[QUADRINHOS] O Enterro das minhas Ex – Sobre Aquilo…

SAPATÃO!

Que foi? Não gosta desse “adjetivo”?

Ok, entendo que o ache impróprio…

Ele era e ainda é voltado para mulheres que gostam de outras mulheres, muito embora hoje em dia seja um comportamento medieval tratar qualquer pessoa de forma diferente por sua ORIENTAÇÃO sexual.

Incrível, né? Mas ainda existe. E MUITO…

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E é justamente nesse delicado mas muito rico problema em que mergulhamos de cabeça ao Ler a HQ “O Enterro das minhas Ex“.

O quadrinho, escrito e desenhado por Charlotte Gauthier, o retrata de forma simples mas bastante cruel. Não porque ela fosse cruel, ou porque ela quisesse fazer uma HQ cheia de maldades e pessoas capazes de partir o coração de uma garotinha.

A HQ autobiográfica é simplesmente um fruto da vida de Charlotte, suavizada em muitas partes por suas memórias ainda confusas, e dramatizada pelas lembranças, ainda talvez em carne viva, de alguém que passou por situações que ninguém gostaria de viver.

Charlotte sentia-se inadequada desde muito novinha.

Claro que, quando crianças, não temos ideia do que é querer ou desejar. A paixão se demonstra como um construto abstrato, criado por outras pessoas mais velhas; algo que iremos viver um dia, e pelo quê ansiamos desde muito jovens. Meninos jovens acabam se apaixonando pelas meninas mais bonitas da turma porque a natureza é assim. As meninas acabam se apaixonando pelos meninos mais “descolados” (se é que essa gíria ainda existe), que sabem andar de Skate ou lutar, ou os que tocam violão. Há os que se apaixonem pelas professoras e pelos professores. Afinal, são os tutores os mais maduros e seguros em nosso ambiente e fora do escopo familiar. E pessoas que passam segurança têm qualquer coisa a mais, não é?

Mas meninas como a Charlotte têm um entendimento de paixão um pouco diferente, mesmo desde muito jovens.

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O que ela vê na TV a afeta, mas não são as figuras masculinas que chamam sua atenção. São as figuras femininas.

Aliás, e como afetam…

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A bem da verdade, conforme vemos nos quadrinhos, a pobre Charlotte está perdida em um mundo que não aceita nada bem o que ela nem faz ideia do que é, mas que deseja ardentemente.

Mas classificar o que Charlotte sente em seus primeiros anos como “desejo” talvez seja um exagero. Poderíamos ver isso apenas como um impulso primevo, uma vontade primordial. É aí mesmo que começam os problemas.
maxresdefaultLogo nos primeiros anos de vida, no contato inicial com outras colegas de classe, Charlotte nota que as coisas das quais gosta são bastante diferentes das coisas que suas amigas da mesma idade gostam. Charlotte não quer usar as roupas iguais às das meninas, e brincar de elástico não parece uma opção tão legal.

Mas jogar futebol e usar boné parece muito mais legal. Fazer judô também parece muito mais interessante.
whatsapp-image-2016-12-25-at-21-05-29(Lembrando que jogar futebol e praticar judô não são exclusividades masculinas, mas para algumas mentes pequenas isso pode ter uma interpretação bem maldosa)

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Com o tempo, os gostos da pequena (ainda criança) Charlotte começam a ser um elemento crucial para que ela se torne uma menina mais isolada dos seus colegas.

A pequena heroína de nossa história acaba por se tornar uma pessoa isolada após se tornar motivo de chacota. Mas nada é tão ruim que não tenha solução.

A nossa pequena acaba encontrando uma doce amiga chamada Sophie, que se muda para o colégio de Charlotte, além de morar de frente para nossa jovem protagonista.

Uma bela amizade se inicia entre as duas.

Mas para alguém como Charlotte, uma amizade com outra menina de sua idade pode acabar dando espaço a algo além.
img_2768E embora as coisas fossem acontecendo e tomando forma de qualquer coisa muito além de amizade, Charlotte, ainda envolta na inocência pueril, via naquilo que sentia e que queria uma capa de amizade sincera.

Mas… mesmo que a parte física seja recíproca, o preconceito pesa e Charlotte perde sua amiga Sophie… e permanece perdendo melhores amigas ao longo de sua trajetória torta. Ou melhor, ao longo de sua trajetória normal, rodeada de pessoas tortas.

16351501Com a vinda da puberdade, todos os “pseudo-desejos” se tornam desejos verdadeiros. Todas as idealizações se tornam verdades, e os hormônios mexem com o corpo, bagunçam a mente, fazendo com que Charlotte queira mais do que o contato físico primevo (além do sentimento, é claro). A Jovem agora quer ir além…

E este além passa a ter nomes, fazer parte de fantasias molhadas à noite – não, não se escandalize por tão pouco – e mesmo a tomar forma como paixões muito intensas direcionadas a outras meninas.

oenterrodasminhasex-destaqueÉ aí que “amiga” passa a ter um outro significado. Dessa vez, bastante consciente.

Triste foi que, como o próprio nome da HQ sugere, Charlotte precisou deixar para trás todas as coisas das quais ela foi vítima em razão da falta de compreensão que ela sofreu em razão de ser lésbica.

Você pode imaginar que foi difícil, mas talvez não tenha realmente noção do quanto.

20160902_181005-1024x768Para começar, não estamos falando de um caso de descobertas sexuais em que as pessoas passam por todo um processo de aceitação pessoal e, apenas depois, social. Charlotte iniciou sua vida sexual (e obviamente, suas sendas no mundo LGBT) em uma época em que não ser heterossexual era inaceitável de muitas formas.

Embora não houvesse mais a luta e a ojeriza aberta à comunidade LGBT no fim dos anos 80 e início dos anos 90, não é como se não houvesse um combate (pouco) velado a qualquer coisa que fosse contra “a moral e os bons costumes”. Se hoje temos preconceito, uma ou duas décadas atrás tudo era muito mais grave, muito pior, muito mais complicado.

Curioso que Charlotte aponte todas as coisas ruins pelas quais passou para os núcleos sociais fora do escopo familiar. É comum que gays e lésbicas tenham problemas dentro de casa para se assumir. Normalmente, aliás, os maiores problemas são dentro de casa.

Mas O Enterro das Minhas Ex aborda a crueldade que vem de fora; a crueldade que vem de cada menina com quem a protagonista se envolve com maior ou menor intensidade, em suas experimentações sexuais, e que logo em seguida negam suas vontades em nome de uma heterossexualidade que tem mais a ver com o que querem os outros do que elas mesmas.

O Enterro das minhas Ex é uma HQ diferente, ousada, corajosa que vem trazer à baila um assunto quase proibido – mas proibido silenciosamente.
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Em 2012 tivemos o assunto trazido às grandes telas em razão de outra HQ (La Vie d’Adéle, lançada no Brasil pela Martins Fontes) homônima do filme Azul é a Cor mais quenteNessa época o assunto foi amplamente discutido e o tabu parecia estar sendo desconstruído.

Mas, infelizmente, foi só uma impressão.

O preconceito continuou e continua em cada palavra dita. E mais ainda naquelas que são omitidas.

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Cena pós filme – Emma e Adele.

Nota da redatora: Me pergunto se a HQ toda em tons de azul não seria uma alusão a Azul é a cor mais quente. 

azul-a-cor-mais-quente-quadrinhos-criticaEmbora a autora escreva também para o público infanto juvenil, cabe dizer que O Enterro das minhas Ex não é uma HQ para crianças, definitivamente.

Os assuntos tratados nela não são fáceis, embora a HQ em si seja pequena e pareça simples.

Nada é simples quando se trata de algo tão íntimo, tão visceral, tão ligado aos nossos desejos mais intensos.

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E ainda expondo, falando, publicando, indo contra todos aqueles que acham que precisam se preocupar com a sexualidade alheia, gays, lésbicas e todas as pessoas que não seguem o lado “certinho”, ou seja, o hétero, acabam sendo vítimas de questionamentos morais. Tanto os trazidos por Charlotte Gauthier, em sua genialidade que passa pelo coração de quem sabe ter empatia como uma bala achada (as perdidas jamais baterão em lugar algum), quanto todos os outros que são comentados e se tornam assunto nas palestras e discussões de religiosos mais ferrenhos, pessoas mais moralistas, todos mais cheios de noção de certo e errado e muito menos cheios de humanidade.

Para você que ainda não se encontrou, ou que se encontrou e quer saber mais sobre o quanto é difícil ser quem você é, fica a dica de leitura.

Se você se encontrou e é heterossexual, a leitura urge mais ainda; é necessário que se lembre do que te faz humano.

Ficam enterradas as Ex de Gauthier e a indicação da Linda HQ e desse videozinho abaixo. Ele pode te ensinar MUITAS coisas de forma simples. Fica a dica. 😉


o enterro das minhas ex gauthien nemo capaNemo

Brochura

23,8 x 17 x 1 cm

160 páginas

Onde comprar:

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