[QUADRINHOS] Mulher Maravilha – Terra Um: quando a diplomacia vira rebeldia.

Diana viveu a maior parte de sua vida na Ilha Paraíso ao lado de sua mãe, Hipólita, a rainha das amazonas. Até o dia em que conheceu Steve Trevor e decidiu explorar o mundo dos homens. Esta é a história de como Diana tornou-se a Mulher Maravilha da Terra Um.

Caso você não saiba, as graphic novels do selo Terra Um ocorrem numa versão alternativa do Universo DC, onde as origens de alguns de seus heróis mais conhecidos ocorreram de maneiras diferentes. Já tivemos até agora o Superman de J. Michael Straczynski e Shane Davis (com dois volumes publicados no Brasil); o Batman de Geoff Johns e Gary Frank (dois volumes); os Novos Titãs de Jeff Lemire e Terry Dodson (que continua inédita no Brasil); e agora a Mulher Maravilha de Grant Morrison e Yanick Paquette.

Desde o seu lançamento em abril do ano passado, Mulher Maravilha – Terra Um gerou um bocado de repercussão e algumas polêmicas em torno do tratamento que Morrison e Paquette deram à personagem nesta versão que elaboraram para a origem dela. Muitas críticas negativas foram sobre como parte das mulheres da HQ foram retratadas.

Não pretendo contestar estas críticas em minha resenha, mas analisar tanto o aspecto objetivo quanto o simbólico e alegórico dela. De início já adianto que, pessoalmente, longe de interpretá-la como um meio de deturpar as mulheres e atacar o feminismo, a considero uma ficção fantástica com analogias sobre conflitos ideológicos entre algumas vertentes feministas. Mas, já chego neste ponto.

Mulher Maravilha – Terra Um começa narrando a rebelião das amazonas contra os homens liderados pelo semideus Hércules. Após derrotá-los, elas se isolam do resto do mundo, erguendo, com a ajuda da deusa Afrodite, uma barreira que impede o resto do mundo de encontrar a Ilha Paraíso. O que surge como uma solução pra se protegerem do temível patriarcado que dominou o mundo desde a antiguidade, acaba transformando a ilha numa prisão paradisíaca – embora a maioria delas não a enxergue dessa forma.

Neste cenário, nasce Diana, a única que ousou aproximar-se de um homem 3000 anos após o autoimposto exílio das amazonas (o que não chega a ser totalmente culpa dela, afinal, Steve Trevor “cai do céu” após seu avião ser derrubado pela barreira tempestuosa que envolve a ilha como um campo de força).

É interessante como a rebeldia de Diana contra as tradições amazonas reflete o confronto entre as feministas mais radicais e aquelas que defendem um posicionamento mais moderado e apaziguador, no lugar de uma atitude isolacionista e desagregadora.

Além disto, Diana tenta desconstruir o próprio mito de sua origem, ao questionar Hipólita a respeito de sua suposta natureza mítica. Paralelo a tais questionamentos, a chegada “fortuita” de Steve Trevor alimenta ainda mais seu desejo aventurar-se para fora da ilha que foi sua prisão desde o nascimento. Uma prisão tanto física quanto ideológica, algo que também é salientado pelo roteiro de Morrison.

Outro ponto que chama atenção é a forma como Morrison apresentou pequenas amostras da cultura amazona, levando em conta o fato de tratar-se de uma sociedade totalmente composta de mulheres, que assim permaneceu por três milênios. Testemunhamos rituais de forte carga sexual (de teor mais erótico do que explícito, vale ressaltar), e descobrimos que Diana tem uma amante, Mahla, a campeã das amazonas. Por motivos óbvios, relacionamentos homossexuais são praticamente a “regra social” na Ilha Paraíso, sendo também uma forma de perpetuar seu culto à feminilidade.

Vale também apontar outra leitura possível da origem de Diana, segundo a versão contada por Hipólita: por ter nascido primeiro como um sonho de sua mãe, que deu vida a uma escultura de barro (reparem também na releitura de Gênesis aqui presente), dá pra dizer que ela é uma espécie de tulpa de Hipólita, ou seja, a personificação de uma ideia. A tulpa, por sua vez, é um conceito muito caro a Morrison (ao ponto de ele chegar a citá-lo em seu livro Superdeuses, quando descreveu seu encontro místico com uma manifestação física do Superman). Sob esse viés, eu arriscaria dizer que Diana é a encarnação da rebeldia não manifesta de Hipólita. Uma personificação de seu desejo de libertar-se dos grilhões que ela impôs a si mesma e às amazonas sob seu comando e proteção.

A fim de atualizar diversos temas abordados nas primeiras histórias da heroína publicadas na década de 40, Morrison fez questão de espalhar diversos indícios da prática de bondage pelas amazonas. No contexto de sua versão da história, tal fetiche seria uma forma das amazonas rememorarem sua escravidão pelos homens, e reviver sua libertação. Também podemos dizer que tal prática é um meio de sublimarem a memória coletiva de seu passado trágico, incorporando uma versão sexualmente aprazível da submissão em sua cultura. Milênios depois de se isolarem do resto do mundo, a restrição da liberdade individual voluntariamente aceita converteu-se numa expressão do afeto das amazonas. Arrisco dizer que esta foi uma das formas usadas por Morrison para criticar, por meio de analogias, parte das restrições que as feministas mais radicais impõem sobre adeptas de seus preceitos. O bondage como prática incentivada pela cultura amazona é, em última análise – e para usarmos um termo bastante empregado pelas feministas – uma desconstrução de seu passado traumático, seguida de uma recombinação, cujo objetivo é enfatizar a força ao invés da fraqueza das amazonas diante dos homens que as oprimiram. Aliás, é importante observar que, na primeira cena da HQ, vemos Hipólita usando uma coleira no pescoço enquanto é subjugada por Hércules. Tal adereço volta a aparecer mais adiante, quando Diana, querendo demonstrar seu afeto por Steve, o presenteia com uma, para a perplexidade dele.

O que nos leva a outro cuidado que Morrison teve em sua reformulação da Mulher Maravilha: enfatizar o papel apaziguador da heroína. Por isto ela é confrontada não apenas com algumas pautas defendidas pelo feminismo, mas também com questões que abrangem outras “minorias” injustiçadas pelo “mundo dos homens”, como os afrodescendentes de escravos, como é o caso dessa versão de Steve Trevor.

Paralelo ao exposto acima, Morrison também salientou a que custo foi criado o paraíso terrestre das amazonas: o confinamento e a privação da liberdade de explorarem o mundo exterior à Ilha Paraíso. Aqui vale retomar as raízes bíblicas do mito sobre a criação de Diana. Nascida do barro, ela é uma versão feminista de Adão. Ao rebelar-se contra as restrições impostas por sua criadora, no lugar de ser expulsa do seu Jardim de Éden (e não “do Éden”, pois a palavra éden significa “delícias” em hebraico), Diana o deixa voluntariamente, a fim de conhecer o que sua mãe lhe negou (sendo tal ato o correspondente a Adão e Eva comendo o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal). O que ela encontra é um mundo cheio de mazelas que, na opinião dela, seriam amenizadas caso as amazonas dividissem seus conhecimentos e tecnologias com o resto do planeta (assim como algumas das ideias defendidas pelas feministas serviriam para melhorar o tratamento social dado às mulheres, se muitas delas não fossem tão radicais em sua defesa ao ponto de perderem o bom senso, a maturidade e a moralidade). Em sua desobediência e rebeldia, Diana busca um equilíbrio entre visões opostas ou simplesmente distintas, ao invés de abraçar extremos de um lado ou de outro. Isto é refletido na maneira como ela resolve a maioria dos conflitos a que é submetida: mais com diplomacia do que com força bruta. Tanto que na maior parte da história não vemos confrontos físicos, mas situações onde as personagens debatem ideias diferentes ou opostas, resultantes de suas visões particulares do mundo e de seu papel nele.

Talvez a maior surpresa dessa reformulação da Mulher Maravilha seja a nova versão imaginada por Morrison para a paternidade de Diana, que dá um significado e um sentido maiores para o seu papel no mundo das amazonas e dos homens. Mas esta eu deixarei pra vocês descobrirem quando lerem, porque vale a pena.

Os vários elementos visuais presentes em Mulher Maravilha – Terra Um são muito bem amarrados pela trama. Desde os braceletes usados por todas as amazonas da Ilha Paraíso, que remete àqueles usados por Hércules para prender Hipólita; passando pelo peitoral do traje final da Mulher Maravilha, que está presente desde o início, sob uma forma menos reluzente; até o corpete/maiô que ela usa e faz referência às tendências bondage e sadomasoquistas das amazonas. Ou seja, Morrison e Paquette capricharam no dever de casa, e pesquisaram bastante antes de montar a história.

Falando em pesquisar, o uso do Laço da Verdade no julgamento de Diana também foi uma bela sacada, além de uma homenagem a William Moulton Marston, que além de ser criador da Mulher Maravilha – cujas histórias foram a principal fonte de inspiração de Morrison pra essa nova versão – também foi o inventor do polígrafo, popularmente conhecido como detector de mentiras. O mesmo vale para o famoso “avião” invisível, que foi muito bem utilizado na trama, e marca presença desde as primeiras páginas. Todos estes artefatos e acessórios, assim como todas as personagens e cenários da graphic novel, foram belamente retratados pela arte de Yanick Paquette, que ficou adequadamente vistosa e, quando necessário, voluptuosa com o acréscimo das cores de Nathan Fairbairn (que também fez um belo trabalho em Repeteco). Paquette também merece elogios pelas elegantes diagramações, que usam elementos imagéticos relacionados aos eventos narrados para ampliar nossa imersão na história.

Por tratar-se de uma obra cuja protagonista está numa problemática convergência de ideologias contrastantes, sendo algumas delas opostas e outras um tanto radicais em suas afirmações e imposições, é compreensível que Mulher Maravilha – Terra Um tenha incomodado algumas representantes dessas vertentes, mesmo sendo uma obra vinda de dois artistas declaradamente feministas. Talvez o grande problema não tenha sido suas representações das mulheres na obra, mas a “ousadia” de proporem um início de diálogo, uma atitude menos agressiva e mais diplomática, menos conflituosa e mais apaziguadora. Infelizmente, ainda não estamos prontos para uma heroína como a Mulher Maravilha, mesmo 75 anos depois de sua criação, embora precisemos de mulheres como ela mais do que nunca…


Panini Comics

Tradução: Alexandre Callari & Bernardo Santana

Capa dura

26,2 x 17,2 x 1,2 cm

148 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

Amazon

Saraiva

2 thoughts on “[QUADRINHOS] Mulher Maravilha – Terra Um: quando a diplomacia vira rebeldia.

  1. lindamente desenhada, mas uma das piores historias da MM, só os fãs do grant morrison que acham ele um deus vão gostar, porem essa reformulação foi só para essa historia elseworld e não afeta em nada rebirth ou a continuidade

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