[QUADRINHOS] O Homem do Amanhã – Parte 3: Homem do Povo, Herói da Nação

A imagem do “escoteiro americano” é algo que muitos pensam quando referem-se ao Superman, iconograficamente, ao interpretá-lo como uma figura idealista dos EUA defendendo seus valores e morais. Até mesmo de forma caricata e cínica como nas duas minisséries d’O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller.  Nesta terceira parte, falo sobre as obras com certo cunho político e ideológico pertencentes ao homem de aço.

Perdeu as partes anteriores? Você pode lê-las nos links abaixo (e é de graça! (assim como isso que copiei do Rodrigo)):

Parte 1: Cidadão Kent

Parte 2: O Repórter Idealista

Ele era o meu tipo de herói: um militante, pronto pra desafiar o que está aí… pra atacar a violência que já aceitamos como coisinha do dia-a-dia… um verdadeiro herói dos oprimidos.

– Benjamin Conrad

 

A Cara do Autor

Na virada do século, os títulos do Superman reforçaram o tema sobre a importância do personagem no mundo contemporâneo, onde os seus valores podem ser questionados pelo cinismo que fazia sucesso nos quadrinhos, muito por parte da influência britânica que vinha desde Alan Moore nos anos 80. De qualquer forma este tema rendeu ótimas histórias para o personagem graças ao talento de certos escritores, enquanto Joe Kelly escreveu a clássica e aclamada “Qual o Significado da Verdade, da Justiça e do Modo de Vida Americano?” (que marcará presença na próxima parte do especial) na Action Comics, o seu xará Joe Casey, também explorou essa discussão com eficiência em seu trabalho com o Super.

Em uma das edições de sua fase em The Adventures of Superman, Casey resolveu trazer de volta o Superman de Jerry Siegel e Joe Shuster, um super-herói que lutava pelo povo e agia à sua própria maneira, sem restrições. Mas para tal feito, seu retorno vem como uma materialização dum desejo do escritor Benjamin Conrad, jornalista que sempre teve orgulho em escrever sobre o homem simples do campo, pois julgava ser este o verdadeiro valor da grandeza de sua nação. E por sinal, Conrad é um dos ídolos do repórter Clark Kent, o Superman que nós tão bem conhecemos.

“Só não deixem esses ideais serem esquecidos.”

Conrad está escrevendo um romance chamado “O Herói dos Oprimidos”, seu personagem é nada menos do que a versão original (e primordial) do super-herói kryptoniano, agora vindo ao mundo “real”. Este Superman espalha terror ao redor do mundo atacando qualquer um que considere estar desrespeitando os ideais estadunidenses que acredita, como a liberdade e a democracia. Principalmente a mídia e os governos começam a temê-lo, pois este desrespeita a lei e a ordem para ajudar a população, devolvendo o poder para ela. Enquanto esses eventos ocorrem, Clark e Conrad debatem sobre a justificativa de existir um herói assim nos dias de hoje, não tão “preto e branco” quanto nos anos 30, a clássica discussão entre velhos e novos valores. De qualquer forma, a “criação” de Conrad seguiu espalhando suas crenças até o seu último suspiro. Estas que não serão esquecidas, porque ainda que a violência causada pelo herói seja questionável, suas lições devem ficar guardadas como parte da construção duma sociedade a ser constantemente repensada e remodelada.

Todo mundo queria essa marca. Ela fazia as pessoas se sentirem parte de algo grande, novo e brilhante. Superman os ajudou a esquecer da realidade de suas vidas, solitárias e chatas.

– Lois Lane

 

A Maldição do Superman

E olha o Superman de Grant Morrison marcando presença novamente no Nerd Geek Feelings, mas agora dessa vez duma forma bem específica. Falo aqui sobre o Superman da Terra-23 (uma das 52 dimensões que compõem o multiverso DC) que protagonizou a edição #09 da fase do britânico na Action Comics, mas que já havia sido criado pelo careca há alguns anos antes durante a minissérie Crise Final. Chamado de Calvin Ellis, que na verdade, como segue a regra, fora o último sobrevivente do Planeta Krypton, assim como em boa parte das realidades paralelas. A diferença em sua história é o fato de ele ter nascido na Ilha Vathlo, local onde se encontra a grande parcela da minoria negra da civilização kryptoniana.

Não é por menos que o escritor o referencie com Barack Obama, pois sim, Calvin também é o presidente dos Estados Unidos da América como Superman. Dessa forma, Morrison mostra a força por trás do mito Superman, que possui ideal tão maior que une todos os povos, pois qualquer um tem o direito de sê-lo. Curioso também em uma das sequências de luta que o escritor e o artista Gene Ha deixam claro suas inspirações também no pugilista Muhammad Ali, figura importante como representante na luta pela igualdade e nesse discurso. Mas como Lex Luthor deixa sublinhado no início, essa história não se trata sobre a luta do preconceito.

A origem de Kalel.

A trama em si, trata-se sobre o princípio do mito que Superman se tornou, uma ideia perpetrada em diversos povos através de eras, podendo reinventar-se constantemente. Encontramos o trio (de um universo alternativo) formado por Lois Lane, Clark Kent (mas não como Kal-El) e Jimmy Olsen, responsáveis por criar uma máquina capaz de materializar pensamentos partindo do conceito de tulpa, que nada mais é do que a personificação física de uma ideia, quando esta imaginada por várias mentes como um consciente coletivo. Eles estavam fugindo da ameaça de um Superman “idealicida” (posteriormente o conhecemos como Super-Doomsday), uma das versões do personagem existentes que viaja através de diversas terras paralelas para eliminar seus respectivos homens de aço. Sua origem revela-se como sendo uma tulpa, criada por uma poderosa corporação – que mais tarde se revela como parte dos planos do demônio da quinta dimensão chamado de Homenzinho (ver mais aqui) -, que inicialmente foi idealizado com a máquina do trio para seu símbolo tornar-se uma marca a ser consumida através dos mais variados produtos possíveis. Morrison mostra aqui como ideias que nascem incrivelmente puras e belas, podem ser corrompidas e banalizadas pelo espírito capitalista e consumista da sociedade até se tornarem uma contradição de si mesmas.

Ainda há um backup (histórias curtas que complementam as edições) escrita por Sholly Fisch, com os desenhos de Cully Hammer e as cores de Dave McCaig, que discute sobre as atitudes políticas de Calvin como presidente e super-herói. Aqui, ao lado da Mulher-Maravilha, ele desmantela instalações nucleares secretas de Qurac, país fictício pertencente ao Oriente Médio na DC, que muito se assemelha ao Iraque ou Irã. Mesmo sendo por um bem maior, é questionado sobre o quão legítimas são suas ações, que mesmo servindo para a proteção de seu país, também ferem as constituições estabelecidas pela ética da sociedade. Por ser o homem mais poderoso da Terra, Calvin possui o direito de decidir sozinho o que é melhor para todos? Questionamento moral que lembra Entre a Foice e o Martelo de Mark Millar, que por sinal, é a próxima obra que falarei aqui.

Por que você simplesmente não põe o mundo inteiro numa garrafa, Superman?

– Lex Luthor

 

Entre a Foice e o Martelo

Na década passada, a DC convocou alguns dos principais escritores da época para reformularem o Superman, entre eles haviam Mark Waid, que escreveu a nova origem do homem de aço em O Legado das Estrelas (texto aqui), Grant Morrison, responsável pela história definitiva do personagem chamada Grandes Astros Superman (que estará presente na última parte do especial) e Mark Millar. O último escreveu uma minissérie dentro da linha Túnel do Tempo (Elseworlds em inglês), selo com diversas histórias onde mostram realidades alternativas originadas de pequenas, mas importantes, mudanças na história do universo DC. Esta obra de Millar trata-se duma reinvenção ideológica do Superman, pois o escritor nos conta sobre como seria o mundo caso a nave de Kal-El aterrissasse no outro lado da cortina de ferro, mais precisamente, na União Soviética.

Através dessa premissa, Millar faz questão de criar um super-herói ativamente político e que fosse mais contundente em seus ideais. Sai o sonhador defensor do American Way e entra o herói que luta pelos ideais de igualdade entre o povo, o homem comum. De início se torna apenas uma figura idealista que Josef Stalin utiliza para engrandecer os ideais socialistas, fazendo passeatas, festas e eventos para apresentar o seu Superman para o mundo. Mas logo após a morte do líder soviético, o kryptoniano se vê obrigado a assumir o poder do país, sendo parte da expansão de seu trabalho em prol da segurança e melhores condição para seu povo, mesmo que sua humildade como garoto do campo tivesse lhe impedido em pensar nisso.

O surgimento do herói soviético.

No outro lado do mundo, o governo estadunidense está horrorizado não só pela existência dum alienígena na Terra, mas também por ser um comunista, o que lhes deixavam em tremenda desvantagem no meio da Guerra Fria. O gênio Lex Luthor é requisitado pelo governo para procurar um meio para deter essa “ameaça”. Dominando todos os meandros da ciência de seu tempo e com a mente voltada para o futuro, Luthor vê em Superman a oportunidade de provar o verdadeiro potencial da humanidade e que representa o ápice da sua espécie, através de seu intelecto imbatível. O escritor cuida em demonstrar duma forma caricata toda a genialidade do personagem, para poder justificar suas invenções inverossímeis, devido a época. Mas infelizmente, Millar erra na dose em alguns momentos que não dá para saber se é uma piada ou realmente acredita que achamos brilhante algumas falas do personagem.

Ao passar de décadas, os EUA segue falhando constantemente em derrubar o homem de aço soviético e enfrenta uma forte crise econômica, devido o fato de ter limitado suas relações internacionais devido ao crescimento da influência do Superman e seu governo na Terra. Por orgulho, não aceitam se aliar aos soviéticos. Enquanto a União Soviética prospera com seu líder e “messias” como uma superpotência. Não há mais fome e desigualdade social, por outro lado, nem todos veem a situação como a melhor possível e assim surge Batman, um revolucionário que deseja “libertar” seu povo da opressão do alienígena. Quando este passa dos limites, Superman toma medidas drásticas e torna seu regime numa ditadura proclamada. Quem desobedece suas leis e perturba a ordem, será imediatamente lobotomizado. Curioso como Millar lida com as referências na história, brincando muito com a possibilidade de inverter conceitos, como ter o Batman, que sempre foi obcecado pelo controle, representando o caos aqui.

Outro ponto interessante são os nublados ideais sexistas de Millar presentes nas duas importantes personagens femininas da história: Lois Lane e Diana Prince, a Mulher-Maravilha. A primeira, apesar de ser ainda uma brilhante repórter, vive submetida às vontades de seu esposo Lex Luthor, que sempre a humilha com sua indiferença, deixando-a refém dessa condição, pois apenas deseja ser amada por seu esposo O mesmo acontece com Diana e sua paixão pelo Superman, no fim, é subjugada por sua força e perde todas as virtudes que possuíra simplesmente por causa da sua devoção a um homem, Superman. São personagens que, antes representam o melhor da força e intelecto da mulher, mas aqui não possuem papel relevante algum, a não ser serem dependentes dos grandes homens como peças de seu grande jogo, e logicamente, sofrendo muito no processo.

O compromisso e a ascensão.

No final, Superman consegue sua tão sonhada utopia, um mundo praticamente perfeito onde todos os problemas podem ser solucionados em questão de minutos. Mas para isso, teve que impedir o direito de livre-arbítrio da civilização. A humanidade deve perder o direito de errar e de se questionar no processo pela conquista do bem maior, mas seria isso algo válido? Graças a uma ideia realmente genial dada por Grant Morrison, Millar encerra sua obra demonstrando que estamos destinados a errar eternamente, mas são essas falhas que tornam nossa civilização mais forte, e que mesmo num momento crítico, ainda conseguimos ter esperança o bastante para poder plantar alguma “semente” acreditando num mundo ainda melhor.

– Por Nelson Silva

Próxima parte: Deve Existir Um Super-Homem?