[QUADRINHOS] “O Mundo de Yang” de Orlandeli (resenha)

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Pego sem preparo no turbilhão de energias geradas pelo embate entre a Luz e as Trevas, Yang foi parar num outro mundo onde as leis da física são diferentes, e ele é capaz de manifestar poderes capazes de torná-lo o ponto de equilíbrio entre as forças do Bem e do Mal. Mas ele conseguirá assumir tal papel? Só lendo O Mundo de Yang, de Walmir Orlandeli, pra descobrir a resposta.

Já falei brevemente dessa série de tirinhas do Orlandeli aqui, quando ela ainda saia somente em formato digital. Em outubro ela finalmente foi reunida num álbum impresso, com o correspondente ao seu primeiro ano de publicação. É este encadernado que resenharei hoje.

O Mundo de Yang é, numa primeira leitura, uma aventura leve, bem humorada, de leitura rápida e agradável. Mas engana-se quem pensa que a HQ não passa disto. Desde sua primeira página Orlandeli dá pistas de que está fazendo mais do que meramente contar as peripécias de Yang num universo fantástico enquanto recebe orientações e ensinamentos de uma voz em sua mente (que prefere ser chamada apenas de A Voz – um detalhe que, por si só, já abre possibilidades de interpretações).

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Partindo da premissa do “herói predestinado” – um tema já (exaustivamente) explorado em outras fantasias – Orlandeli brinca com as convenções do gênero. Pra começar, Yang é um pré-adolescente malandro, irônico e sarcástico que, inicialmente, não leva muito a sério o que está acontecendo com ele, e todo aquele papo de energias primordiais do universo, e sua missão de encontrar uma tal de Fenda da Luz pra derrotar as Trevas. Só isto já permite uma dinâmica entre Yang e A Voz (que ele apelida de The Voice) muito divertida de acompanhar, e dá um tom mais leve a uma narrativa que, se fosse levada muito a sério, poderia facilmente descambar para o enfadonho.

Estabelecido esse clima mais descontraído, o primeiro terço do álbum explora um pouco das peculiaridades do mundo onde Yang desperta na primeira página. E é aí que começam a surgir algumas das ideias mais criativas de Orlandeli.

Como primeiro teste de fogo, Yang tem que enfrentar uma “criatura de energia negativa” formada por “sentimentos ruins” cujo perigo só é real “se estiver em bando“. Ah sim! Tal criatura é de uma casta inferior chamada bullys. Sacaram? ;P

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Mas é claro que não fica só nisto. Mais tarde, Yang conhece um palhaço bizarro que se apresenta como Migou (e que também insiste em chamar Yang de “migou”)… num circo abandonado… que logo revela sua natureza monstruosa… e joga Yang numa fossa mental de medo e escuridão… Sim, isto mesmo, o “bicho” é a personificação do Medo, um dos aspectos das Trevas, que no Mundo de Yang estão mais presentes do que a Luz. Ele é o inimigo principal e recorrente desse primeiro arco. Pra não estragar mais surpresas, vou dizer apenas que os combates entre Yang e Migou estão entre as passagens mais criativas e ricas em significados de todo o álbum. É o grande conflito dessa primeira temporada.

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Além de um grande inimigo, Yang também conhece um sábio aliado neste primeiro volume de suas aventuras: um lambari antropomórfico chamado Loh, que assume o papel de mentor e companheiro de aventuras do garoto. A dinâmica entre eles lembra uma mistura de Luke/Yoda com Goku/Mestre Kame. Ou seja, diversão garantida! 🙂

A melhor sacada de Orlandeli foi equilibrar o humor e a ação com lições sobre os fundamentos da filosofia oriental, como poder da mente sobre o corpo, canalização de energia e vontade através de símbolos, harmonização entre forças opostas, equilíbrio mental, evolução moral, entre outros. Essa combinação deu maior profundidade à obra, fazendo dela mais do que mero entretenimento sem conteúdo. Um exemplo:

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E contribui muito para a imersão do leitor no Mundo de Yang a arte de Orlandeli, que oscila entre o simples e o detalhista, sabendo a hora certa de abrir e fechar os planos, ou usar a diagramação pra dar mais dinamismo às cenas de ação (por exemplo, a cena de abertura dessa resenha). E, diferente da versão digital, que tem traços esverdeados, na versão impressa foi usada uma tinta marrom-terra sobre páginas amareladas, que deu a toda a história um aspecto de pergaminhos ilustrados contando uma lenda de tempos longínquos. Outra ótima sacada do autor, que também tomou as decisões editorais, posto que o álbum foi publicado de forma independente.

O Mundo de Yang é um belo trabalho gráfico de leitura cativante, e que deixa o leitor curioso o bastante pra continuar acompanhando a saga de Yang. Enquanto o próximo volume não é publicado, as tirinhas continuarão saindo semanalmente no site oficial da série. Recomendo uma visita para conhecê-la.

E caso vá neste fim de semana à Comic Con Experience, vale dar uma passada na mesa 160 da Artists Alley pra comprar um exemplar direto das mãos do Orlandeli, que estará por lá vendendo este e outros trabalhos dele.


o mundo de yang orlandeli capanota-5Independente

Brochura

19 x 19 cm

68 páginas

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