[QUADRINHOS] O Árabe do Futuro 1 e 2, de Riad Sattouf (resenha)

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Riad é filho de uma bretã e um sírio. Com apenas 6 anos já havia conhecido a França, a Líbia e a Síria, onde passou boa parte de sua infância. Esta é sua história.

O Árabe do Futuro é uma autobiografia em quadrinhos cuja proposta é apresentar as peculiaridades culturais dos países citados pelo ponto de vista de uma criança. Só esta decisão já é um acerto de Riad Sattouf. Ao recontar suas experiências da forma como as interpretou quando pequeno, passamos a enxergá-las com a mesma sensação de descoberta que ele teve ao vivê-las pela primeira vez. E por tratar de culturas diferentes da ocidental, esse olhar ingênuo as despe de preconceitos.

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Isto não significa que Riad ignore o contexto histórico dos episódios narrados. Há contextualizações pontuais sobre o cenário político da Síria e da Líbia de meados dos anos 80, mas, acertadamente, o autor evita aprofundar-se nelas. Assim ele criou uma experiência de leitura que nos leva de volta para aquele período, o qual observamos sem uma compreensão plena do mundo que o cerca, como um menino de 6 anos o enxergaria.

Isto gera diversas situações divertidas, que vão desde Riad criando associações inusitadas, como imaginar Deus com o rosto de um cantor francês do qual sua mãe gostava; até achar Kadafi mais simpático e jovial que Hafez al-Assad; além das diversas vezes em que sua imaginação infantil cria cenários mais terríveis do que os reais.

O preconceito dos povos árabes contra os judeus também é abordado por Riad. Por ser mestiço, ele tinha cabelos loiros quando criança, e era confundido com um judeu, especialmente por seus primos e colegas de escola. Isto rende diversas situações em que o menino tem que lidar com a maldade das crianças. Aliás, outro ponto que chama atenção na história são os atos cruéis realizados por meninos e meninas, que vão desde agressões verbais, até tortura e morte de animais. Mesmo que tais fatos sejam contados sob o ponto de vista de um menino, Riad não poupou o leitor dos detalhes sórdidos, como na impressionante sequência que mostra a morte de um cãozinho; ou aquela em que um menino faz um experimento macabro envolvendo sapos e uma bicicleta.

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Outra questão que também é tocada pela obra é a lavagem cerebral sofrida pelas crianças e adultos nos países onde Riad viveu. Na escola os alunos são praticamente coagidos a decorar trechos do Alcorão, levando-os a ter uma só crença. No mesmo ambiente os professores fazem a cabeça dos alunos para que eles convençam seus pais a votarem num mesmo candidato. Isto ocorre tanto na Síria de Kadafi como na Líbia de Hafez al-Assad. Ambos usam a TV e as escolas para perpetuarem seu poder sobre suas nações. Sem abandonar o ponto de vista inocente que adotou para sua narrativa, Riad torna bem claro para o leitor o quanto aquelas pessoas foram programadas durante toda a vida a apoiarem seus governantes tão cegamente quanto abraçam suas crenças. Também evidencia que é esta prática uma das raízes dos conflitos políticos e religiosos que devastam aquela região do planeta.

Mas, conforme disse acima, Riad não se permite aprofundar-se em tais questões. A maior parte dos dois volumes de O Árabe do Futuro já lançados pela Intrínseca é composta de memórias do cotidiano do menino. Entre elas, se destacam as lições que o pai lhe ensina sobre sua cultura. Aliás, grande parte do humor da narrativa se deve ao pai de Riad, que mesmo cheio de preconceitos cativa o leitor por sua personalidade sonhadora, e a forma despojada como encara situações que causam espanto na esposa e no menino.

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Riad prova em diversos trechos sua habilidade como narrador visual. Seu acerto começa no traço, que lembra uma mistura de Peanuts com Simpsons. Todos os personagens têm traços marcantes, que são facilmente identificáveis. E os cenários são detalhados na medida certa. Vale a pena reparar nas sacolas plásticas voadoras, que vira e mexe passam ao fundo, servindo de alívio cômico. O mesmo valendo para as expressões faciais, especialmente as reações de Riad quando sente medo (que são hilárias) ou fica empolgado com algo que fez ou que lhe dizeram (que são contagiantes). Também vale citar as várias legendas que o autor usou para fazer apontamentos sobre algum personagem ou elemento do cenário que chamou sua atenção, que também tornam a história ao mesmo tempo divertida e instrutiva.

O Árabe do Futuro é uma obra de muitas qualidades. Citei apenas algumas delas acima, pois parte da diversão está em experimentar cada descoberta ao lado do pequeno Riad. Talvez a maior qualidade dela seja nos contar parte do cotidiano de um menino que cresceu numa região cheia de problemas, misérias e conflitos, que infelizmente não deixaram de existir nos 30 anos que se passaram desde a infância do autor.

Resta mais um volume para a conclusão da trilogia, que já merece um lugar de destaque entre as melhores obras em quadrinhos desta década. Caso o autor mantenha o ritmo de produção dos dois primeiros, o último deve sair no final deste ano, e chegar no Brasil em meados de 2017. Desde já aguardo ansioso por mais algumas horas de diversão e aprendizado ao lado de Riad.


nota-5


capa_arabe-do-futuro-212x300o arabe do futuro 2 riad sattouf intrinseca capaIntrínseca

Capa comum

23,8 x 16,8 x 1,4 cm

160 páginas (cada volume)

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