[QUADRINHOS] O Mundo de Edena: entendendo o universo onírico de Moebius

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Protagonizado pela dupla Atan e Stel, O Mundo de Edena é uma ficção científica transcendental escrita e desenhada por Moebius, composta de 6 volumes cuja constante é a imprevisibilidade. O objetivo deste texto não é resenhar a obra, mas fazer uma análise interpretativa dela. Portanto, há inevitáveis SPOILERS!

“Minha projeção pessoal do herói não é o ser perfeito, mas o ser que se aperfeiçoa.”

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Consertos“, a história curta que abre o volume 1, estabelece as diferenças fundamentais entre a dupla de protagonistas. Enquanto Atan é mais racional, maduro e pragmático, Stel é mais emocional, intuitivo e ingênuo, por vezes comportando-se quase como um menino. São tais características que facilitam sua conexão com máquinas. Seu coração puro é o que o permite consertar o coração do Mestre dos Caminhos. Isto é importante para entendermos porque é o único capaz de penetrar a enigmática Pirâmide de Bola de Bilhar na história seguinte.

O ciclo de Edena começa mesmo em “A Estrela“, a história mais longa do volume 1. Sua trama se assemelha à de 2001 – Uma Odisseia no Espaço: Um artefato alienígena piramidal começa a atrair seres inteligentes para si, inicialmente sem explicações. Isto os leva a enxergá-lo como uma divindade (uma interpretação não totalmente errônea). Assim que chega em Bola de Bilhar com Atan, a pirâmide estabelece uma conexão telepática com Stel, pra quem revela seus objetivos.

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Um detalhe que merece menção é manifestação de sete pontos luminosos alinhados verticalmente durante o primeiro contato entre Stel e o núcleo da Pirâmide. Eles remetem aos sete chacras principais, os centros energéticos do corpo humano, descritos por diversas religiões orientais, como o tantrismo, o hinduísmo e o budismo, e também no esoterismo europeu e no espiritismo kardecista (doutrina surgida na França).

O final de “A Estrela” parece uma reinterpretação de Moebius para a crença do Arrebatamento, que é retratado como uma abdução coletiva dos seres inteligentes reunidos em torno da Pirâmide.

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No volume 2, “Os Jardins de Edena“, como o próprio nome sugere, encontramos uma releitura, em forma de ficção científica e fantasia, do mito de Adão e Eva. Nele acompanhamos Atan e Stel explorando Edena. O mais interessante é a inversão proposta por Moebius, que mostra a dupla descobrindo sua própria sexualidade num processo que parece uma regressão do estado em que se encontram quando chegam no planeta. Logo descobrimos que na verdade é uma reconquista de seus traços naturais, bloqueados por tratamentos hormonais que receberam desde o nascimento, a fim de despersonalizá-los e torná-los quase “autômatos biológicos”, cuja saúde é regulada por medicamentos e bioimplantes.

Atan e Stel são de uma sociedade 4000 anos à frente do nosso tempo, que condicionou-se a “purificar” e sintetizar tudo que consome. Graças à maleabilidade e curiosidade de Stel, a dupla acaba descondicionando seus hábitos a fim de sobreviverem em Edena. Isto age como uma “desintoxicação” de seus organismos, quando substituem sua dieta de alimentos sintéticos pelo consumo de orgânicos.

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Um detalhe que pode passar em branco numa primeira leitura do volume 2 são as cores das roupas de Atan e Stel: elas são opostas e complementares, já indicando, antes da revelação, que eles são de sexos diferentes.

Importante também notar como o traço e os enquadramentos de Moebius vão se diferenciando entre o volume 1 e o 2. No 1º os personagens têm características pouco definidas, e mal se sobressaem dos cenários amplos, que parecem apequená-los ainda mais. No 2º, Moebius investe em mais closes, que dão mais individualidade e personalidade a eles, conforme seus corpos se modificam pela restauração de seus traços sexuais. Uma primeira leitura pode atribuir essa diferença à modificação do estilo de Moebius com o passar do tempo, mas também casa com a proposta da história, que o próprio autor salienta no texto complementar do volume 2:

“O projeto deve se modificar em função de minha evolução. […] é preciso que eu mesmo me supere, que trabalhe e cresça.”

É interessante ver o contraste entre a paranoia deles (especialmente de Atan) com o risco de contraírem doenças se alimentando de qualquer coisa de origem orgânica. Eles resistem às maravilhas do paraíso, tentando preservar a assepsia de seus corpos, que é mantida por bioimplantes que os protegem de doenças (deduz-se que sejam nanorobôs), e hormônios inibidores de traços sexuais e de desejos de reprodução sexuada.

A separação de Atan(a) e Stel. Quando Eva e Adão viram Caim e Abel.

A separação de Atan(a) e Stel. Quando Eva e Adão viram Caim e Abel.

O que podemos deduzir do que Moebius vai desenvolvendo ao longo dos volumes, é que a ida de Atana e Stel para Edena abriu-lhes a percepção para uma realidade que antes era inacessível pra eles: o universo onírico. Este pode tanto proporcionar revelações importantes para que se desenvolvam individual e espiritualmente, como também levá-los a enfrentar emanações “maléficas” do Inconsciente, como parece ser o caso da Paterna (já falo sobre ela). Dessa conexão com o onírico também nascem seus impulsos sexuais, que acabam provocando sua separação (imagem acima), que até pode ser interpretada como uma primeira influência da Paterna sobre eles (mais sobre ela logo abaixo).

Não demora até que se arrependam e desejem um reencontro, quando se dão conta do erro que cometeram. Mas, para isto, terão enfrentar diversos percalços criados pela Paterna, a grande adversária de Atana e Stel, profetizados como os salvadores de Edena.

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Os pif-pafs, que aparecem no volume 3, “A Deusa“, são uma extrapolação do determinismo científico da sociedade de onde Atan e Stel vieram, pois são fruto de clonagem e, por não possuírem bioimplantes, isolaram-se do mundo em trajes que escondem todos os seus órgãos a fim de se protegem de impurezas e preservarem sua impessoalidade e homogeneidade servil.

Aliás, repare como as máscaras dos pif-pafs remetem a cápsulas de remédios, sendo um reflexo físico de sua hipocondria coletiva. Stel reforça essa ideia no volume 4, ao definir a tecnologia deles como “uma imitação integralista e neurótica dos gadgets do Império” (possivelmente se referindo a um Império Galáctico formado por colônias humanas em outros planetas). Já Burg, o misterioso conselheiro de Stel, descreve a Cidade-Ninho onde vivem como uma sociedade “[andando] em círculos no matricianismo mais decadente“, por sua insistência em estruturá-la a partir de uma cepa genética ancestral; e chama sua divindade, a Paterna, de “Sombra do Sonho” (no volume 2, momentos antes de Stel enfrentá-lo pela primeira vez após fazer amor com Atana), e a define como uma “entidade entrópica” (no volume 4), o que, por si só, representa um paradoxo, já que é um ser hermafrodita venerado por uma nação de clones obcecados por organização. Outro paradoxo está presente na sugestiva forma fálica das máscaras dos pif-pafs, que mesmo não admitindo a expressão de sua sexualidade, tratam uns aos outros como “senhores”, e chamam de “pais” os sacerdotes responsáveis por monitorar a saúde da Paterna.

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A entrega de Atana à sua verdadeira natureza é o que move seu conflito com a Cidade-Ninho. Vale observar como Moebius consegue oprimir o leitor tanto quanto oprime Atana, ao torná-la prisioneira da sociedade patriarcal extremamente repressora dos pif-pafs, retirando-a das exuberantes florestas de Edena para encarcerá-la na cidade subterrânea e asséptica.

A Cidade-Ninho funciona como um imenso formigueiro humano organizado em castas, para as quais os pif-pafs são designados supostamente desde o nascimento para desempenharem as mesmas funções até a morte. Clones defeituosos são descartados como lixo, e despejados pelo esgoto do Ninho, onde sobrevivem como mendigos, consumindo os restos de seus irmãos “perfeitos”. Tanto eles como alguns dos pif-pafs acreditam na vinda do casal de deuses que os libertarão da condição de párias ou de ignorantes sem livre arbítrio e personalidade. Seus comportamentos por vezes são tão absurdos que soam cômicos:

“Pelo grande ninho, o que é isso?… Água… Água!… Vejam!… Está escorrendo água de seus órgãos!… É absolutamente repugnante!” – Volume 3, A Deusa

[…]

“Que bela situação!… O chefe louco! O mecânico ferido… o radioperador morto… o flybus em pane… sem falar nos monstros que se transformam em balões…” – Volume 4, Stel

No volume 4, “Stel“, fica mais claro que há um embate de entidade antagônicas em Edena, com Burg de um lado e Paterna do outro, como Deus e o Diabo, Luz e Sombra.

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Aliás, é importante observar o comportamento de Burg, que jamais se manifesta com a mesma aparência sempre que entra em contato com Stel. Descobrimos no volume 5, “SRA“, que ele vive num outro plano de existência, de onde se projeta. Ele sempre reconstrói seu invólucro físico, e apenas se materializa quando é estritamente necessário, até mesmo como um animal (o leonídeo que cruza o caminho de Stel duas vezes antes de “reencontrar” Atana no volume 2).

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E o mesmo podemos dizer da Paterna, que desde sua primeira manifestação se mostra um ser de forma indefinida, que se alterna entre diferentes corpos. A única diferença aparente entre Burg e Paterna é que esta depende de hospedeiros depois de sua conexão com o universo onírico ser rompida por Atana no volume 3. Deduz-se que, por ser originária do Inconsciente Coletivo (daí viria seu título de “Sombra do Sonho”), ela o use como porta de acesso para dominar os pif-pafs, que têm pouca personalidade e vontade próprias. Após ser derrotada por Atana, ela fica presa no que podemos deduzir como a Consciência Coletiva do planeta, dependendo de hospedeiros materiais, ou receptáculos temporários que ela cria com o plasma planetário de Edena. Vale reparar que, após perder sua conexão com o universo onírico, sua influência perde o alcance. Com isto, os pif-pafs começam a apresentar comportamentos mais individualistas. Aqueles que Stel encontra no volume 4 são menos submissos, e possuem mais personalidade. Tanto que a Paterna só consegue dominar a mente do chefe deles, que é mais bitolado no regulamento que rege suas ações, tem menos personalidade, e obedece às ordens que recebe cegamente, como a Paterna exige devido à sua vaidade patriarcal.

A Paterna é o correspondente à serpente do Jardim do Éden, que “troca de pele”, indo de um invólucro carnal para outro, como a entidade incorpórea que é.  Essa conexão da Paterna com algo demoníaco é reforçada pela localização das duas Cidades-Ninho: ambas se localizam no subterrâneo, sendo que a segunda fica debaixo de um lago de lava. Além disto, antes de Atana derrotá-la, ela ficava no topo de uma pirâmide vermelha, uma clara oposição à pirâmide azul de Burg, que os levou até Edena. Por isto sua presença é como um “câncer” no corpo idílico do planeta, que ameaça alastrar-se caso seu impulso imperialista não seja contido.

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Burg, com a ajuda de Stel e Atana, luta para vencer Paterna e sua sociedade de zangões sem nome, personalidade e vontade própria. Estão em jogo o livre arbítrio e a expressão da individualidade, da sexualidade e da criatividade:

“A deusa Atana e o deus Stel nos libertarão das prisões da ignorância!”

No fim do volume 3, os próprios pif-pafs reconhecem Atana como sua deusa, que “é só amor, bondade, cura...”, e apontam as falhas da Paterna: “Você não sabe nem nos proteger da Doença!” e “É você que está doente!…

E eles estão perto da verdade, pois, no volume 4, quando Trollopen revela a Stel a possível origem do Ninho, descobrimos que ele foi supostamente criado pela interferência do medo coletivo dos humanos – que chegaram a Edena junto com Atana e Stel – no “campo psicomórfico do plasma planetário”, o mesmo sobre o qual Paterna atua para criar suas emanações físicas, segundo Burg explica a Stel no início da mesma história. Assim, ao mesmo tempo que os humanos selecionados ganharam um paraíso, seu medo criou um inferno onde a maioria deles se aprisionou para se proteger do que desconhecia. Dá pra deduzirmos que este medo também libertou a Paterna do Inconsciente Coletivo, permitindo que ela assumisse o controle de um dos humanos (aquele cujo corpo é usado como cepa genética na 1ª Cidade-Ninho). Ironicamente, a Paterna acusa Burg de ser o carcereiro dos humanos de Edena, embora seja ela que impõe aos pif-pafs sua vontade virótica e imperialista de dominar o planeta, anulando o livre arbítrio da mente de colmeia formada por seus clones-zangões.

“O essencial não é compreender, mas regozijar!” – Burg, O Mundo de Edena, volume 2

Como é ressaltado no texto complementar do volume 1, uma das ideias que Moebius defende através da jornada de seus personagens é a necessidade da humanidade desintoxicar-se de produtos sintéticos, a fim de reconectar-se com a natureza através do consumo de alimentos cultivados organicamente. Em Edena, é isto que permite o afloramento da individualidade e da sexualidade de Atana e Stel. Outra consequência é a conexão mais forte e imersiva que estabelecem com o universo onírico, a fonte da imaginação e da criatividade, que Moebius iguala ao dom divino da criação. Quanto mais imergem no onírico, maior é a ameaça que representam à Paterna.

No fim do volume 3, Atana está com a mente projetada “no dédalo dos universos oníricos de síntese“, segundo Burg. Isto a deixa num plano mais profundo e inalcançável tanto para Burg como para Stel. Uma série de acontecimentos do volume 4 o levam a iniciar uma jornada em busca de Atana no universo onírico, onde explora vários cenários fantásticos. Este é o início do volume 5:

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A sensação de ler o capítulo final da saga de Stel e Atana é a de estar navegando por um oceano de analogias e conceitos que não podem ser totalmente compreendidos. As ideias de Moebius ganham formas mais livres numa realidade mais maleável. Se as cores dos três primeiros volumes são mais chapadas, e as do quarto têm um aspecto mais orgânico e tridimensional, as do quinto, por serem digitais, são mais limpas e mais brilhantes, como se tudo preenchido por elas estivesse ocorrendo numa hiper-realidade.

Em seu clímax, Edena é extremamente poético e significativo, deixando parte de seu desenlace aberto à nossa interpretação. Em busca de seu grande amor, Stel atravessa diferentes planos da realidade, sacrifica-se por Atana, e, mesmo aprisionado na mais mundana das realidades, continua sonhando com sua amada. Assim, através de Stel, Moebius nos fala de um mundo melhor que nos espera, desde que continuemos nossa busca por ele, e não paremos de sonhar e lutar para alcançá-lo, algum dia, em alguma vida…

O volume 6 de Edena, “Os Consertadores“, reúne histórias fechadas, em sua maioria protagonizadas por Atan e Stel. Todas são anteriores aos eventos narrados nos 5 primeiros volumes, e a maior parte delas são “mudas”, com Moebius dando uma verdadeira aula de narrativa visual enquanto nos maravilha com cenários que parecem saídos de um sonho.

A melhor delas, “O Planeta Ainda…“, ganhou uma versão em motion comic que você pode assistir abaixo:

Ela também foi parcialmente adaptada para animação pelo estúdio BUF. Assista abaixo um trecho:


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