[QUADRINHOS] O Superman de Grant Morrison – Parte 1: O Homem e O Super-Homem

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Com o lançamento do filme O Homem de Aço nos cinemas dos Estados Unidos nesta quarta-feira, paralelo à estréia da série em quadrinhos Superman Unchained (cuja primeira edição eu analisei aqui), a tendência é que o mais antigo e bem sucedido super-herói dos quadrinhos volte a ganhar um destaque maior na mídia nos próximos meses.

Bem antes do filme, e de sua mais recente série em quadrinhos, o Último Filho de Krypton foi completamente reformulado no título Superman – Action Comics, que foi um dos carros-chefe d’Os Novos 52, o reboot que a DC fez em todo o seu universo ficcional em agosto de 2011. A série foi reimaginada para recontar os primeiros anos do maior de seus super-heróis. A tarefa caiu nas mãos de Grant Morrison, que pra quem acompanha quadrinhos de super-heróis dispensa apresentações. O autor já havia trabalhado com o personagem naquela que é considerada uma de suas obras-primas, além de ser uma das melhores histórias protagonizadas pelo herói: Grandes Astros Superman. Apesar de muitos verem Grandes Astros como a história definitiva do personagem, Morrison sentiu que tinha mais histórias pra contar com o Superman. A chance de recriar um dos super-heróis mais conhecidos do mundo foi tentadora demais para o autor, que aceitou a proposta sem hesitar.

Muitos não sabem, mas Grant Morrison já tentou reformular o Homem de Aço no final do século passado, ao lado dos escritores Mark Waid, Mark Millar e Tom Peyer. Na época eles apresentaram uma série de propostas para a DC – que ganhou o codinome de Superman 2000  infelizmente recusada pela editora, por algumas delas serem muito ousadas, embora muitas tivessem potencial o bastante para revitalizar o personagem, sua mitologia e elenco de coadjuvantes. Mas boas idéias acabam sempre encontrando um meio de se manifestarem, e Waid, Millar e Morrison, nos anos seguintes, conseguiram usar algumas das propostas que fizeram naquela ocasião em mini-séries como O Legado das Estrelas (onde Mark Waid e Leinil Francis Yu reformularam a origem do Superman para o novo século), A Foice e o Martelo (na qual Mark Millar e Dave Johnson imaginaram uma Terra paralela onde o foguete trazendo Kal-El para Terra caiu na antiga União Soviética) e Grandes Astros Superman (com Grant Morrison e Frank Quitely criando a “versão definitiva” do personagem amarrando diversas idéias, conceitos e personagens de todas as décadas de existência do herói). Portanto, no final, quase todos, com exceção de Peyer, acabaram realizando parte do que tinham em mente.

Morrison finalmente ganhou a oportunidade de fazer algo mais próximo daquilo que tinha em mente em 2000 com Os Novos 52, e não a desperdiçou. Mas, passada mais de uma década desde aquela fatídica recusa da DC, algumas idéias do autor mudaram,  enquanto outras ele implementou em seu trabalho anterior com o personagem. O que fazer então? Para um autor que há mais de meia década vem escrevendo uma fase do Batman que usa referências de toda a trajetória do herói nos quadrinhos (leia sobre ela aqui), desde sua criação até os dias atuais (algumas delas muito obscuras), a resposta pareceu bem simples: fazer algo semelhante com o Superman, mas adequando-se ao seu nível de poder e importância na história dos quadrinhos de super-heróis.

O resultado disto é o que analisarei nesta série semanal de matérias que focará nos vários aspectos da mitologia do Superman que Grant Morrison reimaginou para o novo Universo DC.

Começarei pelo básico: o protagonista.

O Super-Herói e O Repórter

SUPERMAN

Action-Comics

Visual

O que de cara chama a atenção para o Superman reimaginado por Grant Morrison é o visual que ele adotou no início de sua carreira. Para ressaltar o lado “herói dos fracos e oprimidos”, o primeiro “uniforme” usado pelo Superman é composto apenas de uma calça jeans surrada, botas desgastadas de fazendeiro, uma camiseta azul de manga curta com seu símbolo no peito, e sua famosa capa vermelha, que o autor admitiu em suas primeiras entrevistas sobre seu trabalho em Action Comics ser baseado no do cantor e compositor Bruce Springsteen, de quem ele também tomou emprestado seu engajamento em servir de porta-voz dos trabalhadores oprimidos pelas classes mais altas, algo que fica mais evidente na reinterpretação que Grant Morrison fez de Clark Kent (falo dela mais abaixo).

A capa vermelha com o “S” é uma relíquia de família que um dia foi do avô de Kal-El em Krypton. Fica subentendido que ela fazia parte de um rito de passagem em que o pai vestia o filho com sua capa para indicar sua chegada à maturidade. Jor-El a oferece para que seja usada como manta para Lara cobrir Kal-El antes de deitá-lo na Cápsula de Fuga onde viajou de Krypton para a Terra. Quando Superman é mantido prisioneiro de um laboratório do governo que testa os limites de seus poderes (Action Comics #2), a resistência da capa também é posta à prova, e ela se revela tão impenetrável quanto sua pele.

Outro detalhe curioso do primeiro uniforme do Superman é a variação das cores de suas camisetas. Nas primeiras edições elas alternam entre azuis e brancas, ambas cores que remetem diretamente ao céu, e funcionam como símbolos de seu mais conhecido poder. Em Action Comics #11 é revelado que Clark encomendou dezenas de camisetas de uma pequena confecção, e que as cores variam porque não havia a quantidade que ele queria de uma só cor.

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Mesmo depois de ganhar o traje/armadura kryptoniano(a) em Action Comics #7, o Superman continuou usando seu uniforme mais “modesto” por algum tempo. Em Action Comics #10 ele usa uma camiseta vermelha para dar uma lição num pedófilo assassino, criando uma clara representação visual da fúria que o domina quando parte pra cima do criminoso. Assim, seu visual mais “terráqueo” continuou sendo usado por um tempo quando ele cuidava de crimes mais “mundanos”, deixando sua armadura alienígena para ameaças mais poderosas. Um belo toque de caracterização de Grant Morrison.

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E já que mencionei o traje kriptoniano, falemos de alguns detalhes a seu respeito. Pra começar ele se adapta ao gosto de seu usuário. Em Action Comics #8 o traje muda de cor e de forma enquanto o Superman fica desorientado após levar um golpe do Colecionador de Mundos (dando a entender que a peça estabelece algum contato telepático/neural com o usuário). Além disto, ele tem uma resistência maior que a de uma roupa comum, funcionando como armadura até certo ponto. E, talvez uma de suas características mais úteis, ela é retrátil! Sim, a armadura recolhe-se para o peito de Clark Kent, e cresce a partir dele, cobrindo seu corpo, quando é necessário que ele se “transforme” no Superman.

Personalidade

superman_personalityUma das características imaginadas por Grant Morrison para aumentar o apelo do Superman foi retratá-lo como arrogante, um tanto inconsequente, cheio de autoconfiança e um bocado orgulhoso de ser como é em suas primeiras atuações, ou seja, o que se espera de um jovem com grandes poderes, que acha que pode mudar o mundo com eles sem dar satisfações a ninguém.

Após sua batalha contra o Colecionador de Mundos (Action Comics #3, 4, 7 e 8), e contra Darkseid e seus Parademônios ao lado da Liga da Justiça (Justice League #1 a 6), o Superman começa a agir com mais seriedade, e a considerar o quanto o efeito de sua presença no mundo pode ser maior do que ele supunha. Talvez um dos capítulos que melhor representam esta preocupação do herói ocorra em Action Comics #10, onde ele começa a questionar a Liga sobre até que ponto a equipe pode interferir nos problemas do mundo. É uma discussão válida e pertinente, e também um reflexo de uma era dos quadrinhos de super-heróis – que Morrison chama de Era das Trevas em seu livro Superdeuses, publicado aqui no Brasil ano passado pela Seoman – representada por grupos como o Authority (sutilmente referenciado pelo Batman durante a conversa) e os Supremos, que mostraram que os super-heróis podem ser mais pró-ativos se desejarem, mas que também devem estar preparados para lidar com as consequências de serem “um bando de armas vivas autoritárias da América.” O debate termina com o Superman insatisfeito com a aparente falta de empenho de seus companheiros em fazer algo mais efetivo contra os grandes problemas do mundo. Assim que ele sai de cena o Batman expressa sua preocupação em ter que um dia reunir a Liga da Justiça para lidar com um possível Superman disposto a mudar o mundo na base da força (um cenário que já foi imaginado em diversas histórias da Liga da Justiça, sendo a mais recente delas a do jogo Injustice – Gods Among Us, que ganhou uma série em quadrinhos que serve de prelúdio para ele, e vem fazendo sucesso entre os leitores).

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Poderes

Outra idéia usada por Morrison para trazer o Superman para mais perto do leitor foi diminuir o nível de seus poderes. Eles vão crescendo aos poucos no decorrer da série.

Na primeira edição ele faz um esforço tremendo para conseguir parar um trem descontrolado, e no final da história fica inconsciente quando é acertado pelo veículo.

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Ele não é invulnerável nas primeiras edições, tanto que é afetado por eletricidade em alta voltagem, quando é posto em uma cadeira elétrica em Action Comics #2 e tem sua resistência testada por cientistas do governo. Os testes revelam que apesar de ser possível feri-lo, seu corpo cura aceleradamente.

Outro poder usado pelo Superman no início de sua carreira é a “visão de zoom”, também conhecida como visão telescópica. Em Action Comics #7 ele usa esta versão natural do Olho de Thundera para localizar a nave do Colecionador de Mundos no espaço sideral. Na mesma edição ele utiliza outro de seus super poderes, a supervelocidade, para impulsionar o salto que o lança para fora da órbita da Terra – referência a um dos primeiros super-poderes do herói em suas primeiras aparições nos quadrinhos, quando ele ainda não voava, mas dava grandes saltos que o permitiam passar por cima de um arranha-céu.

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A visão de calor, claro, não poderia faltar, mas Morrison a rebatizou de “visão de microondas”, a fim de reforçar a idéia de que todas as visões especiais do Superman funcionam emitindo algum tipo de radiação, ou captando fótons com super-eficiência e precisão (no caso a visão de zoom, que pode ser vista como um efeito colateral da alta capacidade de seu corpo absorver radiação solar).

Alguns dos poderes mais inusitados do herói aparecem em Action Comics #12. O primeiro deles é a supercognição. Ele usa sua supervelocidade para ler uma enciclopédia de livros de medicina – o correspondente a uma faculdade com especialização em cirurgia – para salvar a vida de Lois Lane, quando os médicos se mostram incapazes de realizar a cirurgia a tempo. Em menos de cinco minutos o Superman usa sua visão de raios-x para localizar fragmentos de metal nos órgãos internos; suas unhas tão cortantes quanto diamantes para abrir o abdômen da repórter; e sua visão de calor para vaporizar os estilhaços e cauterizar os cortes. Toda a sequência é uma variante mais elaborada da clássica cena de Superman – O Filme, na qual o herói usa seu poder de vôo e supervelocidade para fazer o mundo girar ao contrário e “rebobinar” o tempo, a fim de reverter a morte de Lois Lane.

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Na mesma Action Comics #12 outro superpoder é revelado: o Superman consegue ler com seus olhos um pendrive que o Batman lhe entrega!

E como o Homem de Aço tem as manhas de aprender a fazer uma cirurgia delicada em questão de segundos, é claro que ele também possui uma super-memória. Isto é confirmado em Action Comics #13, quando o herói revela que têm acesso a lembranças de quando era bebê em Krypton. Curiosamente essas memórias são descritas como se fossem feitas de “cores primárias […] brilhantes como crayon”, revelando de que forma um bebê kryptoniano grava suas lembranças no cérebro (além de ser uma referência à paleta limitada de cores usadas nas primeiras histórias em quadrinhos de super-heróis, incluindo, claro, as que compõem o uniforme clássico do Superman).

Por fim temos a superaudição, usada com maior evidência em Action Comics #14, quando o Superman consegue ouvir da Terra o pedido de socorro de um grupo de cientistas que está em Marte! Santa Superaudição Batman!

Atuação

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Antes de combater vilões superpoderosos, o Superman enfrentava industriais inescrupulosos e corruptos, forçando-os a confessar seus crimes fazendo justiça com as próprias mãos; demolições ilegais contra bairros pobres ainda habitados; neo-nazistas; mulheres vítimas de violência doméstica (numa referência a Action Comics #1 de 1939, republicada recentemente pela Panini na Coleção DC 75 Anos – Volume 1). Em suma, era um defensor dos fracos e oprimidos.

No início de sua carreira heróica ele fazia questão de andar entre os mortais, indo contra a imagem que se formou de um herói tão poderoso a ponto de posicionar-se, literal e figurativamente, acima das pessoas que ajudava. Trazendo-o novamente para o chão, Grant Morrison aumentou as chances do Superman conquistar mais da simpatia dos leitores.

Porém, apesar deste empenho para defender os mais fracos, sua determinação para fazer justiça era tamanha que muitas vezes ele se considerava acima das leis da Terra em seus primeiros dias como Superman, fazendo com que a polícia o encarasse como um justiceiro. Tanto é que boa parte da 1ª edição de Action Comics ele passa se desvincilhando da polícia de Metrópolis, enquanto procura salvar pessoas.

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Todo este engajamento para ajudar o homem comum a defender-se daqueles que se consideram superiores, por serem mais favorecidos e poderosos, faz referência às histórias da década de 1930 da dupla Jerry Siegel e Joe Shuster, criadores do personagem. Em Action Comics #1 temos gangsteres, trens de alta velocidade e bolas de demolição, todas ameaças enfrentadas pelo herói em suas primeiras aventuras há mais de 75 anos atrás, enquanto na edição 2 o Superman é preso em uma cadeira elétrica cujo design remete diretamente às cadeiras elétricas daquela época. Morrison usou especialmente as três primeiras edições do título para criar uma versão supercomprimida da Era de Ouro do Superman (que durou até meados da década de 1950).

CLARK KENT

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Visual

Com a ajuda de Rags Morales, Grant Morrison tomou o cuidado de diferenciar o máximo possível o Superman de Clark Kent, tanto na postura como no visual. Clark agora é um típico geek, não apenas dependendo dos óculos para disfarçar-se, mas também da maneira como deixa o cabelo desarrumado, e das roupas estrategicamente maiores que o ideal para seu físico, a fim de esconder seus músculos e porte atlético. Morales ainda usa o efeito de distorção das lentes dos óculos para mexer no tamanho dos olhos, além de desenhar Clark em alguns quadros com a boca meio aberta, e o maxilar “solto”, ao invés de tenso e imponente como em sua persona super-heróica.

Atuação

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A fim de fortalecer o alter ego do Superman, Morrison transformou Clark Kent em mais do que apenas seu disfarce, ele agora é um repórter incisivo e empenhado a expôr a corrupção e os problemas sociais de Metrópolis, sempre visando ajudar as pessoas através da repercussão de suas reportagens. Ao mesmo tempo o autor salientou quão envolvido ele quer estar com o drama daqueles que procura retratar em seus trabalhos como jornalista. Por isto Clark vive de aluguel nos subúrbios de Metrópolis, entre os menos favorecidos, e não hesita em andar pelos lugares menos “afamados” da cidade para captar mais diretamente e transmitir ao leitor do Estrela Diária a realidade nua e crua das ruas. É um trabalho de denúncia e conscientização o que ele faz através das reportagens que escreve.

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Devido a esta postura desafiadora, Clark logo se destaca no meio jornalístico, mexendo com gente poderosa, em especial Glen Glenmorgan, dono da Comunicações Galáxia e, por tabela, do Planeta Diário, para o qual Clark inicialmente não aceita trabalhar, pois seria como render-se e aceitar ser controlado por seu maior inimigo.

A história de apoio no final de Action Comics #10, escrita por Sholly Fisch, é um belo e bem sucedido complemento para esta versão do personagem elaborada por Morrison. Nela, após Clark ser dado como morto num atentado a bomba ao Estrela Diária (falo dele mais abaixo), vários repórteres de Metrópolis que conheceram Clark se reúnem num bar para dividirem entre si pequenas histórias sobre suas relações com ele. A primeira é de Jimmy Olsen, que após o reboot da DC tornou-se o melhor amigo de Clark. Ele conta sobre a vez que Clark o salvou de ser atropelado após escorregar na sarjeta pouco antes de um veículo passar. Esta cena é referência clara àquela vista em Grandes Astros Superman #1, quando Clark impede que um homem seja morto por um pedaço de metal que cai de uma marquise, simulando um tropeço.

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Conforme outros repórteres vão contando suas histórias, descobrimos que Clark se preocupa em escrever suas reportagens de uma forma que o leitor entenda profundamente o drama humano que está relatando através de seus textos. Lois Lane chega a dizer que Clark conhecia os sem-teto de Metrópolis pelo nome, indicando que ele realmente envolvia-se com os personagens de suas reportagens para o Estrela Diária. Além disto, é dito que Clark era um repórter que, diante de uma tragédia, se preocupava primeiro em ajudar as pessoas, para depois colher os fatos que relataria em suas reportagens. Através deste exemplo, Clark compelia seus colegas a se tornarem pessoas melhores, por fazê-los sentir que era a coisa certa a fazer. Dessa forma, Sholly Fisch enriqueceu a visão de Grant Morrison, tornando Clark um personagem tão respeitável e admirável quanto o Superman, completando o quadro de um ser humano perfeito, um modelo a ser seguido.

Uma curiosidade: Nas primeiras histórias do Superman na década de 1930, Clark Kent trabalhava para o Estrela Diária, que mais tarde foi rebatizado de Planeta Diário. Neste reboot, mais uma vez mostrando que adora misturar referências, Grant Morrison transformou-os em dois jornais distintos e rivais, aumentando, com isto, a rivalidade inicial entre Clark e Lois. O nome do Estrela Diária (Daily Star, no original) pode ser interpretado como uma referência ao Sol, fonte dos poderes do Superman, assim como o Planeta Diário pode ser uma referência tanto a Krypton, seu mundo natal, como à Terra, o mundo que o adotou (além disto, no futuro, o jornal o “adotará” como repórter). Fecha o trio de referências à origem alienígena do herói a Galáxia Comunicações (Galaxy Communications, no original), o conglomerado de mídias do qual o Planeta Diário faz parte.

A “morte” de Clark Kent

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Em Action Comics #10 Clark é dado como “morto” durante um atentado a bomba ao Estrela Diária. Por isto ele se vê forçado a criar uma nova identidade na edição seguinte: Johnny Clark, o bombeiro. Este novo disfarce é elaborado de modo a facilitar sua vida. Diferente de sua vida como repórter, atuando como bombeiro ele pode exibir seu físico, e ajudar as pessoas em tempo integral, tanto em seu trabalho “humano” como usando sua persona super-heróica, sem problemas, ao contrário do que ocorria quando era Clark Kent.

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Numa conversa com o Batman na mesma edição em que Johnny Clark é introduzido, o Superman explica os motivos por ter “matado” Clark Kent e criado este novo disfarce: sua identidade estava comprometida após o Batman ter conseguido descobri-la, e o assassino Nimrod ter ficado muito próximo de desvendá-la (mais detalhes sobre isto na parte 3 desta série de matérias). Além disto, para o herói, Clark Kent estava tomando cada vez mais do seu tempo, quando ele sentia que devia estar ajudando mais pessoas atuando como Superman. Curiosamente ele também reconhece na conversa quão grande foi o salto literal e figurativo que deu após seu conflito contra o Colecionador de Mundos: de um alienígena com superpoderes tentando resolver os problemas de sua cidade, enquanto vive num apartamento de subúrbio, a um superser capaz de viajar para o espaço num pulo, e proprietário de uma estação/fortaleza/museu espacial que guarda resquícios de 204 civilizações alienígenas extintas (mais sobre tudo isto nas próximas partes desta matéria). Como o próprio Batman observa, “isto é muita responsabilidade” para uma só pessoa. É quase como se o herói percebesse intuitivamente a compressão que Grant Morrison fez de sua trajetória nos quadrinhos, desde sua criação em 1938 até o reboot da DC de 2011, e ficasse atordoado com tudo isto acontecendo tão rápido e em tão pouco tempo.

Voltando a Johnny Clark, sua existência levanta a questão de quão bom é este outro disfarce do Superman. Quando visita seu antigo chefe, George Taylor, editor do Estrela Diária, que está hospitalizado, Johnny se apresenta a ele como o bombeiro que o salvou da bomba que explodiu próximo ao seu jornal e “matou” Clark. A diferença entre o Superman e Clark – da forma como foi imaginada por Morrison e Morales – é até plausível, enquanto a única diferença entre o Superman e Johnny Clark é um gorro e um macacão.

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Independente da eficiência deste novo disfarce, a fase de Johnny Clark dura somente duas edições, quando ele é “morto” durante o conflito entre o Superman e o Capitão Cometa em Action Comics #12, e a “morte” de Clark Kent é apagada da memória de todos que souberam dela graças aos poderes da Sra. Nixly (de quem falarei na parte 4  desta série de matérias).

Semana que vem: Krypton, kryptonianos e kryptonices.

11 thoughts on “[QUADRINHOS] O Superman de Grant Morrison – Parte 1: O Homem e O Super-Homem

  1. Olá, primeiramente parabéns pelo texto, só não entendo uma coisa, se essa série é para contar os primeiros anos do Superman, como a Liga da Justiça pode aparecer em Action e Comics 10? Essa hq não deveria ser antes da criação da liga? ou é que nem as hqs do batman, que são paralelas?

    • Matheus, a história de Action Comics #10 se passa 5 anos atrás, na mesma época que a Liga da Justiça formou-se para enfrentar Darkseid no Universo DC pós reboot. Ela ocorre no que calculo ser algumas semanas ou meses depois do primeiro arco da Liga. Portanto, conta como história dos primeiros anos do Super.

      Apenas a partir da edição 14 é que o Morrison começa a alternar entre o passado e o presente, por razões que ficarão mais claras nas próximas partes dessa minha série de matérias sobre o trabalho do autor em Action Comics.

      Respondi sua dúvida?

  2. Mas que belo texto! Nunca gostei do superman, mas redescobri o personagem através do Morrison em All Star e gostei bastante.

    • Obrigado, Nash! Bom saber que gostou. 🙂

      O Morrison fez mesmo um ótimo trabalho de revitalização do personagem. Pena que durou tão pouco.

  3. Excelente texto! Acabei de finalizar a leitura das 18 (mais a 0) edições do Morrison em Action Comics e encontrei seu belo texto esclarecedor. A fase completa é um tanto complicada e ingerível pra alguns leitores, mas eu gostei muito. Espero elucidar melhor a história com seus textos.

    • Que bom que meus textos estão te ajudando, Eduardo.

      Morrison é meu autor de quadrinhos preferido, mas também é um cujos trabalhos mais merecem releituras para que sejam completamente apreciados.

      Sempre que possível gosto de escrever sobre a obra dele.

  4. Faço minhas as palavras do Eduardo. Seus textos foram essenciais pra entender tanta história, com tantas idas e vindas no tempo, dimensões e coisas do tipo! Fantástico trabalho! Parabéns!

  5. Pingback: A Evolução Visual de Batman, Superman e Mulher Maravilha | ╠ GeekTrooper ╣

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