[QUADRINHOS] “Ms. Marvel – Nada Normal” de G. Willow Wilson e Adrian Alphona (resenha)

Ms. Marvel (2014-) 001-000

Kamala Khan é descendente de paquistaneses muçulmanos que vive em Nova Jérsei. Com 16 anos, tudo que ela quer é ir a uma festa com os amigos, mas seus pais não deixam, o que não a impede de desobedecê-los e ir sem que eles saibam. Tal atitude mudará sua vida para sempre.

Quando a Marvel anunciou que a nova Ms. Marvel seria uma adolescente muçulmana, a notícia rapidamente se espalhou por diversas mídias, aumentando as expectativas em torno da série da nova heroína. Felizmente, assim que ela foi lançada, o sucesso de vendas e de crítica foi quase imediato. Dois anos depois a Panini finalmente publicou o primeiro arco da série, escrita por G. Willow Wilson e desenhada por Adrian Alphona, no encadernado Ms. Marvel – Nada Normal, que começou a chegar às livrarias e bancas esta semana.

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Pra mim não foi uma surpresa constatar, logo no início da leitura, que Kamala Khan é uma das melhores personagens a ser introduzida no Universo Marvel em tempos recentes. A garota consegue conquistar o leitor já em sua primeira aparição na história originalmente publicada em All-New Marvel Point One, uma antologia que saiu em 2014, onde a Marvel apresentou uma amostra dos títulos que lançou naquele ano, entre eles Ms. Marvel. Na história, de apenas 8 páginas, somos apresentados a Kamala, e rapidamente descobrimos parte de seus poderes; sua relação conturbada com os pais; e curiosidades sobre a cultura paquistanesa e o islamismo. Tudo isto transmitido ao leitor de maneira leve e descontraída pelo texto de Willow, e retratado no traço fluido e marcante de Alphona, cujas figuras humanas caricatas acentuam os traços característicos de homens e mulheres paquistanesas, sem apelar para estereótipos. Seus desenhos lembram uma versão mais “solta” do Frank Quitely.

Kamala é engraçada, inteligente, nerd, geek, sarcástica, meio atrapalhada, e uma adolescente adorável de um jeito meio amalucado e desengonçado.

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Outro ponto que torna esse primeiro arco divertido é Willow estabelecer Kamala como uma fã dos Vingadores – ela escreve fanfics deles! – antes de ter seus poderes inumanos ativados quando é atingida pelas névoas terrígenas, que se espalharam pela Terra após a explosão de Attilan sobre Nova York durante a saga Infinito (mais sobre ela aqui).

Aliás, é bem bacana enxergar um evento de proporções globais do ponto de vista de uma adolescente que estava totalmente alheia ao que ocorreu durante a saga Infinito. Willow e Alphona souberam dividir com o leitor a sensação de desorientação de Kamala diante de fenômenos que ela não compreende.

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Outro grande acerto da dupla foi abordar problemas comuns de garotas adolescentes, mas levando em conta a cultura de Kamala e sua família. Logo na primeira edição ela tem uma discussão com os pais, que não querem deixá-la ir a uma festa com os amigos. Sim, é um problema bem típico de garotas, que é retratado de maneira bem natural pelo texto e pela arte, o que particularmente me agradou bastante.

Outra sacada, que não chega a ser original, mas é muito bem conduzida pela escritora, é o paralelo que ela estabelece entre as mudanças que Kamala sofre quando ganha super poderes e sua adolescência; assim como entre sua luta para se adaptar às mudanças e seus esforços para lidar com amigos e colegas de escola de diferentes culturas e etnias, tornando todo o lado super-heroico uma metáfora para sua ânsia de sentir-se parte de um grupo, de aceitar-se como é, e de construir sua própria personalidade.

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Este primeiro arco de Ms. Marvel vale tanto por todo o processo de aprendizado de Kamala, que tenta entender como funciona seus poderes, quanto pelas discussões da protagonista com a família, em diálogos não somente bem escritos, mas bem “interpretados” pela arte de Alphona, que domina excepcionalmente a linguagem corporal e facial. Durante a leitura dá pra esquecer que é a série de uma super-heroína, e encará-la como um drama adolescente bem feito. Os diálogos dela com o pai, em especial, são ótimos, oscilando naturalmente entre a comédia e o drama. Nestes a sensibilidade feminina da autora se mostrou essencial, pois funcionam primorosamente.

Aliás, o núcleo familiar de Kamala foi um achado de Willow, pois foi graças aos obstáculos impostos pelos pais da heroína que a autora conseguiu criar uma versão contemporânea e feminina daquelas primeiras histórias do Homem-Aranha, quando ele tinha que lidar com dramas caseiros enquanto encontrava uma forma de atuar como super-herói. No caso de Kamala, ela tem que encontrar um jeito de combater o crime enquanto está de castigo por ter desobedecido os pais.

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Já as partes em que Kamala está descobrindo seus poderes são particularmente engraçadas, funcionando como uma boa comédia de gags físicas. Todas ocorrem com o intuito de desenvolver a personagem, pois é natural que uma adolescente tenha dificuldades para se acostumar a mudanças tão drásticas em seu corpo, especialmente quando um de seus poderes é aumentar e diminuir de tamanho e mudar de forma.

E ajudou bastante a forma como Willow usou os recordatórios, escrevendo monólogos de Kamala nos quais a garota reflete sobre o que vem acontecendo com ela, mas sem soar redundante ou enfadonha. Em parte é graças a este recurso narrativo bem empregado que somos cativados pela heroína, que divide conosco suas impressões do que está experimentando.

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Com um primeiro arco excepcional em todos os aspectos, resta torcer para que a Panini não demore pra lançar o próximo. Kamala Khan é uma heroína feita sob medida para os nossos tempos, e tem tudo para tornar-se uma inspiração para muitas garotas (e garotos também, por que não?).


nota-5


ms marvel nada normal capaPanini Comics

Disponível em capa dura ou cartonada

26 x 17 cm

132 páginas

Onde comprar: Saraiva | Fnac