e matou o rei após escapar da prisão (mais detalhes sobre este episódio no texto sobre Mxyzptlk, logo após este, e na 5ª parte desta série).

Um dado curioso que descobrimos enquanto Nixly conta sua história para o Superman é que as palavras em 5D pronunciadas por ela ferem os ouvidos do herói. Isto sugere a carga de informações/significados que elas carregam consigo, e o quanto de esforço elas exigem do aparelho auditivo e do cérebro do Superman para serem decodificadas e compreendidas por ele.

Antes de fugir para o nosso mundo, Nixly ganhou de presente de Mxyzptlk três pedidos. O primeiro deles ela usou quando já estava em nossa dimensão, para reencontrar seu amado, que também fugiu para a Terra. O segundo foi gasto para desfazer a morte de Clark Kent em Action Comics #12.

Nixly tem seu corpo tridimensional morto por Nimrod a mando de Vyndktvx em Action Comics #15, o que a obriga a realizar uma nova fuga, desta vez para a 2ª dimensão. Ela se refugia no vermelho do “S” da armadura kryptoniana do Superman, onde seu sangue respingou quando foi baleada na cabeça pelo assassino. Para realizar este feito, Nixly usou uma técnica que Mxyzptlk lhe ensinou, que lhe permite transformar seu sangue num “casulo de fuga” para transferir-se de uma dimensão superior para outra (Mxyzptlk usa exatamente o este termo quando explica para Ferlin o processo em Action Comics #18, o mesmo usado em edições anteriores para referir-se à nave que trouxe Kal-El para a Terra). Devido a esta “limitação dimensional” o último pedido usado por Nixly tinha que estar relacionado à cor vermelha, levando o Superman a pedir que ela revertesse a tragédia ocorrida em Marte, o “Planeta Vermelho”, em Action Comics #18.

A fuga de Nixly para a 2ª dimensão, que seria, na concepção de Grant Morrison, aquela onde as histórias em quadrinhos ocorrem, reforça um dos temas trabalhados pelo autor no título: seres poderosos e superiores a humanos normais forçados a abandonar sua terra/tempo natal após uma tragédia/cataclismo planetário/realidade distópica, rebaixando-se a uma condição inferior. Kal-El foi enviado de Krypton para a Terra; Nixly e Mxy fugiram da 5ª para a 3ª dimensão; a Legião dos Super-Heróis partiu do futuro para o passado.

Mxyzptlk / Mr. Triple X

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Mxyzptlk é um artista da 5ª dimensão apaixonado por sua arte, ao mesmo tempo em que não leva nada totalmente a sério, atitude que o põe em confronto direto com Vyndktvx, um mágico pretensioso e sisudo demais. A intuição e criatividade de Mxyzptlk se revela superior à excessiva racionalidade e precisão metódica de Vyndktvx.

Essa desenvoltura e espontaneidade de Mxyzptlk foi essencial para que ele encontrasse uma cura para a depressão do rei da 5ª dimensão, pai de Nixly, que graças a Mxy volta a sorrir após um longo período de tristeza causado pela perda de sua esposa. Para isto Mxyzptlk cativa o rei e toda a sua corte tirando um universo 3D de seu chapéu-coco, o Universo DC, onde passa a atormentar campeões de 333 mundos. O campeão preferido de Mxy e do rei era o Superman, o único que revidava, e conseguia superar a inteligência de Mxy, fazendo-o voltar para o sua dimensão após forçá-lo a pronunciar seu nome de trás pra frente.

O Superman não se lembra de seus encontros com Mxyzptlk porque eles ocorreram no futuro do ponto do tempo em que sua história é revelada ao herói pela Sra. Nixly (fato ocorrido há 5 anos atrás, algumas semanas ou meses depois da primeira missão do Superman ao lado da Liga da Justiça). Para seres da 5ª dimensão o tempo, sendo a 4ª dimensão, é plenamente acessível por estar “abaixo” dela. Isto cria situações como a do Superman, cujo futuro é visto como “passado” pela Sra. Nixly, ou, mais precisamente, como um dos “presentes” simultaneamente acessados/vivenciados por ela enquanto dialoga com outros “tempos” simultâneos. Para simplificar a coisa toda, basta dizer que o tempo, como um todo, é como uma história em quadrinhos para um ser da 5ª dimensão, que ele pode folhear, indo e voltando como desejar, e até mesmo ler várias páginas ao mesmo tempo, inserindo-se nelas e interagindo com seu ambiente e seus habitantes.

Grande parte do apelo e simpatia de Mxyzptlk nesta nova versão se deve ao inspirado trabalho que Sholly Fisch fez com o personagem e seu mundo na história adicional da edição 15. Sua caracterização de Mxy chega a ser até melhor que a de Morrison, provando mais uma vez que ele seria a escolha mais acertada para substituí-lo no título após sua saída, o que infelizmente não ocorreu. Cheia de poesia, encantamento, e belos trechos (“Once there was a princess made of giggles and sunshine”), é o tipo de história cuja leveza da leitura faz bem ao leitor.

Assim como a Sra. Nixly, Mxyzptlk foi forçado a fugir da 5ª dimensão para esconder-se da ira de Vyndktvx, após este matar o rei e jurar vingança contra seus inimigos (que incluem o Superman, por razões que serão esclarecidas na parte 5 desta série). Vindo para a 3ª dimensão ele também assumiu uma forma humana, e ganhou fama como o mágico Mr. Triple X. Apesar das limitações impostas pela dimensão, ele conseguiu reencontrar sua amada, com quem teve um filho, Ferlin. Alguns anos depois uma doença o levou a um estado de coma.

Em Action Comics #16, enquanto enfrenta a investida final de Vyndktvx, o Superman pede para Lois Lane e Jimmy Olsen irem até o hospital onde o Mr. Triple X, o avatar mortal de Mxyzptlk, está internado em coma. Apesar de inconsciente, Mr. Triple X deixa uma lágrima escorrer ao ouvir Lois dizer o nome do Superman. No final desta mesma edição ele desperta repentinamente perguntando por Gizzy, o apelido carinhoso com o qual chamava Nixly. Esta passagem é curiosa por remeter a outro trabalho de Grant Morrison, a saga Crise Final. Nela Nix Uotan, uma entidade cósmica da raça dos Monitores condenada a viver num corpo mortal sem lembranças de quem foi, só consegue recuperar sua memória e seus poderes quando lembra-se do nome de sua amada (este, por sua vez, é um efeito semelhante ao do SHAZAM! que Billy Batson grita para transformar-se no Capitão Marvel, que, segundo a interpretação que Grant Morrison escreve sobre o personagem em seu livro Superdeuses, é o “eu futuro” de Billy manifestando-se no presente, emprestando seu corpo e poderes para a consciência do garoto).

A Legião dos Super-Heróis também chega ao hospital onde está internado o Mr. Triple X em Action Comics #17, quando ele ainda está chamando por Gizzy enquanto seus olhos brilham com uma energia alaranjada. Segundo Saturnia, ele não consegue se lembrar que era Mxyzptlk porque está inconsciente na 5ª dimensão, devido ao trauma sofrido por parte de sua consciência na 3ª dimensão, problema que ela descreve como “se seu corpo estivesse pressionado contra um chão inimaginável.” Apesar da história não deixar explícito, Saturnia aparentemente o ajudou a recuperar a consciência e a memória, pois em Action Comics #18, já totalmente desperto do coma, Triple X revela vários fatos dos quais só Mxyzptlk se lembraria, como a fuga de Nixly para a 2ª dimensão, e seu plano para pregar um truque final em Vyndktvx que ajudaria o Superman a derrotá-lo.

Parte deste truque final de Mxyzptlk contra Vyndktvx só funcionaria se o vilão soubesse que caiu nele. A idéia é mais uma daquelas estratégias mirabolantes e grandiosas que Morrison adora: usar a Esfera do Tempo da Legião como uma “torta” tridimensional lançada em velocidade superluminal através da 4ª dimensão, o tempo, na cara pentadimensional de Vyndktvx, a fim de distraí-lo enquanto o Superman o ataca na 3ª dimensão. É uma releitura sofisticada das travessuras de Mxyzptlk sob o prisma das múltiplas dimensões que o autor adora explorar em seus trabalhos.

Krypto

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Fruto de engenharia genética, Krypto é um cão programado por Jor-El para estabelecer um laço inquebrável com seu Kal-El, a fim de amá-lo e protegê-lo.

Durante a destruição de Krypton o cão protegeu Kal-El do Doutor Xa-Du, quando o criminoso tentou sequestrá-lo ainda bebê e levá-lo para a Zona Fantasma, se aproveitando da oportunidade que Jor-El e Lara criaram ao abrir o portal para aquela dimensão, pensando em usá-la como rota de fuga do mundo em convulsão. Krypto atacou o Doutor Xa-Du, e ficou preso com o criminoso no anti universo.

Mesmo vivendo como um fantasma naquela dimensão, sua forte conexão com Kal-El não foi rompida, possibilitando que ele o seguisse de Krypton até a Terra. Vale lembrar que os universos paralelos do Universo DC estão separados uns dos outros pelo fato de vibrarem em diferentes frequências, o que significa que eles estão entrelaçados. Por isto pessoas com uma percepção sensorial acima do comum conseguem ter lapsos do que ocorre em outro universo. Isto explica por quê o “fantasma” de Krypto é visto por um mendigo ao lado de Clark num parque em Action Comics #3

Quando o Superman é aprisionado na Zona Fantasma em Action Comics #13, é Krypto que salva sua pele do ataque dos prisioneiros daquela dimensão, repetindo seu feito de décadas atrás. “Only a dog… a ghost dog… could hear a ghost whistle.” (mais detalhes sobre esta história na 4ª parte desta série, quando falarei do Doutor Xa-Du, entre outros vilões)

Ao escapar da Zona Fantasma o Superman conseguiu aproveitar a brecha para retirar Krypto de lá usando a manopla de Xa-Du para conectar-se com a inteligência artificial da coleira do cão (provavelmente mais uma “porção” de Brainiac). Muito fraco após a passagem entre uma dimensão e outra, o cão é reanimado com a visão de calor, e depois levado para o espaço, onde é exposto diretamente à luz solar, que tem sobre suas células o mesmo efeito revitalizador que apresenta sobre as do Superman.

Grant Morrison não chegou a desenvolvê-lo muito além disto. Não fica claro se ele ganha outros superpoderes além da resistência acima do normal e da superforça. Ele chega a ajudar o Superman em sua batalha contra o Exército Anti-Superman, mas não tem muita chance de agir, pois logo os criminosos dão um jeito de enfraquecê-lo com uma corrente de kryptonita. Se ele será mais atuante e apresentará mais poderes do que os vistos na fase de Morrison é algo que o autor deixou para futuros escritores decidirem.

Semana que vem: Inimigos Meus.

6 thoughts on “[QUADRINHOS] O Superman de Grant Morrison – Parte 3: Amigos, Super-Amigos, Pais Bondosos e um Super-Cão

  1. Sensacional! Já virei fã do site por causa destes artigos sobre o Superman de Morrison! Muito bom mesmo! Parabéns!

    • Obrigado, Gustavo. Sempre bom saber quando alguém curte. Deu um trabalhão fazer essa série, mas valeu a pena! 🙂

  2. Diz-se que a 5ª dimensão é a chamada matéria escura, que não emite nem reflete luz, por isso é invisível. Diz possuir uma imensa força gravitacional, seria por isso que Satúrnia disse que a transição de Mxyzptlk da 5ª para a 3ª dimensão foi como “se seu corpo estivesse pressionado contra um chão inimaginável”?
    Diz também que a 5ª dimensão está ligada a essência coletiva, a consciência universal, o amor pleno por ele mesmo. O Superman que recebeu este amor de seus pais adotivos durante toda a vida, puro e perfeito por natureza, era a única pessoa capaz de convocar a consciência universal, quando apela para que todos digam seus nomes ao mesmo tempo, de trás pra frente, o anti-nome, que irá reverberar como “um trovão” nos ouvidos da quinta dimensão de anti-matéria. (?)
    Sendo assim, poderia ser a zona fantasma descoberta por Jor-El a própria 5ª dimensão, ou parte dela já que é um anti-universo?

    • Eu desconhecia estas informações sobre a matéria escura e a 5ª dimensão, Eduardo. Não saberia dizer se o Morrison inspirou-se nestes conceitos que você citou, embora não duvide.

      E muito curiosa essa conexão que traçou entre a 5ª dimensão e a Zona Fantasma. Não havia pensado nela. Mas, baseado no que o Morrison apresentou em suas histórias, não me recordo de nenhuma sugestão que ele tenha deixado de alguma ligação mais direta entre uma e outra.

      O que eu sei é que o Morrison sempre trabalhou a 5ª dimensão em seus quadrinhos como uma espécie de fonte de todas as idéias existentes, onde vivem os arquétipos de todos os conceitos que compõem o universo. Tanto é que na edição final, quando Lara está contando a história do rei da 5ª dimensão para Kal-El ainda bebê, ela chama os habitantes dela de archetropes, que é “um neologismo formado com as palavras arche, que significa arquétipo, e tropes, que significa alegoria em inglês.”

      • Interessante. Eu também não tinha captado o neologismo no final. Também acredito que em nenhum momento há associações entre a zona fantasma e a 5ª dimensão. Mas o mais legal é que a história abre essas possibilidades pra se pensar e viajar.

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