[QUADRINHOS] O Homem do Amanhã – Parte 4: Deve Existir Um Superman?

No ano de 1972, em Superman #247, o escritor Elliot S. Maggin levantou uma das questões mais importantes na história dos quadrinhos de super-heróis: “Deve Existir Um Superman?”. Nessa edição, o homem de aço é questionado pelos autoritários Guardiões do Universo (os seres responsáveis pela Tropa dos Lanternas Verdes), se suas boas ações seriam realmente benéficas para o futuro da humanidade. Com um messias alienígena resolvendo todos os nossos problemas, como a nossa espécie resolveria suas próprias crises e assim evoluiria na necessidade? Passado tantas décadas depois, essa pergunta de Maggin tornou-se incrivelmente ainda mais complexa e pertinente. Por isso, é nesse tema que se enquadram as obras dessa quarta parte do especial.

Chegou agora? Bem, já estamos na metade da viagem, mas há nada que lhe impeça de pegar um atalho nos links abaixo:

Parte 1: Cidadão Kent

Parte 2: O Repórter Idealista

Parte 3: Homem do Povo, Herói da Nação

Eu acredito num mundo onde sonhos nos salvam e nos transformam. Eu juro, pela minha alma, que sempre lutarei para que o meu sonho, de um mundo com honra, dignidade e justiça se torne uma realidade. Eu nunca vou desistir de lutar. Jamais.

– Superman

Qual é o Significado da Verdade, da Justiça e do Modo de Vida Americano?

Como dito nas últimas duas partes, a chegada do novo século representou uma preocupação a DC sobre os ideais que seu mais conhecido super-herói pregava. Curioso que mesmo sendo o personagem mais famoso da editora, seus títulos não conseguiam altas vendas e sua aceitação era abalada com facilidade, por causa do questionamento dos leitores devido às suas atitudes perante o combate ao crime. As consequências de Watchmen refletiram durante os anos 80 e suas influências estenderam até a década de 90, onde os quadrinhos de super-heróis ficaram cada vez mais sombrios e violentos. Enquanto isso, os britânicos Warren Ellis, Garth Ennis e Mark Millar escreviam sobre um mundo cínico e desesperado, onde seus super-heróis caminham deliberadamente entre o bem e o mal.

“Capas e máscaras são para quem quer se esconder, os vilões não contam seus planos antes de matar…”

Neste cenário, Joe Kelly resolveu pôr as cartas na mesa e discutir a situação em que Superman se encontrava na aclamada história chamada Qual é o Significado da Verdade, da Justiça e do Modo de Vida Americano?, publicada em sua fase na Action Comics. A trama trata sobre o surgimento da Elite, uma equipe formada por autoproclamados “super-heróis” britânicos que se afirmam como os juízes, júri e executores do mundo, referência clara a Authority de Warren Ellis. Por eliminarem as ameaças da forma mais drástica possível e subjugarem as leis, Superman parte contra estes anti-heróis para detê-los e ensiná-los os ideais em que acredita, aqueles que em sua consciência os verdadeiros heróis deveriam seguir.

“Eu não posso matar vocês, mas vocês podem me matar! Como deterei vocês se eu não posso matá-los?”

Infelizmente, com cada vez mais vilões sendo assassinados, o povo começa a duvidar sobre o velho modo americano dos superheróis de resolverem esses problemas, e começam a apoiar as ações da Elite. Sem muitas opções, Superman resolve assumir a defesa de seus ideais sozinho, buscando provar para o mundo que estão errados. Numa batalha  acirrada, consegue desmoralizar a Elite e ensinar que cada vida é importante, e mesmo que as pessoas possam ainda entrar em desacordo com suas ações, a humanidade não merece seguir um discurso de ódio e fúria, e sim de compaixão e fé por si mesmos. Compreender esses valores é o que precisam pelo bem de seu futuro.

“O que eu mais penso é sobre o grande S vermelho.”

– Steven T. Seagle

É Um Pássaro…

Imagine que você é um escritor. Sua perspectiva criativa é bastante focada em suas convivências e ao seu cotidiano, pois a fantasia não faz tanto sentido para tua lógica realista. Então lhe oferecem o trabalho de escrever o personagem mais utópico possível para sua imaginação. E qual seria ele? Superman, obviamente, um ser invencível, de éticas e morais absolutas. Um legítimo messias entre os homens. O choque é enorme, você o rejeita rapidamente, mas quando questionado sobre se realmente conhece o personagem, sua consciência entra em crise e se vê na condição de começar a aprofundar-se em seus próprios dilemas para então entender o que Superman representa em sua vida.

Isso foi o que ocorreu com Steven T. Seagle, autor que resolveu revelar todo esse seu processo de aceitação para este trabalho na graphic novel É Um Pássaro…, um belo relato sobre como os elementos que compõem o universo das aventuras do Superman estão refletidos na nossa civilização. Seagle descarrega suas frustrações, medos e preocupações ao longo da história, e principalmente o que lhe levou a odiar o personagem. Conhecemos o desespero com o mal de Huntington, doença hereditária que lhe preocupa bastante, pois foi a causa da morte de sua avó e assombra sua família desde então. Isso lhe faz sentir totalmente vulnerável e incapacitado, sendo o oposto do invencível homem de aço.

O Poder

Com sua mente desequilibrada pela situação, o escritor nos leva para uma viagem através de seus pensamentos sobre diversos aspectos do super-herói. Partindo da incoerência de sua identidade secreta e a relação como alienígena sendo um estranho na Terra. Explora também o “super-homem” de Nietzsche, um homem além das virtudes e valores, assim como a questão misantrópica do papel da sua Fortaleza da Solidão e o fascismo velado em seu papel como protetor da humanidade, visto por Steven, ao impôr um estilo de vida para quem é inferior a ele. Em relutantes reflexões sobre como Superman se comportaria diante das situações em que se envolve, o escritor percebe que desconstruí-lo apenas tornaria o personagem fraco e infeliz, porque em seus feitos inacreditáveis e vitórias sob as nossas dificuldades é o que ainda lhe torna especial após todos os seus anos de existência. Seagle compreende que a verdadeira força do Superman presente no nosso imaginário reside na esperança em cada um de nós em poder realizar o impossível.

Pensa bem, você que se deixou afetar pelos homens das ruas. Vox Populi, cara! Abaixo o velho, viva o novo! Mais brilhante, mais rápido, mais cruel! O modelo do próximo ano. Foi isso que a multidão sempre quis.

– Magog

O Reino de Amanhã

Em meio a violência excessiva e temas sombrios que tomavam os quadrinhos dos anos 90, o escritor Mark Waid e o ilustrador Alex Ross uniram-se para buscar os velhos valores dos super-heróis e mostrar o porque que ainda não podem ser esquecidos nos tempos atuais. Nesse âmbito, deve-se dizer que a formação da dupla não nega a razão dessa ideia, sendo Waid fã declarado de Superman e Ross que já havia homenageado o glorioso passado dos heróis da Casa de Ideias em Marvels, lendária minissérie escrita por Kurt Busiek.

A trama se passa num futuro distópico onde Superman abandonou sua capa e deixou a humanidade nas mãos duma nova geração de super-heróis egoístas e despreocupados com as consequências de suas ações. O motivo de sua desistência foi a perda de fé pelos seres humanos após a morte de seus amigos, familiares e o amor de sua vida, e também por discordar do clamor público para que aceite os novos tempos que essa geração trazia.

Numa desastrosa batalha contra o, já inofensivo, Parasita liderada por Magog, o vanguardista dessa nova era dos super-heróis e responsável pelo auto-exílio do kryptoniano, os meta humanos acabaram acidentalmente destruindo boa parte do Kansas e tornando o lugar numa zona altamente radioativa. Sendo essa a última gota dessa geração super-heróica despreparada, a ONU começa a se desesperar em busca duma solução, já que perderam o controle do mundo nas mãos deles, mas então a Mulher-Maravilha parte para a cidade de Smallville, o atual refúgio do homem de aço, com o objetivo de convencê-lo à voltar para luta e tomar as rédeas da situação.

O retorno.

No papel de espectador desses eventos está o pastor Norman McCay, este herdou as previsões apocalípticas que Wesley Dodds, o Sandman original, teve dias antes de sua morte. Norman é escolhido pela figura chamada Espectro para lhe ajudar a fazer a escolha mais justa para expurgar o mal e trazer o bem maior. Ao longo da história, a dupla visita diversos eventos correlacionados às suas visões. Nesse futuro, os super-heróis se tornaram parte da cultura da sociedade, há um mercado em volta desse segmento com os mais variados produtos, como um restaurante temático que marca presença na história. E também transformaram-se em tendência, ao observarmos os jovens meta humanos que agora saem para baladas e se confraternizam travestidos com seus uniformes coloridos e extravagantes. As pinturas de Ross delineiam bem um tom saudosista, traduzindo a forte sensação de estar presenciando estes eventos de teor bíblico que passam diante dos olhos de McCay.

Ao retornar de seu exílio, Kal-El (pois Superman abandonara sua identidade terrestre) encara essa nova geração com pulso firme,assumindo, teoricamente, a posição de novo líder mundial do planeta e dos super-heróis. Como primeira medida, tenta convencer todos a se juntarem a sua causa, e quem se opor aos seus ideais, encararia a força bruta até que mudasse de ideia. Se algum meta humano for praticamente incorrigível, é trancafiado numa prisão de segurança máxima onde suas atitudes serão modeladas, até que fosse considerado seguro o bastante de conviver entre seus semelhantes. De certa forma, este Superman assume uma postura que lembra aquela que Mark Millar traria ao personagem quase uma década depois em Entre a Foice e o Martelo, aliás, a motivação para o retorno do herói é outro elemento que o escocês também buscaria anos depois em Guerra Civil na Marvel.

Apresentando as mudanças e deteriorações de velhas figuras do universo DC, além dum Superman em estado de negação, temos primeiramente um Batman já idoso e flagelado. Este ressurge com sua velha obsessão por controle, protegendo a cidade de Gotham com um exército de robôs enquanto vigia tudo como um verdadeiro Grande Irmão. Também membro da famosa trindade da editora, Diana perdeu o título de representante da Ilha das Amazonas e a permissão de visitá-la, sem honra, se encontra em pleno desespero na busca duma batalha por algo que faça valer a sua vida novamente. E os clássicos vilões se reúnem-se ainda como uma sociedade, mas não são mais tão ativos e perigosos quanto eram, parecendo viverem num clube de negócios entre velhos amigos manipulando as coisas por trás da cortina.

E vem o relâmpago…

Essas trágicas deturpações é a forma de Waid procurar mostrar o perigo que as complexidades do mundo real podem exercer dentro do campo fantasioso dos quadrinhos. Até o mais puro dos super-heróis, o Capitão Marvel, ou melhor dizendo, seu alter-ego que é o garoto Billy Batson, acaba sendo influenciado por essa realidade repleta de crises e problemas. No desfecho, fica claro o que levou a humanidade à chegar neste estado foi a falta de crença nela mesma, a perca de ideais a se espelharem e a vontade de lutar com as próprias mãos. O símbolo do Superman é uma força vital nesse mundo, mas suas ações como o seu protetor tornaram a humanidade dependente e incapacitada. Mas respondendo claramente a questão levantada por  Elliot S. Maggin, Mark Waid buscou provar a importância do homem do amanhã, sendo alguém que não deve ficar preso por nossos desejos e dúvidas, mas sim uma figura maior que esses valores, capaz de inspirar e guiar a civilização a caminhar com os seus próprios passos para alcançar sua própria grandeza.

Por fim, para o cenário da época, a reflexão era outra. Mas com discurso ainda permanecendo atual, leva-se à outras questões mais profundas ainda. Se há um universo onde a velocidade da luz possa ser superada, em que a viagem entre dimensões paralelas é possível e o espaço-tempo contínuo possa ser compreendido e manipulado em toda sua complexidade. Porque então arruinar este lugar onde o impossível sempre é possível com mesquinharias e o cinismo do mundo real, ao invés de assumir uma suspensão de descrença e aceitar toda a beleza e extensão da imaginação humana? 

Por Nelson Silva

Próxima parte: Fins Imaginários