[QUADRINHOS] O Diário de Anne Frank – Interrompida

Houve, durante a segunda guerra mundial, um povo cuja proporção demográfica conseguia dominar todo um território Nacional (ou quase todo), e a magnitude das paixões por ideais bastante ortodoxos (ao menos para ele) foi capaz de moldar toda a mentalidade, presente e futuro de toda a cultura ocidental e – por que não dizer? – boa parte da Oriental.
Colocaram a culpa em um homem de ideias (não ideais, veja… há uma diferença) tão hediondas quanto seu ridículo bigode – que até hoje só me parece cair bem em Chaplin – e seu crânio quase todo à mostra, cor de parede branca pintada com uma tinta ordinária.

O tal homem falava alto, falava que era ele o partido, Curiosamente não era tão nanico quanto a história tenta pintar, nem mesmo era tão neurastênico quanto os filmes parecem mostrar. Era um líder carismático. E um líder carismático sempre sabe o que faz.

Líderes carismáticos, ainda que por trás de lágrimas ou sorrisos amplos, sabem exatamente que reações esperar, que palavras escolher, que olhares serão calculados para a próxima leva de mentiras ditas mil vezes e transformadas em verdades.

E foi nessa inteligência camuflada em uma eterna falta de Fleuma que Adolf Hitler subiu ao poder; Vindo de lugar nenhum, sem futuro, sem talento para coisa alguma, o estranho sujeito de olhos escuros demais para exigir que todos tivessem olhos azuis, moveu uma nação em busca da “Utopia” de uma Alemanha de Arianos.
Ironias da vida. Hitler não era Alemão. Era austríaco, e nem sequer poderia se passar por Alemão sem ser questionado, posto que, conforme dito acima, ele mesmo deveria ter ido para algum campo de concentração por algum dos motivos sem motivos que ele arrumou. Não era Ariano.

Mas Hitler não fez nada sozinho. Não o estou defendendo, é claro. Mas sempre bato na tecla de que achar um culpado para um problema que envolve milhões de pessoas é, no mínimo, motivo o bastante para ser chamado de imbecil.

O povo que Hitler governou, o saudou com louros. Esse povo o manteve no poder, o protegeu, o alimentou, o chamou de Reich. Eram os jovens e velhos Hitleristas, ou Nazistas, como melhor conhecemos.

Um povo sem explicação, como, creio eu, todos os outros povos da Terra. Mas um povo que levava a medida das desigualdades a um patamar mais extremo, mais duro e cruel, não incluindo apenas judeus, como é comum que lembremos, mas ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová e outros grupos.

Um povo tão estranho que queimava livros. (Se um dia vir alguém queimando um livro, cuidado: Essa pessoa pode ter simpatia pelo nazismo)

Mas onde entra Anne Frank no meio dessa história?

Exatamente no meio dela.

Ou melhor, mais para o fim. Quase no fim da Segunda Grande.

Anne não escreveu um livro, e talvez por esse motivo o que foi escrito pela jovem nunca tenha sido queimado, mas o pouco que ela conseguiu expressar ficou marcado.
Anne começa sua história como uma menina normal, de classe média, vivendo com uma família de religião judaica bem estruturada e feliz.

Anne é comum. Nada mais que uma jovem comum, que gosta das estrelas de cinema, assiste a Rim-tin-tin, tem uma irmã mais velha com quem não se entende exatamente tão bem (mas também não possui conflitos) e, claro, como toda garota – pelo menos quase todas as garotas até uns dez anos atrás -, possui um diário para deixar nele registrado tudo aquilo que sente, gosta, vive e quer viver.

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Tudo começa a ser relatado em seu aniversário de apenas 13 anos, uma idade em que qualquer jovem está descobrindo um mundo de coisas, sentimentos, medos, etc.

E perdida em seu mundo incrível de descobertas infinitas, Anne nota apenas muito sutilmente – quase não nota, na verdade – que as coisas a seu redor estão começando a mudar demais.

De repente, seu pai, mãe, ela e todos os judeus precisam começar a usar uma estrela amarela na lapela da blusa ou na braçadeira. As notícias começam a se aclarar, ou a percepção da garota fica mais afiada até que o baque com a realidade é inevitável. Um recado da SS e toda a vidinha amena e normal de Anne muda da noite para o dia. Para ser mais exata, em um dia de domingo chuvoso.

Nota da redatora: Penso que uma das razões principais de as garotas hoje em dia não possuírem diários é o fato inegável de que elas expõem a vida amplamente no facebook e em redes sociais diversas.

A Editora Nemo teve um carinho especial com a HQ, porque tornou a leitura das vivências de Anne e seus familiares um pouco mais acessível a públicos diversos. Lembro de haver lido O Diário de Anne Frank quando tinha cerca de 17 anos, e confesso que achei excessivamente maçante. Não foi culpa da pobre menina.

Não é como se Anne fosse uma escritora renomada e tivesse as melhores condições para produzir seus relatos.

É necessário lembrar a qualquer leitor que a primeira parte do Diário foi escrita quando a jovem ainda era muito inocente e inexperiente, além de viver uma vida normal para uma garota de sua idade. A segunda parte, mais visceral (ainda assim, bem casta por parte de Anne) já é escrita no Anexo do escritório do pai de Anne, quando pessoas conhecidas já tinham sido presas pelos emissários de Hitler.
Anne permaneceu dois anos no claustro seguro do Anexo: um lugar ingrato, em que até a mobilidade física era uma ameaça, a comida era contada, as pulgas apareciam aos montes, as brigas eram corriqueiras, e ninguém mais de sua família ou das outras famílias ali presentes tinham mais acesso a coisas básicas como roupas limpas. Ou PAZ.
Assim, a HQ com trechos compilados do Diário de Anne Frank traduz muito bem a experiência da jovem, não só através das partes escritas mais cruciais, como também através de belas ilustrações, profundas, coloridas de azul (uma cor que remete ao onírico e à depressão…), puxadas para um realismo curiosamente mentiroso. Não é real, se parece caricato… Mas parece querer ser real.

A ideia é justamente essa.
No fim da HQ, a sensação é justamente essa que tantas obras sobre o holocausto (sacrifício pelo fogo) nos deixa: Quase como assistir a “O menino do Pijama Listrado“, ler a HQ “O Diário de Anne Frank” é a garantia de viajar pela mente de uma jovem, conhecer suas dúvidas e desejos, seus anseios, suas questões e… de repente… Silêncio.
Interrompe-se o ato.

Mas Anne conseguiu. Será lembrada para sempre.


Nemo

Brochura

24 x 17 x 0,8 cm

96 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

Amazon

Saraiva

Submarino

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