[QUADRINHOS] Mystery Theatre: O outro Sandman

Sandman Mystery Theatre 29

Com toda a conversa em torno do lançamento de The Sandman: Overture (veja também a entrevista com o desenhista J.H. Williams III), bem como a notícia de que Joseph Gordon-Levitt deverá produzir e dirigir um filme sobre The Sandman (não “Homem-Areia”, como andaram noticiando por aí), nosso velho amigo Sonho dos Eternos voltou a povoar o imaginário coletivo com a obra-prima de Neil Gaiman (Watchmen que me desculpe, mas pra mim The Sandman é a realização máxima da arte sequencial). No entanto, por mais que eu goste de ler sobre a vida e obra de Morpheus (e recomende com veemência pra todo mundo – sério, se você não conhece, vá ler AGORA), estou aqui para falar não deste personagem, mas de um outro bem menos conhecido: o Sandman.

Se você está confuso, é porque é poser, e provavelmente usa óculos grossos sem grau e camiseta com cogumelo do Mario apesar de chamar o Luigi de “Mario verde”. Não, Zelda NÃO é o carinha de verde com a espada, e  Sandman NÃO é o nome do sujeito pálido, vestido de preto, com olhos totalmente negros, cabelo de vocalista do The Cure e balão de diálogo preto (era o final dos anos 80, cara, ser gótico tava totalmente na moda). Esse se chama simplesmente “Sonho” (Dream), ou quando muito Morpheus.

Robert Smith e The Sandman

Não é coincidência, Gaiman admite a inspiração.

Se é assim, quem diabos é o tal do Sandman então? Pois muito bem, eu vos apresento Wesley Dodds. Esta é a história de um milionário que, após a morte dos pais, vai para o Oriente aprender técnicas milenares, e ao retornar usa sua fortuna para criar um arsenal de artefatos tecnológicos com o qual sai à noite, disfarçado, para combater o crime. Não, eu não fiquei senil antes da hora, esqueci de quem eu tava falando e comecei a falar do Batman – o que acontece é que essa história de “milionário que faz gadgets e sai de noite pra combater o crime” é mais do que manjada (vide Arqueiro Verde, Homem de Ferro, Vingador Escarlate e uma rama de outros heróis da burguesia coxística).

Enfim, nosso Batman da Eurofarma iniciou sua carreira em 1939, mais dentro do contexto de literatura “pulp” e quadrinhos de mistério, que eram moda na época, do que como super-herói propriamente dito. Vestindo um terno, máscara de gás, chapéu de detetive e capa roxa, nosso herói usava uma “pistola” que soltava um gás verde que fazia os bandidos dormirem e/ou falarem a verdade. Com essas ferramentas (e, claro, um bom conhecimento de artes marciais e técnicas de detetive), ele investigava os crimes que via em seus sonhos proféticos. Mais tarde ele ganhou um uniforme brega de super-herói e um sidekick chamado Sandy, e foi inclusive um dos fundadores da Sociedade da Justiça, o primeiro grupo de super-heróis que se tem notícia e precursor da Liga da Justiça.

All-Star Comics nº 3

Capa da All-Star Comics nº 3, onde estreia a Sociedade da Justiça – note o Sandman no canto esquerdo

Esse Sandman da chamada “Era de Ouro” dos quadrinhos perdeu popularidade nos anos 40, conforme super-heróis mais… “super” passaram a tomar conta do cenário, e caiu na obscuridade. Ele aparecia mais como uma nota de rodapé sempre que se falava na Sociedade da Justiça, até receber uma referência inusitada em 1989, uma série nova, toda diferente e estranha, chamada… The Sandman. Isso mesmo, toda aquela falação sobre a obra de Neil Gaiman lá em cima não foi  pra atrair leitores incautos que achavam que iam ler sobre góticos imortais. A primeira edição de The Sandman menciona Wesley Dodds beeem de relance ao dizer que, com o aprisionamento do Sonho logo no início, o Universo buscou formas de suprir sua ausência, com o quadrinho mostrando nosso amigo de chapéu e máscara de gás. Uma baita responsabilidade, mas nada que tivesse muita consequência na série do Morpheus.

Talvez inspirados por isso, os autores Matt Wagner e Steven T. Seagle (sem relação) resolveram lançar em 1993 um reboot do personagem no selo Vertigo, em uma série chamada Sandman Mystery Theatre. Voltando às origens, SMT se passa nos anos 30, e acompanha as aventuras de Wesley Dodds, agora um personagem bem mais pé-no-chão, de óculos e até um pouco acima do peso, novamente com o terno verde, máscara de gás, chapéu, e agora um sobretudo ao invés da capa. Esta nova série, fora da continuidade da DC, tem um tom bem mais adulto e realista, substituindo o heroísmo exagerado dos quadrinhos por personagens vulneráveis, cheios de falhas, tentando fazer o que entendem como sendo o certo apesar das limitações – em outras palavras, bem humanizados.

Diálogo de Sandman Mystery Theatre

Apesar de continuar apresentando ação e aventura, Sandman Mystery Theatre é uma série bastante reflexiva e intimista, focando tanto nas vidas pessoais de Dodds (agora um recluso excêntrico ao invés de playboy) e sua namorada, Dian Belmont – uma das personagens femininas mais fortes e profundas dos quadrinhos – quanto no combate ao crime. Temas complexos como racismo, antisemitismo, sexismo, política e até aborto aparecem de forma bastante natural e equilibrada na série, sem o tom simplista de “lição de moral” nem medo de entrar a fundo nessas questões e no impacto que elas têm sobre as pessoas, mostrando estes e outros temas pelo lado humano e pessoal.

Matt Wagner é o autor de Grendel, uma série de quadrinhos que captura perfeitamente o estilo noir, e esta influência pode ser vista claramente em SMT. Homenageando as histórias de detetive dos anos 30 e 40, as tramas policiais de SMT são cruas, com detetives quase tão ruins quanto os criminosos que perseguem (como o personagem Tony Burke), repórteres sensacionalistas interessados em nada além de estampar cadáveres na primeira página dos jornais, e criminosos complexos e estilosos, com um toque de mirabolante (afinal, ainda é uma série de quadrinhos). O pulp está presente com toda a força, tanto no impacto da violência quanto na bizarrice dos personagens, e até na presença da literatura pulp em si (autores, editoras e leitores) na trama da história.

Sandman Mystery Theatre

Sandman Mystery Theatre não é, de forma alguma, uma série para todos os públicos, nem para todos os momentos. Ela requer uma mente aberta, um estômago forte (às vezes), e um tempo para reflexão. Há que se ter o estado de espírito certo para adentrar as profundezas do ser humano, que é o que a série nos oferece. Mas quem estiver disposto a fazer essa jornada encontrará personagens fascinantes, desenvolvidos ao longo da série de maneira magistral, e momentos sublimes de pura humanidade. E, para os fãs de The Sandman (o do Neil Gaiman), há inclusive um especial excelente, chamado Sandman Midnight Theatre, escrito em parceria entre Wagner e Gaiman, no qual Wesley Dodds e Sonho dos Eternos se encontram.

Links para download:

Sandman Mystery Theatre – download direto

Sandman Mystery Theatre – torrent

Sandman Mystery Theatre incluindo Sleep of Reason (2006) – torrent

Sandman Midnight Theatre – download direto

Sandman Midnight Theatre – torrent

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