[QUADRINHOS] Monstro do Pântano #1 – Nova fase chega ao Brasil

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Neste encadernado começa a nova fase do Monstro do Pântano, cujas histórias passam a ser escritas por Charles Soule. O escritor deu sorte de pegar o personagem numa fase em que está se adaptando à sua nova condição, ainda tendo que aprender a lidar com seus poderes de acesso e controle sobre o Verde, após Alec Holland desistir de ser humano para tornar-se um ser totalmente vegetal, no final da saga Mundo Podre (publicada nas últimas edições do mix Dark, que foi cancelado em janeiro na edição 16).

É interessante a inversão de papéis nesta nova fase do personagem. Enquanto na fase clássica de Alan Moore o Monstro do Pântano era um ser vegetal que pensava ter a mente de Alec Holland, agora Alec, que serviu de base para a criação da consciência do Monstro original, é um ser humano que desistiu de sua humanidade para tornar-se o avatar do Verde, e para isto teve que tornar-se um elemental das plantas.

O Monstro do Pântano agora tem que manter o equilíbrio do Verde na Terra, e para isto viaja pelo mundo realizando intervenções “cirúrgicas”, muitas vezes drásticas, em pontos do planeta onde o Verde está sendo manipulado de maneiras que afetam seu estado natural. Decisões difíceis como destruir um oásis no meio de um deserto, única fonte de sobrevivência de um povo; ou uma plantação de arroz que poderia salvar milhares de pessoas da fome, fazem parte de seu papel como avatar do Verde. Isto abre para Soule a chance de explorar a relação entre o Monstro do Pântano e o Parlamento das Árvores, que Alec desconfia estar tirando proveito de sua inexperiência para manipular suas ações.

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O Monstro do Pântano enfrenta o Espantalho (desenhos de Kano, cores de Matthew Wilson).

Usar o Espantalho como primeiro adversário do Monstro do Pântano nesta nova fase do personagem foi uma ótima escolha de Soule. Apesar de seu corpo vegetal, Alec ainda é atormentado pelo medo de perder o que restou de sua humanidade ao submeter-se mecanica e friamente aos apelos constantes do Verde, condenando, com isto, a vida de seres humanos que tentam controlar o Verde para sobreviver. Além disto, Soule mostra que toda vez que entra no Verde, o Monstro do Pântano sente-se acolhido e em paz no mar de informações trocadas pela rede composta por todas as plantas do planeta, o que também é uma espécie de tentação que ele sempre tem que vencer para não perder-se, literalmente, absorvido pelo Verde. Este embate interno entre sua individualidade e a coletividade formada pelo Verde, com quem está sempre conectado, exige um auto-controle que, se perdido, pode causar um desequilíbrio do Verde capaz de ameaçar tanto a vida vegetal do planeta, como as formas de vida animal.

Soule mostra o conflito interno do Monstro através dos recordatórios, que em alguns pontos alternam entre os pensamentos de Alec e os apelos do Verde, que além de incitá-lo a cometer atos que prejudicam outras formas de vida, expressam sentimentos como inveja, egoísmo e orgulho, os quais nublam o julgamento e o foco dos poderes do Monstro, e ameaçam transformá-lo numa marionete sem personalidade de uma consciência vegetal coletiva. O ato é comparável a alguém que cede sua mente aos impulsos do inconsciente, sem filtrá-los com o superego.

Não é a toa que o primeiro problema que Soule cria para o Monstro é um descontrole sobre seus poderes, que se voltam contra Metrópolis, fazendo a cidade inteira ser invadida por plantas. A premissa pode ser encarada com uma homenagem a um arco bem famoso do Monstro escrito por Alan Moore, em que ele atacava Gotham de maneira semelhante. Enquanto na história clássica o motivo era vingança, nesta é por autodefesa psicológica contra o ataque do gás do Espantalho, que desencadeia o ataque.

O "ataque" do Monstro do Pântano a Metrópolis

O “ataque” do Monstro do Pântano a Metrópolis (desenhos de Kano, cores de Matthew Wilson).

Apesar de apenas desencadear o ataque do Monstro a Metrópolis, Soule aproveitou a chance de usar o Espantalho para apresentar uma evolução no modus operandi do vilão, ao revelar que ele tem várias versões de seu gás do medo, precavendo-se da possibilidade de enfrentar seres com fisiologias não-humanas num mundo cheio de super-seres alienígenas e meta-humanos.

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Superman dando um conselho para o Monstro do Pântano (desenhos de Kano, cores de Matthew Wilson).

O diálogo que ele tem com o Superman no final do primeiro mini-arco é um bom exemplo do quanto Soule estudou os personagens para explorá-los psicologicamente (“Eu me conecto. Procuro pessoas para ajudar”). Tanto que ano passado o escritor assumiu o novo título Superman and Wonder Woman, focado no casal de super-heróis.

As histórias de Charles Soule lembram em tom as primeiras escritas por Alan Moore, que eram mais fechadas, ligadas entre si pela evolução do Monstro do Pântano. No caso das histórias de Soule o ponto em comum, além do Monstro, é a ameaça do misterioso Semeador, que está bagunçando com o equilíbrio do Verde, vagando pelo mundo resolvendo problemas relacionados a fome e a miséria. Isto gera um embate ideológico e psicológico interessante, além de abrir espaço para o autor discutir sobre abusos contra a natureza, e os riscos gerados por forçá-la numa direção que não é a natural. Soule sabiamente usa tais questões para criar histórias de terror, como no último arco do encadernado, que conta com a participação especial de John Constantine.

Em “A Árvore de Whisky” o autor compara o efeito da bebida produzida pela a árvore à influência que o Verde tem sobre o Monstro do Pântano, controlando as ações de quem o bebe, levando a pessoa a satisfazer o desejo da mente de colmeia da qual os habitantes da vila de Fetters Hill passam a fazer parte ao entregar-se ao alcoolismo desenfreado. Isto ajuda o Monstro a enxergar melhor sua própria posição perante o Verde.

Arcane em seu inferno particular  (desenhos de Jesus Saiz, cores de Matthew Wilson).

Arcane em seu inferno particular (desenhos de Jesus Saiz, cores de Matthew Wilson).

Nestas seis primeiras histórias de Soule, o autor expõe sua visão do que o Monstro do Pântano representa: ele não é apenas o avatar do Verde, mas o lado humano dele, aquele que pesa entre o que faz bem ao Verde, e o que beneficia os outros seres de carne que vivem no planeta. É seu papel não apenas manter o equilíbrio natural do Verde, mas entre ele e os demais seres com quem convive na Terra, não cedendo cegamente aos impulsos destrutivos que beneficiam apenas o Verde, ignorando os outros reinos elementais que formam a biosfera.

Este encadernado também trás uma história focada em Arcane, na qual Soule aproveita a chance de mergulhar mais fundo nas motivações e na psique do vilão com o qual ainda não trabalhou, tanto esclarecendo pontos de sua relação com Abbie, que ficaram pouco definidos na fase de Scott Snyder no título, como também preparando o caminho para sua futura volta.

O Monstro do Pântano em comunhão com o Verde.

O Monstro do Pântano em comunhão com o Verde (desenhos de Kano, cores de Matthew Wilson).

Na arte Soule conta com os competentes Kano e Jesus Saiz. Kano segue a “cartilha” de Yanick Paquette (desenhista de quase todas as edições escritas por Snyder), diagramando páginas com quadrinhos emoldurados por galhos e ramos. Outra ótima sacada de diagramação de Kano é formar com alguns quadrinhos o mesmo padrão mosaico das nervuras das folhas de plantas, detalhe visual que ele aproveita para fazer uma ótima transição de ambientes, igualando as nervuras à forma do mapa das ruas de Metrópolis, enquanto o Monstro sai do Verde e chega na cidade do Superman.

Já o belo e caprichado traço de Jesus Saiz – que desenha a terceira e a última história – dá conta tanto das cenas idílicas que retratam o “inferno paradisíaco” de Arcane, quanto da violência gráfica e visceral das atrocidades cometidas por Arcane em seus flashbacks. E ambos os desenhistas têm o inspirado trabalho de colorização de Matthew Wilson para enriquecer suas artes com tonalidades, sombras e texturas que tornam tanto o Verde mais vivo, como as cenas de terror mais atemorizantes.

Charles Soule mostrou-se um substituto à altura das melhores histórias de Scott Snyder, e um “herdeiro espiritual” de Alan Moore no que diz respeito à sua preferência por histórias menores e mais auto-contidas de terror, as quais levantam questões morais, psicológicas e ecológicas, além de provar que entende o personagem o suficiente para explorar seu potencial. Vale a pena continuar acompanhando seu trabalho nos próximos encadernados.

monstro-do-pantano-1-panini-comicsMONSTRO DO PÂNTANO #1
[Histórias originalmente publicadas em Swamp Thing #19 a 23.1, Panini Comics, 132 páginas, R$19,90 / março de 2014]
Roteiros de Charles Soule, desenhos de Kano e Jesus Saiz, cores de Matthew Wilson

Nota: 8,0