[QUADRINHOS] Não era você que eu esperava, de Fabien Toulmé (resenha)

Pra quem pensa que é fácil ser pai pela segunda vez, recomendo pensar de novo. E em seguida sugiro que leia essa graphic novel escrita e desenhada por Fabien Toumé.

Por quê? Pra começar, porque Fabien já é pai de duas meninas. E mesmo sendo pai, deu conta de produzir as mais de 240 páginas de Não era você que eu esperava.

Formar uma família é uma enorme responsabilidade. Todo planejamento envolvido pode ser enlouquecedor para alguém que se deixa levar por cada problema que surge, ao invés de tentar resolvê-lo antes de passar para o próximo.

Eu não sou pai, e ainda não sou casado. Mas consegui me compadecer do drama vivido e narrado por Fabien. Primeiro porque ele é só 2 anos mais velho que eu. Casou-se muito jovem e, na época em que teve a segunda filha, a primogênita já tinha quatro anos. Portanto, não foi difícil imaginar-me numa vida paralela em que minhas escolhas me levaram a uma situação semelhante.

O segundo motivo pelo qual me compadeci da história de Fabien é que o rapaz é um ótimo quadrinista, daqueles que desenham com paixão, e porque realmente desejam dividir sua experiência com seus leitores da forma mais sincera e direta possível. Isto reflete-se nos trechos em que expõe seus sentimentos mais passíveis de reprovação social com relação à filha recém-nascida. O motivo? Ela tem trissomia 21, também conhecida como Síndrome de Down.

Fabien soube expressar muito bem os motivos pelos quais teve tanta dificuldade de aceitar a condição da caçula, pois fez questão de falar dos acontecimentos que precederam a descoberta da trissomia de Julia. Motivos que remontam a um preconceito enraizado na infância de Fabien, num episódio que ele sabiamente narrou logo no início do álbum.

Mas, como todo bom drama que merece encontrar um público, esta é uma história de superação, de como o amor pode superar obstáculos, ajudar-nos a aceitar as adversidades, e encontrar em nós a força necessária para não desistir e seguir em frente.

É claro que Fabien aprende a amar Julia. Mas o grande momento só vem após muitas lágrimas, dúvidas, revoltas e frustrações. Fabien não aceita bem a notícia, e fica um tempo evitando o contato com a criança trissômica, porque tem medo de ser incapaz de tratá-la como sua filha. Tudo isto é narrado na graphic novel, que comove na medida certa, mas também nos ensina um pouco sobre as dificuldades que pais de crianças trissômicas enfrentam, sobre os preconceitos que eles têm que vencer, e as dúvidas que precisam sanar, pois são essenciais para o bem-estar deles e da criança.

Acima de tudo, Fabien foi muito honesto na história que contou. Ele não tentou agradar o leitor, nem levá-lo às lágrimas com truques baratos  e melodramas. É uma história muito real e, como tal, é narrada sem ignorar que nem tudo na vida é feito de tristeza e alegria extremos.

Não espere por um desfecho edificante e conclusivo, mas por uma constatação de que, na vida real, temos mais reticências e perguntas sem respostas do que pontos finais. E isto não é ruim. Pelo contrário, é de mais histórias assim que precisamos. Do tipo que nos ensina algo sem nos empurrar um clímax forçado.

Aprendi com Fabien e Julia que a trissomia é uma condição delicada, mas longe de ser motivo para tornar a vida dos pais e da criança uma tragédia. E, por isto, agradeço ao esforço louvável desse pai que, entre o trabalho e seus momentos com a esposa e as filhas, conseguiu separar um tempo pra nos contar da história da chegada de Julia a este mundo. Obrigado, Fabien. E parabéns pela Julia. 🙂

Julia Toulmé :3


Editora Nemo

Tradução: Fernando Scheibe

Brochura

23 x 16,8 x 1,6 cm

259 páginas

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Saraiva