[QUADRINHOS] O Cão e A Mão do Coração, de Ranulfo Medeiros e Juliano Henrique (resenha)

Poucas relações deste mundo são tão confiáveis quanto aquela entre um cão e o seu dono. De modos que os gestos de carinho entre eles são capazes de enternecer ambos e aqueles que os testemunham.

Na contramão deste tipo de relação, entre as mais detestáveis manifestações “humanas” possíveis, está a de um pai que agride fisicamente seu filho e sua esposa. Neste contexto, um amigo canino pode ser o único alento de um menino que constantemente sofre com a violência doméstica.

Mas O Cão e A Mão do Coração não começa numa casa marcada pela violência, mas diante do lar de uma moça deficiente (ela perdeu dois dedos da mão esquerda). Ela que encontra Milo, o cão do título, que havia fugido de uma casa onde mora uma “criança doente”. Não demora até que descubra que Milo tem dono e que o cão possui um poder especial. Conforme essa premissa desenrola-se, tomamos ciência da importância do cão e dos problemas que seus donos enfrentam.

Escrita por Ranulfo Medeiros, a HQ é quase inteiramente “muda.” Com exceção dos ruídos e latidos do cão, e de onomatopeias pontuais, não há fala ou recordatórios em suas 28 páginas. Por isto o trabalho do desenhista Juliano Henrique é fundamental para que a narrativa visual funcione tanto no nível objetivo quanto no simbólico.

O Cão e A Mão do Coração é uma fantasia urbana que aborda um problema muito real. Em seu silêncio verbal ela diz muito sobre crimes passionais; sobre a importância de animais de estimação para crianças com problemas familiares; e sobre o poder balsâmico e restaurador de atos de carinho. Neste aspecto, Juliano brilha com sua narrativa bem direta e cinematográfica, investindo em expressões faciais e corporais que dizem tanto quanto quaisquer falas diriam a respeito dos personagens e seus dramas. Além disto, as expressões caninas imprimiram personalidade, inocência e doçura em Milo.

Sendo a HQ um recorte de um problema real, sua mensagem final professa sobre o efeito da violência numa família, e o quanto ela pode afetar até mesmo uma força do bem, caso não seja impedida de alastrar-se.


Seres Soros (selo independente)

Ranulfo Medeiros (roteiro)

Juliano Henrique (desenhos)

21 x 28 cm

Capa colorida (papel supremo)

32 páginas em preto e branco (papel offset)

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