[QUADRINHOS] “Mate Minha Mãe” de Jules Feiffer (resenha)

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Nesta graphic novel de Jules Feiffer, mistérios e assassinatos conectam as vidas de cinco mulheres num atípico romance policial noir que bebe de variadas fontes.

Um detalhe que já desperta a curiosidade de um leitor com alguma bagagem cultural é a lista de nomes a quem Jules Feiffer dedica “Mate Minha Mãe“: os quadrinistas Milton Caniff e Will Eisner, os escritores Hammett Chandler e [James M.] Cain, os diretores John Huston, Billy Wilder e Howard Hawks, e sua esposa Joan Z. Holden.

Mas não se engane com a lista acima, pois o que Feiffer faz o tempo todo na graphic novel é subverter as convenções dos gêneros policial e noir, deixando as mulheres dominarem a narrativa, e os homens se submeterem a elas, sendo, em sua maioria, coadjuvantes sem importância.

Mesmo sendo uma subversão do noir, Feiffer usou seus elementos mais conhecidos, como femme fatales, detetives durões, machistas, paqueradores e verborrágicos, figuras misteriosas e reviravoltas surpreendentes num clima soturno. Portanto, trata-se de uma desconstrução inteligente do gênero, pois o autor não ignorou seus componentes básicos, usando-os a favor e não contra sua reinterpretação.

Voltando aos homens de “Mate Minha Mãe“, eles parecem dividir-se em duas “castas”: os que têm aparência de trogloditas machões, e os de compleição frágil. Na verdade, todos eles são, a sua maneira, frágeis, inseguros, preguiçosos, contam mais vantagem do que realmente as possui, e pouca influência têm sobre os acontecimentos, o exato oposto das histórias mais tradicionais dos gêneros policial e noir. São todos dependentes das mulheres. “Meninos mimados” não muito diferentes do filho de Annie, abandonado pela mãe e criado pela “vovó” Elsie na parte 2 da graphic novel. Tudo funcionando como crítica aos estereótipos, ao salientá-los pra desconstruí-los sob uma visão mais contemporânea daquele passado tão caricato aos nossos olhos atuais.

Como o título já sugere, é tudo sobre figuras maternas, sejam elas biológicas, “de criação” ou simbólicas. Annie é a filha rebelde que pisa no namorado para impor-se e agir de forma superior à imagem que tem de Elsie, sua mãe, que ela enxerga como uma mulher passiva demais, ao contrário dela. Já Elsie é a mais romântica das mulheres de “Mate Minha Mãe“, se debatendo num mundo dominado pelo machismo patriarcal, que acaba conhecendo um homem diferente do tradicional, por quem logo se apaixona.

Elsie mostrando quem manda.

Elsie mostrando quem manda.

Uma das ironias da trama é que mesmo Elsie, a mulher mais submissa aos homens da graphic novel, tem consciência de sua passividade, que é expressa num monólogo que trava a respeito de sua condição, o qual denuncia a inteligência de Feiffer ao compor suas mulheres. Todas são – alternada ou simultaneamente  – sensíveis e donas de si na hora que precisam (por exemplo: Elsie livra-se de um trio de possíveis estupradores desafiando um comunista radical no processo, e desistindo de contar com a ajuda da polícia para safar-se da situação – veja ao lado).

Não há “paternalismo” na trama arquitetada por Feiffer. A força feminina presente nela é praticamente “literalizada” pelas figuras imponentes e ameaçadoras das irmãs Hughes, todas altas demais para os padrões femininos tidos como “normais” e “aceitáveis” na época. Elas, ao lado de Elsie e Annie, são a força motriz de “Mate Minha Mãe“. Das cinco nascem desejos homicidas, compondo quase um “complexo de Édipo” feminino, figurando outra subversão promovida por Feiffer.

O quadrinista também merece elogios por abordar, numa narrativa ambientada nos anos 30 e 40, temas que são polêmicos até hoje, como identidade de gênero, homossexualidade, transgênero, feminismo, fragilidade masculina, empoderamento da mulher, tudo numa estrutura que remete a um subgênero literário e cinematográfico historicamente dominado por autores, diretores e personagens masculinos e/ou machistas.

A narrativa lembra um novelo de lã composto de vários fios que se emaranham, como linhas de destinos que se cruzam sem o total controle dos personagens. O microverso composto por eles os leva a arruinarem-se mutuamente, algo que é sugerido desde o início, apesar de nenhum deles, e sequer o leitor, numa primeira leitura, ter ciência. Uma segunda leitura (que eu julgo essencial pra compreender as profundidades e nuances da narrativa de Feiffer) revela que os rabiscos enovelados do artista foram calculadamente difusos e trôpegos, por mais paradoxal que isto soe num primeiro momento.

Um exemplo da narrativa "gingada" de Feiffer.

Um exemplo da narrativa “gingada” de Feiffer.

Feiffer não tem o que considero uma arte bonita de se ver (pelo menos não numa primeira olhada), mas não dá pra dizer que falta ritmo à sua narrativa. Seu traço tortuoso e muitas vezes “garranchado” e rabiscado é muito fluido, e suas pinceladas em aquarela acinzentada deram uma atmosfera enevoada e sinuosa a uma trama que pede este clima “nublado” envolvendo os personagens e sublinhando seus conflitos e dramas. Com isto ele conseguiu um efeito raro em quadrinhos: sugerir uma “melodia” através da linguagem corporal “ondulante” dos personagens em cenas musicais, como as cantadas pela Dama do Véu.

Como antecipei acima, “Mate Minha Mãe” é dividida em duas partes. Enquanto a parte 1 se passa nos anos 30, em plena “era de ouro” do cinema “ingênuo”, de musicais e comédias “bobinhas”; a parte 2 ocorre durante anos 40, que marcou o fim da “inocência” de Hollywood, e o início da 2ª Guerra Mundial, com os personagens mais amadurecidos, alguns deles mais amargos, rancorosos ou vingativos.

Importante também notar na parte 2 como Feiffer brinca com a ironia de usar um programa de rádio “bobinho” e típico da fase mais “ingênua” de Hollywood como isca para uma armadilha contra os japoneses, elaborada pelo mesmo Artie que, na parte 1, era um adolescente bobão submisso a Annie, reaparecendo na parte 2 como um respeitado capitão do exército estadunidense. A inocência da década anterior é subvertida pelos sombrios e violentos anos 40. Em “Mate Minha Mãe” a “roda da fortuna” gira, convergindo destinos para muitos fins trágicos, e recomeços promissores para as revoluções sociais das décadas vindouras.

Quentin Tarantino curtiu isto. :P

Quentin Tarantino curtiu isto. 😛

O clímax da graphic novel toma emprestado aquele misto de comédia e tragédia recorrente na filmografia dos Irmãos Coen, uma “comédia de erros” na qual os personagens têm os destinos trágica e violentamente ligados num catártico final que os leva a uma resolução muitas vezes fatal de seus conflitos. Nele a “inocência” maniqueísta de todo o elenco encontra seu fim, literal ou figurativo, quando em choque com uma realidade mais composta por tons de cinza, nuances e ambiguidades. A conclusão retrata o início de uma era menos calcada nas tradições, e o surgimento de papéis sociais mais “mercuriais” e “flexíveis” na composição da família e da sociedade. É basicamente isto que Feiffer resume na graphic novel: uma traumática e violenta mudança de paradigmas, onde as mulheres ganham mais poder sobre os rumos da sociedade, culminando no quadro diverso de gêneros que encontramos hoje no mundo inteiro. “Mate Minha Mãe” é o epitáfio de algumas tradições, e a gênese de algumas transmutações.


nota-5


mate minha mae jules feiffer quadrinhos na ciaCompanhia das Letras (selo Quadrinhos na Cia)

Brochura

27 X 20,9 X 1.20 cm

160 páginas

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