[QUADRINHOS] Noah: a graphic novel que deu origem ao filme de Darren Aronofsky

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Noé é um homem bom, que se preocupa não apenas com o bem-estar de sua família, a quem trata com carinho, como demonstra grande preocupação pela vida dos animais. Tal bondade e altruísmo é recompensado sob a forma de sonhos premonitórios que o alertam para uma catástrofe global que varrerá da face da Terra a humanidade e a maior parte da vida animal. Caberá a ele a tarefa de coletar e salvaguardar casais de todas as espécies de seres vivos do mundo numa arca, que conterá em si as sementes para o renascer da vida na Terra.

O mito bíblico da Arca de Noé é um dos seguimentos mais conhecidos do livro Gênese, e um dos que mais fascínio despertou em Darren Aronofsky – diretor dos filmes Pi, Réquiem Para Um Sonho, Fonte da Vida, O Lutador, e Cisne Negro – , que desde criança é fascinado por seu protagonista. Neste fim de semana o resultado de uma história que ele vem montando na cabeça há pelo menos uma década estreará nos cinemas sob a forma do longa metragem Noé, estrelado por Russell Crowe. O que alguns de vocês talvez não saibam é que antes de dirigir esta adaptação cinematográfica sobre a jornada épica de Noé, Aronofsky uniu-se a Ari Handel e ao artista Niko Henrichon para adaptar para os quadrinhos a primeira versão do roteiro que escreveu para o filme. Noah foi lançada primeiro no final de 2011 na França em 4 edições, e mês passado nos Estados Unidos pela Image Comics, que reuniu a minissérie num encadernado de luxo.

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Na primeira página, usando um estilo hipercomprimido, que lembra as montagens dinâmicas de seus primeiros filmes, Aronofsky reconta o episódio do Pecado Original e da morte de Abel por Caim, já definindo que um dos temas da história será o pecado do Homem. A humanidade é retratada na história como milhares de homens e mulheres que abusam dos recursos naturais em caçadas desmedidas e desmatamentos em prol do crescimento de uma cidade de proporções titânicas, e para saciarem suas vaidades e promover sua soberania como “senhores da Terra”.

Conforme adiantou em entrevistas, Aronofsky usou a história de Noé como uma alegoria sobre o impacto das ações do Homem sobre o meio ambiente. Em Noah ele transformou o protagonista no único com consciência o bastante para prezar pela vida animal, algo que é demonstrado na cena inicial em que o vemos afugentar um grupo de caçadores de rinocerontes, que matam os animais não pela carne, mas para arrancar seus chifres a fim de usá-los como enfeites.

Na releitura concebida por Aronofsky e Handel, Noé é contemporâneo de Babe-Lin, uma clara referência à Torre de Babel, que é descrita como uma “cidade tão vasta que o planeta inteiro foi devastado por seu apetite insaciável.” Em seu centro está “A Torre”, um “dedo que aponta para o Céu”, como um desafio a Deus. É mais um comentário do cineasta sobre a atuação inconsequente do Homem sobre a Natureza, e seu rompimento com qualquer tipo de divindade.

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É no apelo que Noé faz à população de Babe-Lin que Aronofsky explicita sua releitura ecológica da história bíblica. Nele o protagonista diz que o Dilúvio previsto em sonhos será uma resposta de Deus ao mal que o Homem vinha fazendo contra a Natureza, que é descrita por ele como um ser vivo (e aqui Aronofsky toma emprestadas tanto a figura mitológica da deusa Gaia, personificação da Terra, quanto a Hipótese de Gaia, que basicamente defende que toda a vida na Terra forma um macroorganismo coletivo). E implora que os homens passem a tratar a Terra com compaixão, para que o Criador compadeça de nós (embora também possamos interpretá-lo como um pedido para o Homem parar de devastar a Natureza, a fim de evitar que Ela responda na mesma proporção dos danos causados pelo Homem).

A visita de Noé a Babe-Lin também é usada por Aronofsky para introduzir o principal antagonista da trama: Tubal-Cain, o governante da cidade, um homem que não acredita em Deus por julgar a humanidade uma espécie abandonada numa terra seca onde nada cresce, e falta comida para uma população crescente e faminta (num comentário sutil ao problema de crescimento desmedido da população mundial, e uma equiparação ao alastramento da humanidade a uma doença que se espalha pelo planeta).

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Uma das melhores sacadas da HQ é revelar visualmente, para o leitor mais atento, que não é necessariamente uma história ambientada no passado da humanidade. A arte de Niko Henrichon espalha indícios de que pode ser uma versão pós-apocalíptica de nosso mundo. Quando Noé desiste de alertar os homens sobre o Dilúvio e parte com sua família para Ararat, vemos as pequenas silhuetas deles contrapostas a um imenso destroço de uma construção metálica retorcida, insinuando que estamos diante dos vestígios de uma civilização outrora próspera, que retrocedeu para um estágio que beira a barbárie.

Outro detalhe que chama muita atenção na história é o papel atuante dos misteriosos Vigias (Watchers, no original), seres gigantescos de seis braços cuja origem remonta à expulsão de Adão e Eva do Éden. Eles se mostram fundamentais para a construção da Arca. Tendo por base o que foi mostrado nos trailers, suponho que eles não aparecerão desta forma no filme, sendo, portanto, uma exclusividade da graphic novel. Seu papel na história é também o de reforçar a ideia de que o Homem voltou suas costas para a divindade no mundo de Noé (e se eu disser mais do que isto corro o risco de estragar algumas surpresas sobre a natureza dessas criaturas, e sua missão).

noah-darren-aronofsky-noah-and-the-seed-of-the-tree-of-lifeCurioso também é o pequeno easter-egg que Aronofsky incluiu na história, quando Noé recebe de seu avô a semente que ele usa para plantar a floresta cuja madeira servirá para construir a Arca. É a mesma semente da árvore que Tom Creo, o cientista de Fonte da Vida interpretado por Hugh Jackman, planta no final do filme de 2006 dirigido pelo cineasta, a semente da Árvore da Vida (que aparece representada na parede da caverna onde vive o avô de Noé). Quando plantada por Noé, além de dar origem a uma floresta inteira, ela também funciona como uma espécie de “farol biológico” que atrai animais e insetos de todas as espécies do mundo até a Arca.

Originalmente concebida em quatro capítulos, estes foram muito bem estruturados. O primeiro é sobre a missão recebida por Noé; o segundo sobre a construção da Arca; enquanto o terceiro foca no conflito entre Noé e a Humanidade, representada pelo exército reunido por Tubal-Cain para tomar a Arca a fim de salvar-se do Dilúvio.

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Aronofsky carregou os momentos que precedem o Dilúvio de muita tensão, primeiro ao espalhar os filhos de Noé pelos arredores da Arca, em paralelo à iminência do ataque do exército de Tubal-Cain, como forma de dificultar ainda mais o cumprimento da missão de Noé e, claro, para oferecer ao leitor/espectador um pouco de ação.

Tubal-Cain também desempenha o papel de tentador, quando acaba plantando ideias de revolta na mente de um dos filhos de Noé, que culminam num conflito físico entre ele e Noé, e entre este e sua família.

Mas o conflito que mais interessa a Aronofsky é o que Noé têm consigo mesmo, em suas reflexões sobre empenhar-se ou não em garantir a sobrevivência da espécie humana. Diante do estado de corrupção, ganância e barbárie que se encontra a maior parcela da humanidade, frequentemente ele se pergunta se não seria melhor que os homens fossem extintos por completo, incluindo sua própria família, a fim de o mundo livrar-se do mal causado pelo mamífero mais perigoso de todos.

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O Noé de Aronofsky literalmente carrega o peso do mundo em suas costas. É um homem incumbido de realizar uma tarefa hercúlea, um ato de fé, superação e desprendimento. E não só isto, como alguém que levará em sua consciência também o extermínio da maior parte da raça humana, crime do qual é acusado por Tubal-Cain em dado momento da história. Assim, o grande conflito de Noé, que encerra seu arco dramático, gira em torno de dar ou não uma chance para que a humanidade renasça e ganhe a chance de redimir-se dos danos que causou ao seu planeta-mãe. Tal conflito interno gera uma guerra entre ele e a maior parte de sua família, responsável pela forte carga dramática presente no ato final da narrativa.

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As belas ilustrações em estilo europeu de Henrichon contribuem para dar à narrativa o tom épico. Seus traços detalhados e soltos, somados às belas cores usadas pelo artista, conseguem traduzir visualmente a grandiosidade das construções e cenários, a amplitude da trama – que chega a mostrar trechos da criação do mundo, num dos momentos mais belos da graphic novel – e as milhares de espécies de animais presentes na história. Além disto, Henrichon consegue imergir o leitor nos abafados e claustrofóbicos trechos dentro da Arca, e fazê-lo sentir a violência dos combates entre os Vigias e o exército de Tubal-Cain que antecedem o Dilúvio.

Ainda que não seja totalmente fiel à versão dos cinemas, a graphic novel serve como uma chance visualmente bela de ter acesso à primeira versão concebida por Darren Aronofsky para a história que filmou, e um complemento ao filme.

NOAH
[Image Comics, 266 páginas / 2014]
Roteiro de Darren Aronofsky e Ari Handel, arte de Niko Henrichon

Nota: 9,0

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2 thoughts on “[QUADRINHOS] Noah: a graphic novel que deu origem ao filme de Darren Aronofsky

  1. Texto EXCELENTE, Rodrigo, que em muitos e muitos pontos também serve para o filme (E agora me deu uma vontade grande de rever.).

    Demais. Mesmo.

    Abraço!

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