[QUADRINHOS] O Quinto Beatle: quando o sonho começou

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Brian Epstein viveu pouco, 32 anos, os quais aproveitou fervorosamente perseguindo um sonho de quatro “meninos” de Liverpool, sonho que terminou por tornar-se mais dele do que daqueles jovens músicos, que em pouco tempo ficaram conhecidos no mundo inteiro. Mas esta não é a história deles, esta é a história de Brian Epstein, O Quinto Beatle.

Herdeiro de uma bem sucedida loja de discos de Liverpool, Brian tinha em suas mãos os meios para ter uma vida tranquila. Só tinha um problema: Brian era homossexual, e viveu numa época em que ser gay era tratado não apenas como uma doença que podia ser “curada” com o uso de medicamentos, mas também como um crime na Inglaterra. Tal fato é apresentado pela graphic novel de forma bem discreta já na sequência inicial, e tratado mais detalhadamente ao longo da trama.

Um dos recursos narrativos usados pela dupla criativa é a metáfora da tourada, já sugerida na capa da graphic novel, que percorre toda a sua história, virando uma analogia usada pelo próprio Brian para descrever sua “confiançestratégia” (termo cunhado por John Lennon no início da história) e sua crença no sucesso de sua empreitada em fazer dos Beatles um sucesso sem precedentes.

E já que os mencionei, o primeiro contato de Brian com os Beatles merece um parágrafo só dele. A sequência é intercalada com trechos da dramatização de uma tourada de Manuel Benítez Pérez, um famoso “matador” espanhol conhecido como El Cordobés – admirado por Brian – , que antecipa e metaforiza toda a batalha que ele enfrentará para fazer da banda um sucesso mundial. É preciso, neste ponto, fazer o primeiro dos muitos elogios que a arte de Andrew Robinson merece. Neste trecho em especial o artista soube captar com muita sensibilidade o deslumbramento no rosto de Brian em seu primeiro contato com o som da banda. Há algo de sutilmente religioso em sua expressão, que pode ser interpretado como um momento de iluminação.

Aliás, Robinson merece elogios por várias diagramações inventivas usadas ao longo da história. Um outro ótimo exemplo é o encontrado nas páginas 102 e 103, em que o artista inverte o arranjo tradicional dos quadrinhos, transformando-os em balões de falas, e jogando estas pra fora da arte. É como se ele dissesse, discretamente, que na TV o que valorizam mais é a imagem em detrimento do conteúdo.

Também se destaca, desta vez no texto de Vivek J. Tiwary, o belo discurso que Brian faz na página 18, comparando os Beatles a “astros celestes”, e confessando a identificação que sentiu com eles, ao enxergar em suas posturas um tédio velado proveniente da inquietude e do desespero de evoluírem, semelhante ao que ele sentia.

Tiwary e Robinsson salientam esta inquietação de Brian em vários momentos, quando retratam sua solidão. Um bom exemplo é o episódio que ocorre na festa de comemoração do primeiro hit dos Beatles a chegar no topo das paradas musicais. Mesmo estando num ambiente suntuoso e lotado de amigos e conhecidos, Brian sente-se tão sozinho como um toureiro – que mesmo tendo seus atos de coragem testemunhados por milhares de pessoas, trava uma luta cuja vitória depende apenas dele.

É cativante acompanhar os esforços de Brian para cuidar dos “garotos” que adotou. Ele acaba virando uma figura paterna deles, especialmente de John, por quem ele parecia nutrir um sentimento mais forte, ao ponto de ajudá-lo quando sua namorada fica grávida.

Conforme o sucesso dos Beatles aumenta, mais os rapazes celebram suas vidas, ao passo que Brian protela sua celebração, tornando-se mais solitário. A sequência das páginas 92 a 96 retratam isto muito bem, alternando cenas dos Beatles se divertindo e tendo momentos românticos com garotas, com trechos de uma conversa telefônica de Brian com seus pais, enquanto ele permanece deitado só numa cama de hotel, num quarto enorme e vazio, onde seus remédios estão espalhados numa escrivaninha.

Mas ao contrário da solidão que sentia, Brian não enfrentou tudo sozinho. Chama atenção o fato de ele ter recebido apoio incondicional de seus pais em sua iniciativa de abraçar um sonho que soava quase impossível, mas que contagiava aqueles que o ouviam falar dele. Chega a ser comovente a maneira carinhosa com que Maxie e Nat tratam Brian, abraçando seu sonho até mais do que os Beatles, e preocupando-se com seu bem-estar mais do que ele próprio.

Só que nada disto teria o mesmo efeito sobre o leitor se tais fatos não fossem contrastados com o que Brian viveu para levá-lo à sua incansável perseguição de um sonho no qual poucos acreditavam inicialmente, e Tiwary sabia disto. Caso contrário, não existiria a sequência das páginas 28 a 31. Nelas acompanhamos um entrelaçar de cenas de descrédito e preconceito sofridos por Brian antes de “adotar” os “Garotos de Liverpool”, algo digno de figurar na adaptação cinematográfica da graphic novel (que já em pré-produção). É brilhante a naturalidade como a equipe criativa vai cativando o leitor com a evolução edificante de Brian, que torna toda a HQ inspiradora sem soar otimista e idealista demais.

Havia um grande vazio na vida de Brian, que ele incansavelmente tentou preencher buscando uma realização cada vez maior através de seus “meninos.” Em constante negação de sua verdadeira identidade e sexualidade, ele procurou suprimi-las com medicamentos nos quais viciou-se, enquanto viciava-se em seu trabalho, usando-o como forma de expressar-se por intermédio do sucesso de seus “filhos.”

Para Brian, o mundo inteiro foi um imenso templo em forma de palco, que devia ser devotado aos Beatles, e a isto ele dedicou sua vida, algo que é expresso por ele em dado momento da graphic novel (“[…] eu acredito que todos devemos estar identificados com a grande causa de nos divertirmos, todos nós.” – página 106).  John Lennon pode ter causado polêmica ao dizer que os Beatles eram mais populares que Jesus, mas para Brian, eles não só eram, como representavam o mais próximo que ele teve de uma religião, da qual era o missionário e pregador.

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No Brasil, O Quinto Beatle foi publicada pela Editora Aleph, que reservou à graphic novel um trabalho editorial de primeira. Além do formato maior (31 x 21cm), e das páginas serem de papel couché fosco, que não só valoriza a bela arte de Andrew Robinson, como aumenta a resistência do livro a danos, a tradução de Delfin foi cuidadosa, e os extras oferecem vários insights sobre a produção da HQ, e a proporção do trabalho realizado (foram 4 anos entre o início do projeto e sua publicação). Por tudo isto, o preço pelo qual está sendo vendida é muito justo.

Importante dizer também que você não precisa ser fã dos Beatles, ou ser profundo entendedor da história da banda para apreciar a graphic novel. Ela é um produto que funciona independente de conhecimentos prévios sobre os fatos narrados e os personagens retratados.

Assista abaixo o book trailer da graphic novel:

o-quinto-beatle-editora-alephO Quinto Beatle – A História de Brian Epstein

Vivek J. Tiwary(Roteiros) e Andrew C. Robinson e Kyle Baker (Arte)
Formato: 21 x 31 cm
168 páginas
Editora Aleph
Data de lançamento: Abril de 2014
Preço:R$ 59,90

Onde comprar: Amazon | Saraiva | Submarino

Nota: 10