[QUADRINHOS] O Homem do Amanhã – Parte 5: Fins Imaginários

Como uma figura idealizada por Jerry Siegel e Joe Shuster, Superman tornou-se parte da nossa cultura duma forma que poderíamos até compará-lo com um mito, uma lenda passada por gerações. Por estar tão presente no nosso imaginário, sua mitologia é deveras rica e possibilita diversas interpretações ao longo de sua história. Nesta penúltima parte do especial, foco em obras que encapsularam a importância de Superman como parte do nosso pensamento popular e essas consequências em seu mundo, onde as mais incríveis situações imaginárias podem surgir com o poder da nossa imaginação. Afinal, a ficção e a fantasia são a verdadeira prova das possibilidades ilimitadas das idealizações da humanidade.

A estrada está quase acabando, se eu fosse você dava uma acelerada para poder alcançar esse ponto com os links abaixo:

Parte 1: Cidadão Kent

Parte 2: O Repórter Idealista

Parte 3: Homem do Povo, Herói da Nação

Parte 4: Deve Existir Um Superman?

Esta é uma história imaginária (que pode nunca ocorrer ou, quem sabe um dia, possa sim) sobre um homem perfeito vindo dos céus e que realizou apenas o bem. Ela conta a história de seu crepúsculo,quando as grandes batalhas já haviam chegado ao fim e os maiores milagres já haviam sido realizados; conta como seus inimigos conspiraram contra ele e do confronto final entre eles; e sobre como ele quebrou seu mais sagrado juramento,e como, finalmente, todas as coisas que ele amava foram tiradas de suas mãos, com exceção de uma. A história termina com uma piscadela e começa com uma pacata cidade do meio-oeste dos EUA, em uma futura tarde de verão típica do meio-oeste, vislumbrando um ponto distante nos céus… mas não: é apenas um pássaro, apenas um avião, Superman morreu dez anos atrás. Está é uma história imaginária. E não são todas?

– Prefácio por Alan Moore

O Que Aconteceu ao Homem de Aço?

Como visto na primeira parte, após o fim de Crise nas Infinitas Terras, a DC decidiu reformular o Superman. Devido a isso, a editora decidiu encerrar os respectivos títulos do personagem: Superman e Action Comics. Julius Schwartz, o editor responsável pelo homem de aço na época, procurou dar um sentido especial a esse fim com uma história que realmente colocasse os pingos nos “is”, queria que essas duas últimas edições fossem a história definitiva sobre o fim do legado de Superman para DC pré-Crise. Primeiramente, procurou  Jerry Siegel, o criador do personagem, pois nada mais justo que dar o poder de fechar a história a quem lhe deu vida. Por imprevistos e problemas legais, Siegel não pode fazê-lo, mesmo que tivesse mostrado grande interesse. Quando já pensava que sua ideia não poderia vingar, num café da manhã, recorreu a ninguém menos que Alan Moore para resolver seu problema. Após desabafar sobre a situação, para sua felicidade e sucesso de seus planos, prontamente o britânico ofereceu-se a escrever essa história à qualquer custo.

“Hã… tudo… ficando… escuro… Olá, Superman. Olá.

Enquanto John Byrne limou boa parte dos elementos da Era de Prata que tornavam a mitologia do Superman algo inconsistente aos seus olhos, Moore logo fez questão de homenagear sua riqueza existente na intitulada “Whatever Happened to the Man of Tomorrow?“, que aqui recebeu o título “O Que Aconteceu ao Homem de Aço”, desperdiçando o significado do “Homem do Amanhã” o qual Moore se refere: o Übermensch que Friedrich Nietzsche descrevera em Assim Falou Zaratustra. Aproveitando as duas edições finais, o barbudo conta sobre os últimos dias do Superman, narrados pela aposentada repórter Lois Elliot, a tão conhecida personagem pelo sobrenome Lane,  que agora está casada com Jordan Elliot, levando uma vida calma, bem diferente de uma década atrás nos seus movimentados dias no jornal Planeta Diário. Entrevistada por um repórter do jornal em que trabalhara para um memorial em homenagem ao super-herói, Lois revela o que levou o homem de aço a abandonar a humanidade.

Se Moore pode ser considerado um desconstrutor de super-heróis graças os seus trabalhos em Miracleman e Watchmen, aqui encapsula tudo que envolvia Superman afim de explorar a iconografias de seu universo. Logo no início da primeira parte da história, acontece um estranho encontro entre Superman e seu clone imperfeito Bizarro, onde o escritor ao aprofundar-se no conflito existencial  do segundo em ser um contraste eterno de seu oponente, já realiza o primeiro momento de muitos outros emblemáticos e tocantes que viriam. O choro no final ainda há o desfecho catártico desse capítulo com o pesaroso choro do Superman diante do destino inevitável que viria a encontrar.


Este destino, nada menos é do que seu fim, causado aparentemente após uma série de ataques realizados por seus maiores inimigos que unem-se num complô para eliminá-lo e todos que estão ligado a sua pessoa. Logo o homem de aço reúne seus ente queridos para defendê-los dessa ameaça, mas como mostra-se ao longo da história, o destino realmente não está jogando a favor para o, antes, invencível Superman, que se vê cada vez mais acuado nessa encruzilhada. Quando a derradeira hora chega para o homem de aço, Moore revela sua grande sacada para justificar a veracidade dos eventos terríveis e porque finalmente o mundo do personagem estava se ruindo. Há uma força maior manipulando todos como fantoches, se divertindo com o medo e sofrimento, esta “força” é nada menos que a mente criativa de sua história. Alguém que não faz parte daquela realidade, mas é capaz de interferir no rumo da vida daquele núcleo de personagens a seu bel prazer, porque para sua imaginação não existem limites. Um verdadeiro escritor do destino. Para derrotá-lo, Superman acaba rompendo o maior de seus juramentos: não matarás. Pelo peso na culpa de ter tirado uma vida, mesmo que de alguém cruel e que não lhe oferecera alternativas, assim resolve desistir de sua sina como Superman, abdicando de seus poderes e da capa vermelha. Brilhantemente, Moore expõe a visão sobre a figura que este personagem possui como uma bússola moral para humanidade, alguém para inspirar-nos a ser melhores. Quando este toma uma ação que considera imoral, então rejeita seu papel no mundo e torna-se humano. Abandonando o fardo de ser superior para poder caminhar entre nós.

Pobre criaturazinha! Onde será que acreditar estar? Talvez brincando feliz como uma criança no sórdido mundinho aborígine e atrasado onde nasceu… ou sendo afagado no colo da sua mãe. Não é lindo? Pensar nele, despreocupado e feliz… para sempre.

– Mongul

Para o Homem Que Tem Tudo…

Ao oferecerem a possibilidade de ilustrar uma edição do homem de aço para Dave Gibbons, com a liberdade dada pela DC, o artista decidiu escolher seu amigo Alan Moore para escrever a história que iria desenhar. O barbudo dessa vez realizou uma história no seguimento do “o que aconteceria se…”, mostrando como seria a vida de Superman caso seu planeta não tivesse sido explodido. Batman e seu ajudante Robin ao lado da Mulher-Maravilha vão até a Fortaleza da Solidão para celebrar o aniversário do kryptoniano,ao chegarem lá se deparam com ele em estado catatônico causada por uma estranha planta alienígena.

O responsável por isso é o vilão Mongul, que se revela aos amigos do Superman e que o fez por vingança. A planta chama-se Clemência Negra e ela é uma parasita, necessita alimentar-se da aura de outros seres vivos num processo de simbiose. Ao se “conectar”a alguma criatura, ela lhe oferece a pior prisão possível, ao ler a mente do hospedeiro, cria uma simulação do mais desejado sonho possível, bem escondido no seu subconsciente, para este não ousar interromper seu processo de alimentação. Então, neste momento, Superman acredita estar em Krypton, sendo conhecido apenas como Kal-El, filho de Jor e Lara, tendo sua vida própria com trabalho, esposa e filhos. Mas logo as complicações nessa realidade mental começam a surgir e seu sonho torna-se um pesadelo.

Seu pai, Jor-El, vê-se amargurado pela vergonha que o erro sobre sua previsão causara na sua carreira e deseja que o planeta volte a ser como antes. Passando por diversas dificuldades, Krypton está longe de ser uma utopia ideal, mas o conservadorismo no discurso de seu pai preocupa Kal. Jor-El faz parte dum partido da Velha Krypton com viéis fascista, oprimindo quem estiver contra, principalmente os militantes opositores a prisão dimensional chamada Zona Fantasma, um exílio dado para os perigosos criminosos do planeta, que é vista como uma forma dos kryptonianos expurgarem os indesejados de sua sociedade. Por outro lado, os militantes respondem com violência, criando uma situação tão instável no planeta quanto há anos atrás quando estava a beira do colapso.

“Queime.”

Mas latente na consciência de Kal-El ainda está a percepção de estar vivendo uma ilusão que desconstrói seus próprios valores e ideais, num momento tocante, Kal desabafa ao seu filho que este era um sonho e rejeita essa realidade. Extremamente furioso, após libertar-se da planta, parte contra Mongul com toda a sua força num confronto icônico por Gibbons ilustrar perfeitamente a ira do herói. Por fim, o vilão acaba também sendo vítima da Clemência Negra, trancado em suas próprias fantasias num desfecho memorável desse filosófico conto de Alan Moore sobre o perigo e as complexidades das idealizações.

(…) Eu descobri uma história melhor; uma criada para não ser detida, indestrutível! A história de uma criança lançada em um foguete para a Terra de um planeta moribundo…

– Zillo Valla

Superman ao Infinito

Durante o evento Crise Final, Lois Lane sofreu uma tentativa de assassinato realizada por Libra, servo do vilão Darkseid, como sinal de fé para sociedade secreta de vilões. Internada, apenas consegue continuar viva por causa de seu marido, o repórter Clark Kent, graças a sua visão de calor, que mantém seu coração batendo através duma massagem realizada por uma visão infravermelha. Em determinado momento, o tempo pára e uma estranha mulher entra no quarto de hospital onde o casal se encontrara, esta oferece uma salvação para sua esposa caso ele lhe ajude a realizar um trabalho como Superman.

Revelando-se como Zillo Valla, ela pertence à raça chamada de monitores, seres que habitam o espaço entre os cinquenta e dois universos existentes na DC. Possuem a função não só de monitorá-los, mas também de garantir que suas próprias continuidades não sejam interferidas por contato entre eles. Como o multiverso corre risco pela influência da crise que Darkseid trouxe a Terra 0 (o universo principal da editora e que nós tão bem conhecemos) e sabendo duma possível conspiração entre os seus semelhantes, Valla resolveu recrutar Superman e suas analogias de outros universos para impedir que todo o multiverso acabe sofrendo uma catástrofe sem precedentes.

Grant Morrison aborda aqui o poder que mitos possuem, a escolha de Superman para isso é bastante óbvia, afinal é o primeiro super-herói, a ideia primordial. Suas analogias de realidades paralelas são reflexos de suas diferentes roupagens e remodelações através de décadas, uma ode à diversidade de sua mitologia. Temos o seu completamente oposto ideológico como o Ultraman, o Superman nazista que é praticamente o Übermensch de Nietzsche (que também se assemelha ao Superman soviético de Mark Millar), um personagem da extinta Fawcett Comics que é o Capitão Marvel e o Capitão Átomo, um Superman conceitualmente poderoso como um deus, que através da sua personalidade Morrison o utiliza para referir-se ao Dr. Manhattan de Watchmen, um ser feito de puro pensamento e energia, capaz de transcender sua consciência através de todo o espaço-tempo contínuo. Ainda há o Limbo, um lugar perdido onde moram os personagens esquecidos pelo tempo, pois o grande mote dessa história é mostrar os malefícios que o público causa à fantasia e a ficção, tanto propositalmente quanto inconscientemente.

Resumindo o multiverso.

Fazendo parte do mesmo discurso que a minissérie principal de Crise Final, Superman ao Infinito é sobre personagens ficcionais lutando contra a imposição do nosso mundo. O vilão aqui é Dax Novu, o primeiro e mais adorado monitor, que acabou sendo contaminado pelo contato com os universos e tornou-se Mandrakk, um “vampiro” que deseja sugar todas as histórias existentes. Banido por seu povo, mesmo no exílio, conseguiu através de um dos seus seguidores um meio de desestabilizar o multiverso para seu retorno. Os monitores são analogias aos escritores e até ao próprio público dos quadrinhos, por serem espectadores que acabam interferindo nas histórias por sua obsessão pela continuidade e suas histórias. Essa obsessão acaba limitando os personagens e levando-os para caminhos mais tristes ainda, com a pressão por histórias mais violentas e sombrias. A crise final de Morrison não refere-se apenas ao universo DC, e sim a própria indústria de histórias em quadrinhos em geral. No final, Superman enfrenta Mandrakk num emblemático combate entre ideia e autor/leitor, onde o herói supera seus limites para provar sua força e valor. E assim como o careca declarou na sua edição final em Homem-Animal, personagens ficcionais são ideias, algo compartilhado por um consciente coletivo nosso que acabam transcendendo as suas próprias existências fora dos quadrinhos, estavam aqui antes de nós virmos a esse mundo e continuarão após as nossas mortes. Como diversos outros mitos, super-heróis podem ser eternos, basta apenas querermos.

Por Nelson Silva

Próxima parte: O Deus-Sol Duma Era de Prata.

One thought on “[QUADRINHOS] O Homem do Amanhã – Parte 5: Fins Imaginários

Comments are closed.