[QUADRINHOS] “Necromorfus” de Gabriel Arrais e Magenta King (resenha)

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Imagine-se como alguém nascido com o dom de transformar-se em qualquer pessoa simplesmente tocando numa parte dela. Detalhe: ela tem que estar morta, caso contrário, seu poder não funciona. Eis a benção e a maldição de Douglas, protagonista de Necromorfus, uma criação da dupla Gabriel Arrais e Magenta King.

Embora seja uma HQ curta e, por isto, muito rápida de ler, vários detalhes chamam atenção, a começar pelo nº 1 na capa, que já indica tratar-se apenas do início da história. Basta terminar sua leitura pra concluir que ainda há um bocado de informações sobre o protagonista e seu mundo que ficaram de fora desta primeira edição.

A ideia de contar a história de Douglas a partir de uma consulta que ele faz com um psiquiatra especialista em casos bizarros como o dele é um dos acertos de Gabriel, escritor da HQ. Através desse recurso, temos contato com o aspecto mais íntimo dos conflitos enfrentados por Douglas, que se enxerga como um ser vazio de sentimentos quando está em sua forma original. Ele só consegue vivenciar emoções sob a forma da pessoa em quem se transformou.

necromorfus gabriel arrais magenta king resenha 1Outro ponto positivo é a decisão de começar a HQ já com uma situação que mostra quão problemático é o poder de Douglas, quando tem que lidar com alguém que conhecia a pessoa em quem se transformou, e sabia que ela estava morta.

E ainda há outro inconveniente: durante sua primeira transformação em determinada pessoa, ele revive a morte dela, portanto, é sempre traumático acrescentar mais uma identidade à lista crescente de “identidades reserva.”

Gostei particularmente de resoluções simples e criativas que Gabriel encontrou para o protagonista “administrar” seu poder, como uma coleção de itens pertencentes a alguns dos homens e mulheres nos quais Douglas já se transformou, que ele carrega consigo a fim de evitar choques traumáticos em situações que demandam um uso mais urgente de seu poder.

Também merece menção um mistério que é introduzido nessa primeira história, que deixa um gancho para ser explorado em edições futuras, as quais devem compôr o arco principal da série, e gerar um bocado de problemas que desafiarão as habilidades de Douglas, as quais demonstram mais flexibilidade do que a demonstrada nas primeiras páginas.

necromorfus gabriel arrais magenta king resenha 2Completando a equipe criativa, temos Magenta King, que soube traduzir visualmente as situações bizarras e o aspecto gore de alguns trechos da narrativa. Mas devo dizer que achei seu traço meio desleixado em algumas páginas, especialmente se comparado a outros de seus trabalhos, como o recente 9 Horas, para o qual empregou um traço mais refinado e caprichado. Ainda que ocorra tais problemas, a média final é positiva, pois ele captou bem a atmosfera insólita, tortuosa e em constante mutação da trama, o que combinou com a natureza dos poderes do protagonista. A combinação de tudo isto lembra um bom episódio de Arquivo X.

Necromorfus funciona como um ótimo “episódio piloto” de uma série que demonstra muito potencial para crescer. Deixo aqui registrado meu interesse por mais histórias do personagem, e que elas não demorem tanto a chegar (esta primeira edição saiu no final do ano passado).


Gabriel Arrais e Magenta King estarão no FIQ, em Belo Horizonte, até o dia 15 de novembro. Caso não possa ir ao evento, é possível comprar a HQ na loja virtual da Korja dos Quadrinhos. Necromorfus também faz parte do acervo digital da Social Comics.


necromorfus gabriel arrais magenta king capaRQT Comics

Korja dos Quadrinhos

2014

36 páginas