[QUADRINHOS] O Pequeno Príncipe (resenha)

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O Pequeno Príncipe é um livro tão conhecido, que acredito ser desnecessário introduzi-lo. Em 2008, a obra-prima de Antoine de Saint-Exupéry foi adaptada para os quadrinhos por Joann Sfar, e lançada no Brasil em novembro do mesmo ano pela Editora Agir. É desta adaptação que falarei abaixo.

O AVIADOR: Lá onde eu moro, quando digo “vi uma casa de seiscentos mil reais!'”, respondem-me: “Que beleza!”
Mas se descrevo a casa, com seus tijolos cor-de-rosa, seus gerânios na janela e suas pombas no telhado, ninguém se importa.

O PEQUENO PRÍNCIPE: Por quê?

O AVIADOR: Porque acredito que eu seja uma pessoa grande.

O PEQUENO PRÍNCIPE: Ora! Isso não é culpa tua.

o-pequeno-principe-em-quadrinhos-o-aviador-e-o-menino-2Quem conhece a obra original, sabe que Exupéry soube trabalhar com simplicidade e sensibilidade temas como amizade, amor, saudade, e falar das virtudes e falhas humanas, num texto cheio de poesia, belas metáforas visuais e filosofia disfarçadas de literatura infanto-juvenil. Mesmo mantendo-se muito fiel ao texto de Exupéry, Joann Sfar procurou dar maior expressividade aos personagens e aos ambientes em sua adaptação. Por exemplo, a cabeça e os olhos grandes do Pequeno Príncipe, além de darem a ele um aspecto meio “alienígena” – o que faz sentido no contexto da trama – se mostram essenciais para transmitir ao leitor suas emoções. Lendo a HQ chegamos ao ponto de nos compadecermos dele quando chora, e nos alegrarmos quando ele se diverte ao lado do Aviador.

o-pequeno-principe-em-quadrinhos-o-menino-e-sua-risada-malignaJoann também soube lidar muito bem em seus desenhos com as reações repentinas e um tanto bizarras do Pequeno Príncipe, como a risada meio maligna que ele dá quando o Aviador lhe diz que caiu do céu, e seus repentes de alegria, euforia e raiva, sutilmente sugerindo que tais oscilações de humor se devem ao fato do menino ter vivido a maior parte de sua vida sozinho e, por isto, ter pouco tato social, e um comportamento psicológico meio “desregulado.”

Outro ponto que Joan soube trabalhar com sensibilidade foi a relação paternal do Aviador com o Pequeno Príncipe, que é simbolicamente tanto um filho do primeiro – algo que o artista sugere por ter baseado a aparência do Aviador na de Exupéry – , como uma representação da criança interior do piloto, subtexto que já existia na obra original, e que aqui ganha novas e comoventes nuances transcrita para uma narrativa visual.

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o-pequeno-principe-em-quadrinhos-o-menino-e-a-rosaComo ilustrador sensível e intuitivo que é, Joann também usou habilmente as cores. Optando por colorir seus desenhos de maneira chapada, ele destaca pontualmente um quadrinho, ou uma sequência de páginas, dependendo da emoção que quer exprimir. Um bom exemplo disto pode ser encontrado nas duas páginas em que o Pequeno Príncipe começa a apaixonar-se por sua rosa, e o céu ao fundo é tingido de vermelho, funcionando como um reflexo da paixão que a flor desperta no coração do menino, que é completamente envolvido pela presença dela.

o-pequeno-principe-em-quadrinhos-viajando-pelo-universoInteressante observar também como Joann retratou visualmente a viagem do Pequeno Príncipe através do universo. Além de mostrá-lo simplesmente voando de um lugar para o outro, sem auxílio de nenhum veículo (o que é levemente diferente do livro, onde ele pega carona com pássaros migratórios que passavam por seu planeta), o artista também usou esta sequência para fazer uma pequena observação sobre o quanto o ser humano, aos olhos de uma criança, às vezes limita sua imaginação à existência de veículos para ir de um canto ao outro do universo, quando a imaginação pode levar a mente mais longe.

o-pequeno-principe-em-quadrinhos-os-olhos-do-meninoJoann também encontrou uma forma bem simples de retratar o medo que o Pequeno Príncipe tem dos baobás crescerem e tomarem conta de seu mundinho, mostrando isto como um pesadelo, que rende algumas conversas entre ele e o Aviador. Se há antagonistas em toda a trama, estes são os baobás, que personificam o medo da criança crescer e perder sua inocência e a magia com que enxerga o mundo durante a infância. O carneirinho, que no início ele tanto insiste que o Aviador desenhe, seria a forma do Príncipe salvar sua infância, eliminando todas as barreiras que possam distanciá-lo dela, todos os “problemas de gente grande” que ameaçam engolir seu mundinho. Os baobás também são usados como metáforas de pensamentos ruins, de sentimentos e emoções que não devemos alimentar e permitir que cresçam e asfixiem os bons pensamentos e sentimentos. Isto Joann retrata visualmente igualando os baobás a grandes e horripilantes cérebros que esmagam o amedrontado olho do Pequeno Príncipe em seu pesadelo.

o-pequeno-principe-em-quadrinhos-viajando-pelo-universo-2Estão presentes na adaptação em quadrinhos todas as reflexões a respeito da futilidade de algumas convenções sociais e comportamentos humanos, e uma crítica sutil ao materialismo, representadas pelos encontros do Pequeno Príncipe com habitantes solitários de planetoides que representam monarcas, empresários, vaidosos, operários e estudiosos. Tais encontros, sob o aspecto visual, variam entre serem muito fiéis às versões literárias, e reinvenções completas das mesmas, como no caso do encontro do menino com o empresário, que na versão em quadrinhos mora dentro de uma nave, e veste uma roupa de astronauta que não permite ver seu rosto, dando a ele o aspecto de uma máquina de calcular humanoide e alienígena.

“Mas tu és puro e vens de uma estrela. Tenho pena de ti, tão fraco, nesta terra de granito” – a Serpente.

No que diz respeito ao Pequeno Príncipe, além de retratá-lo visualmente mais expressivo que sua versão original, feita no traço do próprio Exupéry, Joann preserva a ambiguidade em torno da natureza do personagem. Há espaço para interpretá-lo de diversas formas: como um alienígena, como um fruto da imaginação do Aviador, como uma representação da criança interior do mesmo, como um anjo que materializou-se na Terra, entre outras. E este é um dos pontos da obra original que a torna até hoje objeto de estudos e reinterpretações, e faz com que cada releitura da mesma gere uma nova interpretação.

Uma Interpretação Possível

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Particularmente gosto da ideia – sugerida por nossa redatora Raquel Pinheiro – de que o Pequeno Príncipe é um espírito tentando em fase de aprendizagem e evolução conforme viaja através de mundos, coisa que ele faz sem usar nenhum veículo espacial, como já dito anteriormente. Além disto, quando na Terra, ele não aparece alimentando-se ou preocupando-se em tomar água (apesar de bebê-la, quando o Aviador lhe oferece um gole). Tanto que há esta passagem:

“Ele não pode avaliar o perigo. […] Nunca tem sede ou fome. Um raio de sol lhe basta…” – o Aviador

Sim, ele tem um corpo na Terra, ou pelo menos uma presença que pode ser sentida e tocada pelo Aviador. Mas o próprio, em dado momento, reflete o seguinte:

“O que eu vejo não passa de uma casca… O mais importante é invisível…” – o Aviador

E há ainda uma cena, próxima ao final, que se passa à noite, quando o menino parece emitir uma luz própria enquanto fala ao Aviador que, quando ele partir, seu mundo será uma estrela no céu, que sempre o fará lembrar-se dele. E, claro, o momento em que o Pequeno Príncipe diz o seguinte ao Aviador:

“Eu parecerei estar morto e isso não será verdade… Tu compreendes. É muito longe. Não posso carregar este corpo. É muito pesado. Mas será como uma velha concha abandonada. Não tem nada de triste…” – o Pequeno Príncipe

Claro que nenhum elemento da obra pode ser interpretado literalmente. Ela toda é uma grande alegoria, cheia de metáforas verbais e visuais, e aberta a diversas interpretações, como já dito acima. Mas há, inegavelmente, um viés espiritualista no texto de Exupéry, conforme salientei nos trechos que citei. Se você, como leitor, aceitará esta interpretação, cabe a ti decidir.

O que realmente importa é ler O Pequeno Príncipe com o coração. Sentir cada palavra, deixar-se cativar pelo menino de cabelos dourados, olhar curioso, apaixonado por sua rosa e seu mundinho distante do nosso, ou talvez à distância de nossas lembranças mais ternas, de um tempo que já se foi, mas que pode sempre ser resgatado, quando abraçamos e incorporamos nossa criança interior, como Exupéry o fez em 1942, quando escreveu sua obra-prima, pouco mais de um ano antes de desaparecer tão misteriosamente quanto o Príncipe com o qual presenteou nosso mundo.

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o-pequeno-principe-em-quadrinhos-joann-sfarO Pequeno Príncipe em Quadrinhos

Desenhos de Joann Sfar (adaptando a obra de Antoine de Saint-Exupéry)
Editora: Agir
Número de páginas: 112
Ano de lançamento: 2008
Encadernação: brochura (capa dura)

Nota: 10